Corrente de Ouro é o primeiro livro da série “As Últimas Horas” escrito por Cassandra Clare e publicado no Brasil pela editora Galera Record em 2020.

Sobre o Livro

Corrente de Ouro acompanha a geração de filhos e sobrinhos dos personagens de “As Peças Infernais” e suas vidas relativamente pacíficas na Londres do começo do século XX.

Há anos demônios não atacam mais a cidade, contudo, subitamente algo muda quando entidades com poderes malignos maiores começam a atacar especificadamente os caçadores de sombras, causando uma doença altamente infecciosa e que não possui nenhuma cura conhecida.

É nesse cenário inesperado e incerto que novos personagens passam a morar na cidade juntando-se aos membros do instituto londrino na busca por solucionar o mistério por trás dos ataques e buscar uma cura para salvar seus amigos e parentes. Entre os novos moradores de Londres está Cordelia Carstairs, uma jovem caçadora de sombras que muda-se para a cidade para oficializar sua cerimônia parabatai com Lucie Herondale e para manter sob sigilo os escândalos que ela, sua mãe e seu irmão, Alastair, enfrentam graças ao pai que está sob custódia da Clave após uma missão mal sucedida. Para salvar a reputação da família, Cordelia está decidida a conquistar amizades e talvez até um casamento vantajoso que mantenha o nome Carstairs longe da desgraça social.

“Ela era Cordelia Carstairs, filha de Elias e Sona, vinda de uma longa linhagem de caçadores de sombras. Era herdeira da famosa espada Cortana, a qual tinha sido passada pela família Carstairs durante gerações. Estava em Londres para salvar seu pai. Não ia desabar em público.”

Desde a infância, Cordelia é apaixonada por James Herondale, irmão de sua futura parabatai, porém, James é supostamente apaixonado pela misteriosa Grace Blackthorn, filha da inimiga declarada de seus pais. A paixão de James por ela é confusa e obsessiva, o que indica que há algo mais do que só amor vindo da menina e tal mistério pode levar James a meter-se em situações perigosas envolvendo sua relação de parentesco com o pai demoníaco de sua mãe, Tessa Gray. Nunca antes existiu filhos de feiticeiros com caçadores de sombras e James pode descobrir que a junção do sangue de anjo com o de um demônio pode acarretar em severas consequências.

É em meio ao cenário caótico de uma epidemia que está ceifando a vida de caçadores de sombras com rapidez e crueldade, que James, Cordelia, Lucie e os demais personagens vão encontrar-se em constante conflito contra seus sentimentos, segredos e descobertas. Para salvar suas famílias e conquistar seus objetivos individuais, os personagens vão ter que descobrir mais sobre si do que estavam dispostos a fazer, e as perguntas que precisaram responder são muitas, afinal, qual a razão que levou a Clave a prender o pai de Cordelia? Qual o significado real por trás da paixão opressiva de James por Grace? Quem está por trás dos ataques aos caçadores de sombras? E, por fim, qual as consequências da linhagem demoníaca de James e Lucie?


Minha Opinião

Corrente de Ouro foi um livro pelo qual esperei por muito tempo até conseguir ter. Desde que a Cassandra Clare anunciou que as sagas dos caçadores de sombras teriam mais duas trilogias, sendo “As Últimas Horas” uma delas, eu já estava curiosa e empolgada. Parte disso decorria do fato de essa trilogia se passar logo depois de “As Peças Infernais”, que é minha história favorita do mundo dos caçadores de sombras e eu tinha muitas expectativas quanto ao que os filhos daqueles personagens que eu já amava iriam fazer aqui. De certo modo, fui surpreendida tanto para o lado bom, quanto para o lado ruim, o que foi um pouco fora da curva do que eu tinha imaginado, mas que ainda foi uma experiência especial ao seu modo.

Para começar, “Corrente de Ouro” muda a atmosfera de um jeito que eu ainda não tinha sentido em nenhuma outra saga dentro desse universo. Nesse livro temos bailes, idas a bares noturnos do submundo, conversas feitas na hora do chá nas casas de outras pessoas. O instituto já não é o centro, há outros cenários especiais e marcantes e o livro mostra uma interação muito maior entre os caçadores de sombras e o mundo mundano. Nas outras séries, sempre havia no ar a sensação de que os personagens eram separados, deslocados do mundo real. Em “Corrente de Ouro”, isso muda: há idas a parques, passeios de carruagem e rodas de conversas em casas normais, localizadas em bairros comuns. Não ter esperado essa aproximação dentro da narrativa me deixou muito feliz, uma vez que dinamizou a narrativa e deixou um tom de realidade muito maior para o modo como os personagens se comportavam ou agiam.

Em consequência desse ambiente mais ameno, mais “doméstico”, sinto que a trama principal do enredo – o ataque dos demônios, a doença epidêmica e etc. – não possuem o mesmo destaque e relevância de outras sagas. Talvez por ser um livro derivado diretamente de “As Peças Infernais”, uma trilogia que também não tinha tanto enfoque no enredo “maior”, mas sim nos dramas individuais e nas relações dos personagens uns com os outros, “Corrente de Ouro” também passa por isso e coloca a trama em pano de fundo. Assim, as cenas dos ataques e suas consequências são muito mais importantes em nível individual, quando vemos como elas mexem com os sentimentos dos personagens e influenciam suas decisões, do que em categoria macro.

“Desejar o que não pode ter só vai despedaçar seu coração.”

É no aspecto dos personagens que “Corrente de Ouro” ganha seus melhores pontos. Cordelia Carstairs, Matthew Fairchild, Lucie Herondale, Anna Lightwood e todos os outros meninos do Merry Thieves (Ladrões Alegres) são o que tornam esse livro especial. Suas histórias, dores e medos são responsáveis por encantar quem acompanha a leitura e fazer com que o leitor sinta pena, tema por eles e os ame. Lucie já se tornou uma das minhas personagens favoritas nas primeiras páginas do livro, sua paixão genuína pela escrita e sua lealdade a Cordelia serve de encanto para fazer com que sua narrativa individual seja uma das mais especiais da história. As interações dela com Jesse Blackthorn também são partes incríveis do livro e de longe uma das melhores relações que observamos crescer na trama.

Cordelia também não fica para trás, ganhando aos poucos minha admiração e carinho, principalmente quando ela se mostra uma personagem tão especial, determinada e que ainda é humana apesar de tudo. Um elemento que achei incrível na sua construção foi a inserção da cultura persa na formação dela, pois tanto essa é sua origem, uma descendência de sua mãe, quanto a cultura dela faz parte da trama e de quem ela é, com constantes menções ao seu idioma e as lendas típicas do povo persa. No irmão dela, Alastair, temos uma discussão bem interessante sobre como ele lida com o preconceito de outras pessoas de um modo diferente do que a irmã faz. Alastair sente-se pressionado para ser diferente, ele pinta o cabelo preto de loiro para disfarçar a cor e tenta apaziguar seus traços, enquanto Cordelia não se sente assim. Os dois trabalham com isso e crescem na trama de uma forma difícil, mas singela, principalmente em cima do personagem de Alastair, que ainda movimenta outros assuntos importantes sobre diversidade, perdão e culpa.

Cordelia também é a dona de Cortana, a lendária espada que também aparece em “Os Artifícios das Trevas” e, nesse ponto, sinto que algo que não gostei na série anterior foi finalmente compensado: a importância da espada e de quem a empunha se torna um elemento central da trama em alguns pontos, mostrando a justificativa do porquê a Cortana não ser uma arma qualquer.

Outro personagem de destaque é Matthew Fairchild e os demais membros dos Merry Thieves, um grupo de amigos de James que emolda uma sensação de conforto e diversão, só que com suas boas doses de problemas. Matthew tem um segredo que é claramente doloroso e que o faz recorrer a uma vida perigosa na qual ele sente que não merece amor ou felicidade. Talvez o personagem dele soe muito banal pelo comportamento solto e engraçadinho, mas meio melancólico e, nesse ponto, acredito que haja um problema ocasionado pela extensão das histórias da Cassandra: o segredo de Matthew é algo que foi contado nos livros de contos, mais especificamente em Fantasmas do Mercado das Sombras. Mas qual a garantia que as pessoas que irão ler “Corrente de Ouro” terão lido o conto em que é revelado o passado dele e a justificativa de torná-lo quem ele é? Matthew é um dos personagens mais promissores da trama, porém sinto que não ter o contexto anterior dele o deixará vazio para quem não tiver lido o conto anteriormente.

“Matthew Fairchild também estava de luto, mas não por uma rainha morta. Estava enlutado pela perda de alguém que jamais conhecera, por uma vida que havia se findado. Por um futuro cuja felicidade seria sempre maculada pela sombra de seus atos.”

O mesmo ocorre com a personagem Anna Lightwood, de longe uma das minhas favoritas da história e que traz consigo uma discussão incrível sobre não-binaridade de gênero e a fuga de seguir padrões impostos socialmente. Anna é uma personagem que se veste com roupas que seriam socialmente definidas como masculinas, que relaciona-se com mulheres abertamente e que não tem medo de ser quem ela é. Isso para a época em que o livro se passa é incrível de ler e a personagem podia ter muito mais profundidade para um leitor novo se o leitor conhecesse o conto dela e visse como ela era antes de evoluir até aquele ponto. Contudo, acredito que para Anna não vai ser difícil encantar novos leitores, pois a personagem é trabalhada de forma tão especial, mesmo nas suas aparições ocasionais, que é impossível não admira-la.

Os demais personagens secundários também são fantásticos. Thomas e Christopher aparecem menos que Matthew e James, mas possuem seus próprios dramas e também enfrentam desafios durante a história. Thomas é outro personagem que também enquadra-se como LGBTQIA+ e tem potencial para se tornar uma figura ainda maior no livro seguinte.

E bem, sobrou por último um assunto levemente espinhoso chamado James Herondale. Como mencionado anteriormente, eu realmente estava esperando amar várias coisas nessa história e uma delas era o personagem do James. Há um conto dele em uma das coletâneas e eu tinha realmente gostado dele como personagem e mais ainda da sua relação com Will, Tessa e Matthew, seu parabatai. Porém, quando finalmente li o livro, James não conseguiu me conquistar profundamente e fiquei dias tentando entender porque eu não tinha gostado dele. Quando finalmente entendi, percebi que a razão para eu não ter apreciado James como os outros personagens vem muito mais da má execução de seu plot com a personagem de Grace Blackthorn, do que um problema real do personagem. A trama envolvendo eles dois traz discussões muito complexas sobre relacionamento abusivo, manipulação mental e distorção de culpa e nem todos esses tópicos pareceram bem executados para mim.

“Lucie tinha há muito concluído que viver em uma narrativa importante seria terrivelmente desconfortável. Muito melhor escrevê-las e controlar a história para que jamais ficasse triste ou assustadora demais, apenas o bastante para ser intrigante.”

Alguns comportamentos e falas de Grace podem deixar alguns leitores desconfortáveis, eu inclusa, por apresentar uma relação muito forte com a realidade de situações similares. Nesse ponto, faço um alerta de gatilho para relacionamento abusivo e recomendo que tomem cuidado caso esse seja um tema sensível: há cenas incômodas de manipulação psicológica e de consentimento. Esse enredo poderia ser ótimo se fosse abordado com mais clareza, porém, sinto que faltou algo na hora de construir essa narrativa tão delicada e deixar um tema desses com tamanha ambiguidade pode não ser uma escolha saudável de trama ou de mensagem a ser repassa aos leitores. Não sei como a Cassandra vai lidar com isso em livros futuros, mas tenho receio que esse assunto seja tratado de forma irresponsável e espero estar profundamente errada. Porém, até aqui, eu preferiria que a trama do James não tivesse ido para esse lado, pois há um nível de complexidade com esse tipo de assunto que sinto que ficou mal trabalhada.

Superado esse tópico, já é possível elencar com mais leveza e otimismo as razões para que, apesar de pequenos pesares, “Corrente de Ouro” ainda ter sido uma boa experiência de leitura. De um modo geral, a história traz ótimos momentos entre os personagens, com cenas de amizade, romance e ação que são muito bem delineadas e que conectam esses protagonistas, alimentando a empatia do leitor por eles. Há personagens diversos, tanto em sexualidade quanto em etnia, os novos cenários com elementos mais urbanos são bem gostosinhos de acompanhar e as tramas individuais dos personagens é excelente. As referências a literatura trazem uma nostalgia de “As Peças Infernais” e mostram o quão ligados a escrita e leitura esses personagens estão, o que é um elemento super divertido.

Como livro de uma nova série, “Corrente de Ouro” impressiona pela força com que nos faz sentir e temer pelos personagens e suas relações e são esses mesmos personagens que nós fazem desejar ler o próximo livro o mais rápido possível. Se você gosta de Cassandra Clare e seu universo dos caçadores de sombras, com certeza vai gostar de “Corrente de Ouro” e, se você quiser ver uma trama sobre personagens cheios de segredos e temores em meio a uma epidemia numa Londres do começo do século XX, então também não pode perder essa história que te leva a uma atmosfera urbana e fantástica repleta de emoções e dramas viciantes de acompanhar.

CORRENTE DE OURO

Autor: Cassandra Clare

Tradução: Mariana Kohnert

Editora: Galera Record

Ano de publicação: 2020

Seja bem-vindo ao período eduardiano londrino! Um tempo de luzes elétricas e sombras extensas, a celebração da beleza artística e a selvagem busca pelo prazer, com demônios à espreita no escuro. Por anos a paz reinou no mundo dos Caçadores de Sombras. James e Lucie Herondale, filhos dos famosos Will e Tessa, cresceram e desenvolveram-se em um ambiente harmônico com sua família e amigos, ouvindo histórias sobre o bem derrotando o mal e o amor como o grande vencedor… Mas tudo muda quando as famílias Blackthorn e Carstairs vêm para Londres, assim como uma espécie de praga nunca vista antes, implacável e inevitável. Cordelia Carstairs é uma Caçadora de Sombras, uma guerreira treinada desde a infância para enfrentar demônios. Quando seu pai foi acusado de um terrível crime, ela e seu irmão viajam a Londres na esperança de evitar a ruína de sua família. Sua mãe, Sona Carstairs, quer que a filha se case… mas Cordelia está mais determinada a ser uma heroína do que uma esposa. Logo, Cordelia encontra James e Lucie Herondale, seus amigos de infância, e é levada a seu universo de bailes reluzentes, tarefas secretas e salões sobrenaturais, onde vampiros e bruxos se misturam a sereias e feiticeiros. Enquanto isso, ela precisa esconder sua paixão secreta por James, que jurou se casar com outra pessoa. Quando o desastre atinge, depois de tanto tempo, os Caçadores de Sombras, James, Cordelia e seus amigos mergulham em uma aventura descontrolada que os revelará sombrios e incríveis poderes, o verdadeiro e cruel preço de ser um herói… e de se apaixonar. Ao mesclar enredos complexos, um cenário histórico e personagens cativantes, Corrente de ouro se torna uma verdadeira jornada onde os fãs dos Caçadores de Sombras aprenderão o valor do amor, do ódio, da paixão e da amizade, excedendo todas as expectativas.

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