Todos os Pássaros no Céu – Charlie Jane Anders

Todos os Pássaros no Céu é da autora Charlie Jane Anders, vencedor do prêmio Nebula, e lançamento de 2017 da editora Morro Branco.

Sobre o Livro

Patrícia e Laurence enxergam o mundo de maneiras diferentes. Ela adora a natureza e consegue falar com os animais. Teve até algumas experiências que por vezes desafiam sua mente a entender se aquilo foi real ou se ela está ficando louca. Já o garoto se volta para o mundo tecnológico e além da sua máquina do tempo de dois segundos, está construindo um super computador. Porém, ter essas estranhezas durante o período mais conturbado da escola nunca é algo que rende bons frutos.

“No jogo da vida e da evolução, existem três jogadores à mesa: os seres humanos, a natureza e as máquinas. Sem dúvida, estou do lado da natureza. Mas a natureza, suspeito eu, está do lado das máquinas.” (George Dyson, Darwin Among the Machines)

Dez anos depois de terem se separado para tomarem caminhos diferentes, ambos se encontram. Patrícia está formada em uma secreta escola de magia, mas precisa usar seus poderes com cautela; enquanto Laurence é um cientista tentando salvar o mundo, com uma máquina que não se sabe quando ficará pronta. Entretanto, conforme seus mundos colidem, algo mais do que sua relação de seus passados os une.

Em lados opostos, vivendo situações impossíveis, magia e ciência travarão uma batalha pela continuidade do mundo como conhecemos.


Minha Opinião

Esse é um daqueles livros onde ou você o carrega no coração ou vai ser difícil entender o propósito. Todos os Pássaros no Céu passa longe de ser convencional ou de usar linhas narrativas explicativas e lógicas. Há um desafio ao leitor em achar significado nos atos e nos acontecimentos. E, mesmo a trama envolvendo ficção científica e magia, o foco não reside nesses aspectos e sim nas relações entre as pessoas e no significado que isso tem frente ao peso de coisas mais importantes, como o destino da humanidade.

É uma história de amor, mas não entre um casal. É uma relação de amizade, sem ser amigos. É sobre compreensão, sem entender coisa nenhuma. É simples? Se tirarmos todos os arabescos que tentam enfeitar a trama, sim.

“Laurence não ficava por ai sentindo pena de si mesmo, ele agia.”

Basicamente, Patrícia e Laurence são dois underdogs. Ambos sofrem bullying, ambos tem relações conturbadas com os pais, ambos querem escapar a sua realidade. Eles vão então se unir para escapar e ser o apoio que o outro precisa? Não exatamente. Há um individualidade mútua que os distingue, que impede que eles se aproximem mais que na casualidade de um propósito e, mesmo assim, muitos chamariam de amizade, porque também há uma preocupação, um receio de ferir, enquanto tudo é possível pra se manter “vivo” dentro da escola.

“Crianças são adultos que ainda não aprenderam a transformar o medo em fantoche.”

E em meio a isso há pássaros e árvores falantes, seitas de assassinos, cientistas inteligentíssimos e muitos adolescentes maldosos. É quase como realismo mágico, mas com mais regras, o que pra mim, salva a situação. Pois se tem algo que me encrenca o humor é pegar um livro onde absolutamente tudo pode acontecer, se criar, e nada precisa ser explicado. Aqui, por mais que haja uma certa insanidade em parte da situação, você logo de cara entende até onde a autora pretende ir com aquilo e os limites do que vamos considerar real nesse mundo ficam estabelecidos.

A minha interpretação dessa história foi que a autora trouxe os personagens a frente com o propósito de representar algo maior em suas personalidades. Com isso, a certo ponto da história, perto da 4ª parte, eu abri mão de pensar neles como Patrícia e Laurence, e realmente os absorvi dentro de seus conceitos.

A batalha ente natureza e ciência é algo que permeia as discussões há muitos anos. Nós construímos um mundo mais tecnológico, mais isso gera consequências no nosso planeta e parece difícil ter os dois polos em harmonia. O que o livro se propõe com essa história, é exatamente expor isso de uma forma mais lúdica, a disfarçar o assunto sério por algo com que o leitor possa se relacionar, personagens que sentem e vivem a essência de cada um desses aspectos em sua vida de forma muito forte e presente.

A leitura foi um pouco mais lenta no começo e, como a sinopse entrega uma grande parte da trama, eu fiquei mais empolgada quando alcancei a parte que se desvencilhava do que eu já sabia para trabalhar o resto da história. Essa edição da Morro Brando está linda, como são também os outros livros da editora. Eles tem um cuidado muito grande em, mesmo entregando o volume em edição comum com capa de papel, fazer um trabalho exemplar. O que, ao meu ver, deveria ser o propósito de todas e infelizmente não é.

“Está ai a raiz de todo o mal: não fingir como todo mundo faz. Porque todos nós, malucos de uma figa, não conseguimos aguentar quando outra pessoa revela nossa loucura. É como se tivesse formiga embaixo da pele. Temos que destruir você. Não é nada pessoal.”

Não sei se esse é um título que agradaria a todos os leitores, mas pra mim foi uma experiência bem legal. Gosto desses livros ontem a gente fica um pouco confusa sobre o que é realmente a trama e vai formando teorias aos poucos, descobrindo novos formatos e propósitos dentro da história.

Todos os Pássaros no Céu é uma história mágica que flutua entre a fantasia e a ficção científica pra nos trazer uma narrativa que brinca com temas atuais de uma forma mais leve. Que vai do divertido ao sério em uma mudança de frase, e que anseia que o leitor o acompanhe nessa dança, dando vida a esses temas com a mente aberta. Ao mesmo tempo em que nos apaixonamos pelos personagens, eles também se tornam pessoas difíceis de alcançar pela sua representação, e isso foi algo novo com o que me confrontei. Certamente lerei outras histórias dessa autora quando elas surgirem e recomendo que você dê uma chance e descubra se vai ser encantado também!

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TODOS OS PÁSSAROS NO CÉU

Autor: Charlie Jane Anders

Editora: Morro Branco

Ano de publicação: 2017

Desde pequenos, Patrícia e Laurence tinham formas diferentes – e às vezes opostas – de enxergar o mundo. Patrícia podia falar com animais e se transformar em pássaros. Laurence construía supercomputadores e máquinas do tempo de dois segundos. Enquanto tentavam sobreviver ao pesadelo interminável da escola, seu isolamento se transformou em uma amizade cautelosa. Até que circunstâncias misteriosas os separam para sempre. Ou assim eles pensavam.
Dez anos depois, ambos se reencontram em São Francisco. O mundo está prestes a implodir. Patrícia é formada em uma secreta escola de magia, e Laurence é um cientista tentando salvar a humanidade. A medida que os dois se reconectam, se veem levados a lados opostos em uma guerra entre ciência e magia. E o destino do mundo depende dos dois. Provavelmente.
Uma profunda, mágica e divertida análise sobre a vida, o amor e o apocalipse.

É a criadora e autora do Resenhando Sonhos.
Gaúcha do interior do Rio Grande do Sul, hoje mora na capital Porto Alegre e quer conhecer o mundo.
Publicitária por formação, sonhadora por opção. É mal humorada e chata.