War Machine (2017) | Crítica

War Machine chegou à Netflix dia 26 de maio, estrelando Brad Pitt, John Magaro, Anthony Hayes, Tilda Swanton, Ben Kingsley e outros. 

“War Machine” – ou “Máquina de Guerra”, caso a tradução ficasse à cargo das tradicionais distribuidoras brasileiras – é uma comédia dramática que aborda a ocupação estadunidense no Afeganistão, que durou de 2001 a 2014. Baseado no livro “The Operators”, do falecido jornalista Michael Hastings, o filme transita entre o cômico do absurdo das ações dos EUA no Oriente Médio e a tragédia que esta foi para o povo afegão – tudo através da narrativa jornalística de Hastings, adaptada ao cinema, e do protagonismo do General Glen McMahon (Brad Pitt). Com potencial para tanto, são inúmeros os debates que poderiam nascer do filme; tais potencialidades, porém, não são exploradas.

O livro “The Operators – a impressionante história da invasão dos EUA ao Afeganistão”, adaptado pelo diretor e roteirista David Michod, tem uma postura crítica às intervenções estadunidenses no Oriente Médio. A narrativa, por diversas vezes, mistura a “objetividade” da narração jornalística de Michael Hastings com a ficção própria do cinema, o que se revela uma mistura talvez complicada – o filme exagera nas narrações em off (isto é, narrações fora da imagem) para a explicação da história (o que por si já seria ruim, em off, então…) e da multiplicidade de seus personagens, tudo em seu primeiro ato. Além de pecar pelo modelo famigerado a partir do qual se transfere a narração do autor do livro para os tais inúmeros offs que explicarão a própria trama ao longo de si mesma. Contudo, a peça ainda consegue manter a postura crítica do livro frente às intervenções estadunidenses no Oriente Médio e à política de guerra “contra o terrorismo” promovida pelos governos Bush e Obama.

As cores do filme são muito pouco saturadas, isto é, são acinzentadas, saltando pouco as olhos e apresentando homogeneidade – raramente, ou quase nunca, haverão objetos ou cores dissonantes, que chamem atenção para si em detrimento ao todo. Faz-se pouco uso de sombras mais acentuadas e as locações, em geral, são simples. A trilha sonora é original e acompanha bem o filme em seus momentos de dramaticidade, havendo um apanhado de músicas pop e eruditas ao longo da projeção; usa-se da música também para alívio cômico, como quando a referência à “Dança dos cavaleiros”, de Prokofiev, em trecho específico que faz rimas audiovisuais bem inteligentes, ou quando os militares apresentam-se como os brabões do pedaço ao som de músicas pop, andando em grupos à lá “os vingadores”.

Apesar de apresentar-se enquanto comédia, “War Machine” não é um filme de muitas gargalhadas. Em alguns momentos, usa de piadas inteligentes e tiradas sagazes para o alívio cômico, mas, em meio a tudo isto, enfrenta dificuldades para conciliar a “visão comédia” proposta com a crueza dos acontecimentos que se passaram no Afeganistão. O riso, aqui, concentra-se nas ações militares, as quais, com razão, soam despropositadas, deslocadas de sentido, produtos da satisfação egocêntrica de uma classe desatualizada, que não tem no século XXI a importância e relevância que teve no século XX. A própria construção do personagem de Brad Pitt, em sua relação com a esposa, revela um pouco dessa nuance paranoide do militar que precisa reafirmar-se enquanto tal, deixando constrangedoramente de lado as outras esferas da vida.

Michael Hastings, o autor do livro que deu origem ao filme, curiosamente, morreu em 2013 num caso com nuances, segundo seus colegas jornalistas de Rolling Stone e Buzzfeed, discutíveis. Jovem, tinha 33 anos. Foi correspondente de guerra no Iraque, tendo lançado livro sobre o que viu no conflito, tal como no caso posterior, do Afeganistão. Durante sua cobertura em Bagdá em 2007, sua noiva, Andrea Parhamovich, foi morta por insurgentes iraquianos ao voltar de um trabalho voluntário no qual ela ensinava sobre “Democracia” para crianças carentes. Fato que o incentivou à publicação de obras sobre os horrores da experiência estadunidense “antiterrorista”.

Neste caso, para Hastings e para os povos do Oriente Médio, a tragédia da vida real supera muito a do filme – e “War Machine”, apesar de alguns bons momentos, não chega nem perto disto.

thumb_livro

3estrelasb

WAR MACHINE

Diretor: David Michod

Elenco: Brad Pitt, Anthony Hayes, Topher Grace, Ben Kingsley e mais

Ano de lançamento: 2017

O general Glen McMahon é um militar respeitado que comanda os norte-americanos em invasão ao Afeganistão. Em uma estratégia radical, ele busca juntar esforços para vencer uma guerra que nunca poderia ser vencida.

É colaborador do Resenhando Sonhos.
Cético, é daqueles que precisam ver para crer.
Pedro é estudante de Jornalismo na UFRGS, cinéfilo e meio míope.