Lançado originalmente em 1901, A Falência é um livro escrito por Julia Lopes de Almeida e foi publicado pela editora Principis.

Sobre o Livro

Narrado sob o ponto de vista de alguns personagens centrais, em sua maioria mulheres, A Falência narra a trajetória de uma família tipicamente burguesa do Brasil do fim do século XIX. Nascido pobre, Francisco Teodoro cresceu com a indústria do café e deu a sua família um lugar reservado entre os nomes mais importantes da cidade. Homem dos negócios, Francisco é um marido distante e Camila, sua esposa, inicia o livro numa trajetória de adultério com o Doutor Gervásio, no qual descobre a essência do amor, mas também os malabarismos das aparências.

Dentro da casa, Nina, a sobrinha da família que mora de favor e compensa sua presença trabalhando tanto como babá quanto como empregada, é a filha mestiça e bastarda do irmão de Camila e é apaixonada por Mário, filho mais velho da tia, um jovem festeiro que não liga muito para cumprir com obrigações. Nina convive diariamente com Noca, outra empregada da casa e que é a responsável tanto por cuidar de todas as crianças desde que elas nasceram, como também é aquela que guarda todos os segredos da casa.

“Vinha de longe a sua paixão pelo dinheiro; levado por ela, não conhecera outra mocidade. Todo o seu tempo, toda a sua vida, tinham sido consagrados ao negócio.”

Todos os pontos de vista da história misturam-se para formar um núcleo bastante diverso de classes, gêneros e visões morais que conduzem a história para a apresentação dessa família tipicamente burguesa, com falhas que fingem não perceber e segredos que não podem contar. O quão forte são os laços familiares que unem essas pessoas? O quão certa é a confiança que Tancredo tem em seus negócios? O dinheiro é mesmo capaz de sustentar relações que podem ser tão frágeis?


Minha Opinião

Júlia Lopes de Almeida foi um nome que conheci pela primeira vez na escola, em uma aula de Literatura, quando a professora contava que, por ser mulher, ela foi impedida de assumir sua cadeira na Academia Brasileira de Letras, subindo então o seu marido, que anos depois admitiria que a cadeira 3 da Academia deveria ter sido dela. Conhecendo essa história, na época, já antevia em minha memória tinha um forte sentimento de que um livro dessa escritora teria grandes chances de se tornar uma experiência de leitura muito especial para mim.

Quando segurei as páginas de “A Falência” pela primeira vez, tinha muitas expectativas e deixei que a história que estava ali se mostrasse para mim do jeito que ansiei que a receberia. De certo modo, não foi exatamente como imaginei, mas a experiência foi aquilo que eu precisava.

De início lento, o ritmo de A Falência demora a engatar por sua excessiva precisão em descrever lugares, cenários e pequenos detalhes que seriam bobos se não servissem para a criação da ambientação que a autora queria fazer: retratar o Brasil que ela observava, suas ruas, industrias em início e declínio, suas casas e famílias mestiças, diversas e cheias de segredos por trás de suas janelas. É uma leitura que necessita de uma dedicação extra para ter aquele sentimento inicial de envolvimento e ultrapassar esse começo mais lento foi uma parte difícil da leitura, mas que valeu a pena quando finalmente a trama engata.

Um ponto importante a ser considerado é que a trama não é feita de grandes reviravoltas por boa parte de sua história. A Falência quer, principalmente, mostrar como era a vida social daquelas pessoas, suas rotinas conforme o Brasil crescia e quebrava ao seu redor. As emoções são bastante contidas ao ambiente doméstico, os momentos de tensão do enredo não são muitos e quando ocorrem são sempre em âmbito menor: uma briga entre mãe e filho, um investimento novo no trabalho que pode dar errado, os empregados da casa antevendo uma desgraça futura enquanto guardam os segredos dos patrões. Reconhecer e se acostumar com esse ritmo mais lento é essencial para compreender essa história e para ter uma experiência positiva com a obra, mas garanto que ultrapassar isso e investir nessa narrativa que está sendo apresentada trará ótimas recompensas no decorrer da trama.

“Não pudera ser menino, não soubera ser moço, dera-se todo à deusa da fortuna, sem perceber que lhe sacrificava a melhor parte da vida.”

A multiplicidade de narrações contribui para criar as ambientações mais diversas e apresenta problematizações sutis, mas que são revolucionárias por estarem num romance datado de 1901. Alguns dos tópicos abordados giram em torno da questão de classes: por serem de origem pobre e ascenderem socialmente graças a indústria do café, a família de Francisco sabe que é o dinheiro e a posição que os mantém no status social que eles possuem. Ao olhar ao redor, para aqueles que não tem o mesmo que eles, os sentimentos são mistos entre pena e ressentimento. Camila não aprova que sua família paterna continue a pedir dinheiro várias vezes por ano, Francisco observa seus funcionários como parceiros em potencial ascensão e encara Mario como um filho que ele não deveria ter deixado ser tão mimado, já que isso o tirou do rumo do trabalho e o fez se tornar um libertino irresponsável. As meninas, filhas do casal, são alheias as diferenças sociais que se estabelecem entre elas e as demais crianças da cidade, principalmente Nina, que mora ali de favor e que não tem as mesmas roupas e os mesmos privilégios que elas.

Ruth olha para prima com condescendência, até preocupa-se que ela receba presentes bons e lembra de seu aniversário quando todos o esqueceram, mas ainda é um olhar distante e não uma verdadeira compreensão do que significa para Nina não ser parte da família de verdade.

Nina, apesar de lamentar sua condição e sentir-se inferior, também é subserviente pois foi a esse papel que lhe impuseram a vida inteira. Ela não questiona sua posição e sente-se grata quando recebe coisas pequenas, como um salário digno para comprar roupas novas e não apenas limitar-se a usar as roupas velhas das primas mais novas que ela. Genuinamente inocente e sentindo profunda gratidão pela família, a reflexão sobre questões sociais fica na sutileza de suas narrações como alguém que é da família, mas não o bastante para sentar-se com eles a mesa.

O mesmo debate dirige-se a Noca, com o acréscimo da questão racial: uma remanescente da escravidão, Noca criou todas aquelas crianças e conhece a casa melhor do que os demais, escondendo seus segredos e vai apaziguando os atos que podem perturbar a tranquilidade daquele lar. Muito voltada para misticismos, ela traz respostas através de interpretação de sonhos e crendices que destacam seu papel quase milenar em trazer um aspecto bem brasileiro para trama: o sincretismo religioso que fundou o país e está presente na nossa cultura de forma tão enraizada que as vezes nem percebemos.

Outras questões importantes apresentadas pelo livro e que o fazem ser um marco tão forte para a literatura brasileira, mesmo que ainda menos reconhecido que outros livros escritos por autores homens, é a questão da autonomia feminina que a autora apresenta na história. Não é nada tão escancarado quanto o que esperaríamos com a nossa visão do século XXI, porém, para o padrão histórico da época em que a autora publicou, a sutileza dessa autonomia está em detalhes como a narrativa de adultério, que apesar de mostrar as nuances entre a culpa, remorso e a raiva que Camila sente, ainda traz um final que distingue a narrativa de Júlia Lopes de Almeida de outras histórias de adultério cujo final são sempre marcados por uma investida contra a figura da mulher adultera.

“Os senhores romancistas não perdoam às mulheres; fazem-nas responsáveis por tudo – como se não pagássemos caro a felicidade que fruímos! Nesses livros tenho sempre medo do fim; revolto-me contra os castigos que eles infligem às nossas culpas, e desespero-me por não poder gritar-lhes: hipócritas! Hipócritas! Leve o seu livro; não me torne a trazer desses romances. Basta-me o nosso, para eu ter medo do fim.”

Há também uma sútil formação autônoma na figura de Ruth, a filha mais velha da família, que por ser mulher não poderia herdar os negócios do pai, mas que por vezes Francisco vê nela muito mais aptidão para tal cargo do que em Mário, seu herdeiro. Ruth também é fortemente ligada a arte, utilizando seu violino para expor seus sentimentos através das músicas que toca e é a arte também a responsável por mantê-la a salvo durante a trama, o que traz um aspecto bem interessante: a figura feminina sonhadora e musicista que vê na arte mais do que apenas seus sentimentos, mas também o caminho para sua autonomia. Todas as demais personagens também passam por narrativas de crescimento pessoal de forma singela e ainda revolucionária para a época, o livro tem uma excelente mensagem sobre como a união feminina pode contribuir para que todas elas levantassem juntas.

A Falência é um livro devagar em seu começo, mas que apresenta uma narrativa única que descreve a sociedade brasileira da forma que jamais esperaríamos ver em outras histórias. Seus múltiplos pontos de vista concedem visões distintas sobre essa sociedade que revelam lados relativos conforme a idade, o gênero, a cor e a classe daqueles que narram, fornecendo assim um retrato do Brasil que possui mais diferenças do que igualdades e mais segredos do que verdades. Com uma ambientação excelente e narrações com tantas questões importantes a serem discutidas, A Falência é uma obra tanto para aqueles que gostariam de conhecer mais a literatura nacional e suas autoras que foram conscientemente deixadas de lado pelo cânone, quanto para os fãs de romances de costumes e histórias de época que se passam em ambientes domésticos, que, apesar de aparentemente parados, ainda concedem enredos envolventes que seguram o leitor até o final da trama.

A FALÊNCIA

Autor: Júlia Lopes de Almeida

Editora: Principis

Ano de publicação: 2019

A Falência trouxe a discussão de temas como o adultério feminino e a decadência econômica e moral da burguesia após a abolição da escravatura.As exaltações das personagens femininas aparecem na autonomia delas, que conseguem resolver seus conflitos sem precisar do auxílio de um homem, uma visão feminista e original para a época. Porém a decadência é associada aos personagens masculinos, que protagonizam a falência e as ações desastrosas presentes no enredo.

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