A Pequena Sereia e o Reino das Ilusões é uma obra da autora Louise O’Neill, publicado em 2019 pelo selo Darklove da editora Darkside.

SOBRE O LIVRO

Vivendo sob restrições severas, a única vontade própria permitida as sereias é a subida à superfície quando elas completam quinze anos. Miurgen está prestes a realizar esse sonho. Ela é a sexta filha do rei dos mares, a mais bela dentre elas, portanto já está prometida a casamento. E antes que seu maior pesadelo possa se realizar, ela quer conhecer a superfície e entender o que fez sua mãe se apaixonar tanto por algo que a levou a morte.

A Pequena Sereia e o Reino das Ilusões é um espelho bem claro da sociedade em que vivemos. Podemos não ter caudas adornadas por pérolas, mas sofremos nas mãos de um padrão de beleza inatingível. Vivemos em um mundo que ansiamos por explorar, mas temos obstáculos em nosso caminho na forma de leis retrógradas e violência. Julgamos o diferente, repetimos padrões tóxicos e naturalizamos abusos porque fomos ensinadas, através de palavras bonitas e inversões de valores, a encará-los com naturalidade.”

Quando por fim Miurgen conhece o lado de cima do mar, ela acaba avistando um garoto em um naufrágio e salvando-o. Essa atitude leva Miurgen a se apaixonar e pensar na sua própria felicidade. Assim, ela acaba arriscando sua vida e procurando a bruxa do mar para realizar sua vontade. Mas, até onde ela está disposta a ir por algo que ela acabou de conhecer?


MINHA OPINIÃO

É comum encontrarmos adaptações de conto de fadas onde o viveram felizes para sempre não existe. Ou onde a bruxa má é na verdade a mocinha da história e a princesa a vilã. Em A Pequena Sereia e o Reino das Ilusões, a autora faz uma adaptação da clássica história do reino no fundo do mar, criando uma perspectiva completamente diferente do era uma vez que estamos acostumados, para um enredo bastante ajustável a nossa realidade machista.

As sereias desde sempre foram educadas para obedecer aos tritões. Elas não podem fazer comentários ou perguntas. Não podem se expressar e nem querer alguma coisa. Elas apenas devem cuidar da beleza, sendo sempre lindas e perfeitas. Por isso, também não devem comer demais, e desde que nascem devem respeito aos machos. Primeiro ao rei dos mares, seu pai, e depois ao seu marido. A idade ideal para se casar é de vinte anos, mas como Miurgen é a mais bela dentre as seis filhas do rei dos mares, ela já está com um casamento arranjado para assim que completar dezesseis anos.

É em seu aniversário de quinze anos que a história se inicia. Este é um dia feliz para Miurgen, pois esta é a idade em que se pode subir à superfície. E com isso, ela poderá entender o que causou tanto encanto à sua mãe a ponto de que ela desaparecesse enquanto Miurgen ainda era apenas um bebê. Mas as coisas vão além do que ela esperava. Depois de passar um dia inteiro observando um garoto em um barco, ela se vê apaixonada, e vai descobrir que será capaz de muita coisa para alcançar essa felicidade.

“Estou estranhamente tranquila enquanto me preparo para a minha viagem, a jornada pela qual tenho aguardado há tanto tempo, mas não consigo deixar de imaginar como foi o décimo quinto aniversário da minha mãe. Eu a vejo, uma esperança febril e determinada, sabendo profundamente que fora feita para algo maior do que uma vida penteando cabelos e cantarolando por sua sobrevivência. Prometida a um homem muito mais velho do que ela, um sujeito que a enxergava como um brinquedinho, uma coisa cintilante na qual ele mal podia esperar para pôr as mãos, e mesmo assim ela se casou com ele, deixando suas necessidade de lado a fim de proporcionar a felicidade a terceiros, porque é isso o que esperam das sereias.”

Até então o livro estava cumprindo com sua promessa de nos trazer uma história forte de feminismo. Pois é muito visível a vontade de Miurgen de querer ser mais do que lhe é permitido. Assim como seus pensamentos que vão muito além de abaixar a cabeça para o que lhe é ordenando. Mas, quando ela decide que realmente não pode mais viver assim, o livro ganha outro rumo, e o fato dela estar disposta a trocar coisas valiosíssimas por algo que ela não conhece, e que vai contra ao que ela vinha pregando, foi decepcionante para mim.

Nesta segunda parte do livro, a história acaba enfraquecendo e não se vê mais a luta da personagem pelo feminismo. E temos então um “meio” bastante enrolado e cansativo. E só então nas últimas páginas é que as coisas voltam a ser interessante e temos um final espetacular. Que poderia muito bem ter encaixado com a primeira parte e assim, ter um livro excelente. Mas é claro, a autora precisava contar uma história nesse meio tempo, mas infelizmente para mim, não foi a escolha certa, e acabou sendo uma leitura que começou muito bem, teve um meio péssimo, e terminou tão bem quanto iniciou.

“As águas estão calmas esta noite, tão límpidas que uma imitação de lua paira perto da superfície. Quando eu era criança, teria achado o efeito notável. Teria presumido que o reflexo fraco era tudo o que o mundo tinha a oferecer. Mas agora eu sei da verdade. Agora eu sei que existe muito mais para conhecer lá fora, mais do que tudo aquilo com que sempre me disseram para me contentar.”

Contudo, é fácil ignorar essa parte monótona da história e levar em conta o que a autora quis nos passar com tudo isso. Entender e concordar com a protagonista são duas coisas diferentes, e quando se tem apenas quinze anos e não se conhece nada melhor, é compreensível sua atitude. Por isso, se você gosta de mulheres fortes, persistentes e que estão sempre em busca de algo melhor, e mais importante, não ligam para o que a sociedade impõe a elas, com certeza deve ler essa história.

 

A PEQUENA SEREIA E O REINO DAS ILUSÕES

Autor: Louise O’Nell

Tradução: Fernanda Lizardo

Editora: Darkside

Ano de publicação: 2019

Esqueça as histórias sobre sereias que você conhece. Esta é uma história diferente ― e necessária. E tudo começa no fundo do mar. Com uma garota chamada Gaia, que sonha em ser livre de seu pai controlador, fugir de um casamento arranjado e descobrir o que realmente aconteceu à sua mãe desaparecida. Em seu aniversário de quinze anos, quando finalmente sobe à superfície para conhecer o mundo de cima, Gaia avista um rapaz em um naufrágio e se convence de que precisa conhecê-lo. Mas do que ela precisa abrir mão para transformar seu sonho em realidade? E será que vale a pena? A Pequena Sereia e o Reino das Ilusões chega para trazer um pouco mais de contos de fadas para a linha DarkLove, da DarkSide® Books. Mas não do jeito que você espera; aqui, a história original de Hans Christian Andersen ― e também suas versões coloridas e afáveis em desenhos animados ― é reimaginada através de lentes feministas e ambientada em um mundo aquático em que mulheres são silenciadas diariamente ― um mundo que não difere tanto assim da sociedade em que vivemos. No reino de ilusões comandado pelo Rei dos Mares, as sereias não recebem educação, não têm direito de fala, devem se encaixar em um padrão de beleza impossível e sempre sorrir. É neste cenário que a autora irlandesa Louise O’Neill apresenta uma história sobre empoderamento e força feminina. Com narrativa e olhar afiados, a autora ainda desenvolve aspectos do conto original que passaram batido, como o relacionamento de Gaia com as irmãs e as camadas complexas da Bruxa do Mar. A Pequena Sereia e o Reino das Ilusões, que chega ao mundo acima da superfície da água com o padrão de qualidade que virou marca registrada da DarkSide® Books, mostra como, em um reino comandado pelo patriarcado, ter uma voz é arriscado. Mas também como querer usá-la é uma atitude extremamente poderosa e valiosa. Ainda mais em tempos tão sombrios.

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