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Um Lugar Silencioso (2018) | Crítica

Existem muitos e muitos filmes de terror que começam com uma ideia interessante, alguém que pensou em produzir algo legal pelo fato de ser legal. Começa normalmente com um “e se?”. E se o espírito só existe no escuro? E se ele só se move quando você fecha os olhos? E se uma vez por ano nenhum ato de violência é considerado crime? E se assaltantes invadem a casa de um homem cego mas ele é perigoso? E se toda a história é contada só pela tela de um computador? Todos esses “e se” são ideias legais, mas que nem sempre conseguem ser desenvolvidas a ponto de se tornarem filmes legais.

Eventualmente, ideias assim acabam nas mãos de pessoas competentes o suficiente, com bagagens interessantes o suficiente para criar, de fato, uma obra digna. É o caso de Um Lugar Silencioso, um dos filmes de terror mais instigantes da década. O diretor John Krasinski dá um jeito de te levar para além da ideia, tornando uma premissa legal em um thriller intenso que vai deixar audiências nervosas em seus assentos e com o coração na mão.

A história é protagonizada por uma família americana, vivendo num futuro próximo (2020, daqui dois anos!), em uma cidade abandonada. São apenas quatro personagens, que aos poucos vamos conhecendo: Emily Blunt e John Krasinski, formando o casal principal, a atriz mirim Millie Simmonds, cuja deficiência auditiva é levada para dentro da história também, e o pequeno Noah Jupe, que interpreta o caçula. A família está sendo perseguida por algo ou alguém, muito perigoso, que é atraído pelo som. É isso. Não posso revelar muito mais sobre os detalhes porque seriam spoilers muito carregados e, honestamente, assistir sem saber o que está por vir deve ser uma experiência muito mais proveitosa. Mas, antes de ler o resto da crítica, confira o trailer:

Um Lugar Silencioso é dirigido por John Krasinski (o Jim, de The Office), em seu primeiro filme de terror. E que filme! O diretor consegue construir suspense do começo ao fim, estabelecendo as regras logo cedo e dedicando o primeiro ato a conhecer a rotina da família, mostrando como e onde está o perigo e estabelecendo os riscos que eles correm. Essa primeira parte é mais do que importante: muitos (muitos!) filmes de terror não conseguem construir de maneira sólida seus personagens e suas realidades, fazendo com que os sustos, mortes e outros riscos soem rasos, ou seja, não nos fazem nos importar com os personagens e não conseguem nos imergir na história. Krasinski investe bons minutos do filme montando essa estrutura, para que os sustos frenéticos do clímax não sejam vazios e fazendo com que vivamos cada “ufa” de maneira intensa, genuinamente felizes pela sobrevivência dos personagens como se fosse a nossa.

A ideia interessante a que me referi no início do texto é a estabelecida pela característica do “monstro” (ou monstros, ou o que quer que seja o vilão): qualquer som é perigoso. Essa é uma ideia comum no cinema, em qualquer cena de perseguição de qualquer tipo, que encarrega o personagem de fazer completo silêncio, pois disso depende sua vida – como quando Harry tem que fugir do basilisco cego Câmara Secreta. Montar um filme inteiro em cima dessa ideia é o desafio do diretor, e a solução para esse desafio ele tem de sobra: criatividade. Ao longo da trama a família passa por diversas situações que usam da necessidade de silêncio como um potencializador do suspense de forma brilhante.

Dentro dessa premissa, as características técnicas do filme são importantíssimas para que o resultado seja completo. A principal delas é o design de som, que é responsável pelos diversos silêncios do filme, pelos suaves barulhos, pelas vozes abafadas; e a partir desses silêncios há uma valorização de todo e qualquer som, intensificando a imersão na realidade quieta da trama, criando em nós as noções de equivalência entre silêncio e segurança, e entre barulho e medo. Além disso, a direção é delicada ao investir em pouquíssima profundidade de campo – atraindo a atenção para os elementos relevantes da trama, intensificando as inseguranças e incertezas sobre a atmosfera e revelando apenas o necessário, mas nunca de forma desonesta, sem a intenção de enganar o público – e em diversos planos-detalhe, que evidenciam os elementos daquele mundo silencioso de forma coesa e bem estruturada, mesmo sem poder utilizar diálogos para estabelecer sua realidade.

As atuações são igualmente fundamentais para o sucesso do filme e nenhum dos atores deixa a desejar. Fiquei particularmente extasiado com o modo que cada um deles intensifica seu trabalho em completa sincronia com seus personagens. Vou explicar: por não ter como expor sua realidade através de diálogos, o filme depende muito das situações para contar a história não apenas do que está acontecendo mas do que aconteceu e acontece, ou seja, é através das situações “de terror” que somos convidados a conhecer os personagens. Isso resulta em um desenvolvimento de personagens intenso e muito bem afiado, fazendo com que eles cresçam em nossos corações ao longo do filme; esse é o processo que é acompanhado pelos atores, cujas performances vão “melhorando” ao passo que o filme nos informa sobre quem eles são, o que eles querem e quais são seus medos.

O casamento entre a ideia de um filme de terror sobre silêncio e a ideia de uma família ficando quieta para ficar viva é a grande vitória da produção. O tema mais presente no filme é a ideia de maternidade/paternidade, o desafio de descobrir a quais distâncias uma pessoa pode ir para proteger sua família, a responsabilidade que vem junto com o ato de amar. Com o objetivo de levar isso à tela, Krasinski trouxe sua esposa, Emily Blunt, para interpretar a esposa de seu personagem. Por consequência, a entrega é uma palpável representação de amor, paixão, perseverança e confiança entre o casal – uma química única, eu diria. Tanto as relações entre eles quanto com as crianças são fortes, mostrando-se delicadas nos momentos doces e resilientes nos momentos de luta por sobrevivência.

Millie Simmonds é o outro destaque do elenco, interpretando a filha mais velha do casal. Assim como a atriz, a personagem tem uma deficiência auditiva e suas interações com o silêncio (e os barulhos) são pontos chave na trama, tanto estética quanto narrativamente. O quarto membro da família, o caçula, também brilha em algumas cenas e torna-se um personagem cada vez mais tridimensional conforme a história avança (privilégio que não é dado a muitas crianças no cinema, muito menos quando falamos de terror), o que me impressionou positivamente ao longo da sessão. Ambas as crianças são personagens tão importantes quanto os pais e seus sentimentos são tratados da mesma forma digna e respeitosa que os deles.

Além disso, há uma nem-tão-suave proposta de desconstrução de estereótipos de gênero que se estabelece nas relações homem/mulher, perpassadas pelos dramas e traumas familiares de cada personagem. Uma discreta inversão de valores é proposta, sugerindo uma crítica ao modo tradicionalmente patriarcal que a relação dos pais apresenta (o homem guerreiro, que caça e põe comida na mesa, contraposto à mulher que protege dos filhos, lava as roupas e cozinha) através da apresentação da próxima geração (em que o filho é mais sensível e sente mais medo que sua irmã, que por sua vez é muito mais forte e corajosa do que seu pai acredita, mesmo tendo uma deficiência auditiva). Essa crítica é por sua vez subvertida, quando os quatro se propõem a trabalhar juntos, unindo-se em seus estereótipos para salvarem uns aos outros, unindo a família através do amor e do instinto de sobrevivência.

Por fim, ratifico minha opinião: que filmaço! Valorizo muito filmes de terror que tratem de forma satisfatória o tema que abraçam, evitando apenas usá-lo como pano de fundo e sim trazê-lo para a frente, para que seja visto. Falo de filmes como O Babadook, A Bruxa e Corra, clássicos instantâneos dos últimos anos que trazem seus conceitos à frente da matança e dos sustos, usando o terror como pano de fundo em vez do contrário. Me surpreendi quando Um Lugar Silencioso fez o mesmo, e me emocionei com cada grito preso na garganta de Emily Blunt.

Para quem é fã do gênero do horror, Um Lugar Silencioso é um must-see, veja logo. Para quem não acompanha o gênero, mas aprecia-o de vez em quando, é uma boa (ótima) pedida. E para quem evita filmes de terror e odeia se assustar, eu lamento, está perdendo uma experiência de cinema única.

UM LUGAR SILENCIOSO

Diretor: John Krasinski

Elenco: John Krasinski, Emily Blunt, Millicent Simmonds e mais

Ano de lançamento: 2018

Em uma fazenda dos Estados Unidos, uma família do meio-oeste é perseguida por uma assustadora entidade ou monstro. Para se protegerem, eles devem permanecer em silêncio absoluto, a qualquer custo, pois o perigo é ativado pela percepção do som.

Gaúcho porto-alegrense apaixonado por cinema, séries de televisão e gatos. Relações Públicas por formação; comunicador por natureza.