Trainspotting 2 (2017) | Crítica

Dirigido por Danny Boyle, Ewan McGregor reestrela a continuação do clássico cult dos anos 90, “Trainspotting – sem limites”.

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“Trainspotting”, lançado em 1996, marcou os anos 90 como um de seus clássicos. Tematizando excessos e vícios, a romantização do consumo de drogas e o surrealismo advindo das “viagens” proporcionadas, o subtexto inteiro do filme está interessado na transição do modo de vida rockstar, da juventude pós-baby boomers (nascidos na década de 70) e seus abusos em heroína e afins para o da vida vazia e sem significado proporcionada pela sociedade capitalista, a vida adulta, em que temos acesso a vícios mais domesticados e socialmente aceitos (“escolha a vida: escolha um emprego, escolha uma família, escolha conjuntos com cores que combinam para o seu banheiro”, satiriza uma campanha antidrogas da época o monólogo inicial, “escolho não escolher essa vida, escolho escolher a heroína”).

No primeiro filme, personagens comentavam ao longo da projeção que “as drogas estão mudando, a música está mudando”. “Trainspotting 2” retorna entao como uma atualização de seu primeiro filme, em um mundo em que as redes sociais passam a figurar também como um possível vício nocivo e a indústria cultural intensifica suas consequências que propagam formas mais enraizadas de uma cultura capitalista, isto é, interessada na vida proposta pelos meios dominantes, dos quais os personagens buscavam o tempo inteiro abdicar ou evitar ao longo do primeiro filme, em que se tornava “vício” tudo aquilo que era meio de fuga de tal estilo de vida, seja a heroína, seja o amor, seja o sexo, ou mesmo, as amizades. Disto, “Trainspotting 2” revela-se primeiramente como a promessa de uma obra necessária para reavaliarmos nossos estilos de vida, da mesma forma que a geração baby boomer o fez àquela época – e Danny Boyle convida-os para fazê-lo mais uma vez, acompanhados das gerações mais novas.

Agora, falando de “Trainspotting 2” propriamente dito, e não do filme que o precede, o início é emblemático: enquanto no lançamento de 1996, o protagonista está na rua a correr da polícia após um furto, 20 anos depois, está correndo em uma esteira de academia: talvez igualmente sem sentido ou indo para lugar nenhum, mas sem a diversão e o apelo envolvidos. Contudo, a projeção se edifica totalmente em seu filme predecessor, não se destacando deste de forma nenhuma, pendendo a uma peça inteira sobre a nostalgia dos personagens e, até, a de seus realizadores.

Pegando o gancho deixado pela primeira obra, o filme retoma a vida de seus personagens 20 anos depois. Estão todos velhos, uns seguiram novos caminhos, outros mantém os mesmos vícios vivos e aí por diante. Há remorsos e saudades, porém, o tema principal do filme parece ser a nostalgia e o desencontro desses personagens com a juventude passada e a indisposição para o presente para com a qual se segue – o próprio filme parece se encarar dessa maneira, como uma homenagem nostálgica que se sente deslocada do presente, o que, em certa medida, soa interessante, dado que a própria projeção parece indecisa quanto a seus objetivos tais como seus personagens naquele mundo.

A direção de Danny Boyle mantém-se efetiva, como o trabalho de alguém que domina a linguagem e sabe exatamente o que faz enquanto diretor, propondo ao longo da projeção, em parceria com seu diretor de fotografia, diversas rimas visuais que remetem aos simbolismos dos sentimentos dos personagens e às vezes também remetem às cenas do primeiro filme. No mais, as cores e os visuais mantém a homogeneidade da ambientação urbana (o preto e cores mais acizentadas) com pequenas fugas ao verde intenso das áreas rurais, os locais mais coloridos da trama e espaços “sagrados” para as lembranças das experiências dos protagonistas.

Investindo muito também para o lado musical, a trilha além de resgatar alguns clássicos utilizados no primeiro filme, mantém-se original e divertida. As atuações estão todas seguras e pareadas com o que foi feito há 20 anos atrás. Com novos personagens adicionados a trama, talvez a maior decepção é que a trama nova se desenvolva de uma forma tão pouco interessante que é, mais ou menos, ofuscada pelo sentimento nostálgico evocado, apesar de haver ainda cenas e momentos interessantes, mas que não se destacam de seu todo.

“Trainspotting 2” parece muito mais a obra que reflete o ethos nostálgico que remete à obra dos anos 90 e adiciona muito pouco a ela. Tendo a velhice chegado a todos (atores, personagens e realizadores), a mensagem do filme parece demasiado melancólica e conformista: aqui o estofo crítico e rebelde de 1996 é substituído pela nostalgia, pela ânsia do presente e pela dúvida do futuro, pelo desgaste consigo e pela descrença com as instituições. É uma obra que não se sustenta por si e que para existir se ancora totalmente em seu passado, talvez como muitos dos mais velhos o façam para levar a vida – e nós, jovens, um dia também, nostálgicos por aquilo que fizermos da nossa juventude: caberá desperdiçá-la ou “escolher a vida”, seja lá o que isso quer dizer?

PS: Trainpotting (1996) está disponível na Netflix. 

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TRAINSPOTTING 2

Diretor: Danny Boyle

Elenco: Ewan McGregor, Ewen Bremner, Jonny Lee Miller e mais

Ano de lançamento: 2017

Renton (Ewan McGregor) retorna à cidade natal depois de vinte anos de ausência. Hoje, ele é um homem novo, com um emprego fixo e livre das drogas. Os amigos não tiveram a mesma sorte: Sick Boy (Jonny Lee Miller) comanda um comércio fracassado, Spud (Ewen Bremner) continua dependente de heroína e Begbie (Robert Carlyle) está na prisão. Aos poucos, Renton revela que sua realidade não é tão positiva quanto ele mostrava, e volta a praticar os crimes de antigamente. Sequência de Trainspotting – Sem Limites (1996), inspirada no livro “Porno”, de Irvine Welsh.

É colaborador do Resenhando Sonhos.
Cético, é daqueles que precisam ver para crer.
Pedro é estudante de Jornalismo na UFRGS, cinéfilo e meio míope.