Crime e Castigo é um dos maiores clássicos da história da literatura ocidental, escrito por Fiódor Dostoiévski e publicado pela Martin Claret em edição de bolso em 2016, conta também com edições diferentes por outras editoras e selos.

Sobre o Livro

Crime e Castigo segue a trajetória de delírio, culpa e medo que assolam a mente do protagonista, Raskolnikov. O jovem ex-estudante de direito encontra-se em um estado deplorável em meio ao verão de São Petersburgo e inicia o livro caminhando pelas ruas e julgando-se superior as demais pessoas por perceber coisas que elas não percebem. Vendo-se nessa posição de poder, ele acredita ter o direito de cometer crimes por um propósito dito maior.

Em meio a essas discussões que ele mantém consigo mesmo, Raskolnikov decide matar uma das senhoras que penhora joias na cidade e defende sua escolha por acreditar que essa mulher é mais uma engrenagem de um sistema que tira tudo dos mais necessitados. Ao realizar o crime, Raskolnikov é pego de surpresa em meio aos seus planos quando a irmã dessa senhora volta para casa antes do esperado e o jovem a mata também.

Compara-se muitas vezes a crueldade do homem à das feras, mas isso é injuriar estas últimas.

Atordoado pelo que fez e imerso em suas próprias crises psicológicas, Raskolnikov retorna para o seu quarto e passa dias e noites em delírio, com apenas os seus próprios jogos mentais como companhia, ao mesmo tempo em que tem que lidar com as notícias sobre a investigação do crime cometido.

Há investigadores procurando pelo assassino, e há também o próprio Raskolnikov tentando compreender o porquê de ter concretizado seus planos e como ele vai lidar com a culpa que o afeta. Em meio ao caos que sua própria mente proporciona, seria Raskolnikov capaz de decretar um castigo a altura de seu próprio crime?


Minha Opinião

O primeiro elemento que mais chama a atenção quando dá-se início a essa leitura é que Raskolnikov não é um protagonista simples. Dostoiévski escreveu e publicou seu livro em meio as mudanças de uma Rússia que era majoritariamente feudal, mas que estava começando a abrir espaço para a modernidade e, junto do progresso, existiam conflitos sociais e individuais que afetavam cada pessoa de modos distintos.

O reflexo dessa Rússia em mudança está na figura do protagonista a partir do momento em que ele sintetiza boa parte dos debates morais que assolavam a sua época, afinal, Raskolnikov perdia horas refletindo consigo mesmo sobre a origem do mal, sobre a justiça, a fé e a verdade. A Rússia de Dostoievski via-se confrontada pela perspectiva de mudanças estruturais irrefreáveis e a Rússia de Raskolnikov carregava consigo as consequências dessas mudanças.

” A maior felicidade é quando a pessoa sabe porque é que é infeliz. “

Raskolnikov não é um personagem fácil, não é feito para ser um protagonista que seja admirável, mas ele também não foi feito para ser um vilão. Ele age como um humano, tem conflitos pessoais como uma pessoa que conhecemos pessoalmente teriam e a única diferença é que a projeção de suas reflexões alcançou um ato terrível e concreto que nos faz dar muitos passos para trás em relação a ele.

Crime e Castigo não é um livro sobre descobrir o assassino, afinal já sabemos quem ele é. Na realidade, temos que entender o porquê de ele ser quem é, e esse sim é o cerne do que mantém a história em seu fluxo. Ao investir mais no “castigo” do que no crime, Dostoiévski abriu espaço para discussões sobre a ética humana e até que ponto somos capazes de esconder nossos desejos mais obscuros e imorais.

Raskolnikov também foi um instrumento de projeção futura, o que é um segundo elemento bem interessante e legal de perceber. Em “O Demônio da Teoria”, o estudioso da literatura Antoine Compagnon trata de concepções sobre a função da literatura e entre elas está a função de “prever o futuro”.

Talvez, Crime e Castigo seja um exemplo de como isso realmente pode acontecer, pois muito tempo antes de Nietzsche, Dostoievski já colocou em Raskolnikov as características do arquétipo do super-homem, que mais tarde o filosofo alemão iria firmar em uma teoria que moldou os estudos das ciências humanas desde então. Também foi bem antes de Sigmund Freud que Dostoievski tratou de temas como a perversidade, os sonhos e as conexões psicológicas que o psicanalista conceituaria anos depois.

Freud e Nietzsche inclusive usaram Crime e Castigo em muitos dos exemplos teóricos, o que confirma o viés de projeção que o livro perpassa. É sempre uma experiência ler um livro que funcionou como um marco para o futuro, e com Crime e Castigo isso torna-se ainda mais forte tanto por esses exemplos quanto por ser possível perceber que alguns dos conflitos que os personagens passam na Rússia em transição daquele século são estranhamento similares ao que passados no Brasil do século XXI.

” Não será preferível corrigir, recuperar e educar um ser humano que cortar-lhe a cabeça? “

Crime e Castigo também tem ótimas personagens femininas. A irmã de Raskolnikov e a personagem de Sônia são responsáveis por diálogos excelentes que alimentam discussões incríveis. Particularmente, Sônia foi uma das minhas personagens favoritas por conta de toda a sua trajetória de destruição própria ao mesmo tempo em que ela era cheia de uma fé incondicional.

O caminho de Raskolnikov cruza com de Sônia em determinado momento da trama e eles tem uma conversa incrível sobre o papel da na vida das pessoas, e é bem curioso o modo como Dostoievski trata esse tema. Seus livros sempre trazem a perspectiva da fé em algum ponto, em Os Irmãos Karamazov, livro que seria publicado em 1880, Dostoievski aprofunda-se ainda mais nessas discussões na forma do personagem de Aliôcha mas, por enquanto, em Crime e Castigo, esse debate fica por conta de Sônia.

Alimentando discussões legislativas, religiosas, sociais e morais desde que foi lançado, Crime e Castigo é um daqueles clássicos que quando lemos entendemos o porquê de esse livro ter a importância que tem. Muitos dos elementos que Dostoievski começou a compor em sua narrativa são utilizados até hoje, além de haver uma imersão diferente dentro da história da Rússia.

Muitos teóricos referem-se ao Dostoievski como sendo o escritor de tragédias russas, diferentemente de Liev Tolstói, que seria o autor dos épicos, e esse é um ótimo jeito de explicar como que Dostoievski escreve e qual o fio que conecta as suas obras.

Não por menos o autor é tratado como um dos maiores escritores do mundo e ler ele hoje, com a visão do que o mundo moderno se tornou, contribui para entender boa parte das reflexões que Raskolnikov começou há tanto tempo atrás.

Se você gosta de tramas com jogos psicológicos e mentais, discussões morais, sociais e políticas, Crime e Castigo é excelente e rende uma boa dose de reflexões até para as mais firmes das nossas convicções éticas.

CRIME E CASTIGO

Autor: Fiódor Dostoiévskir

Tradução: Oleg Almeida

Editora: Martin Claret

Ano de publicação: 2016

Crime e castigo é um daqueles romances universais que, concebidos no decorrer do romântico século XIX, abriram caminhos ao trágico realismo literário dos tempos modernos. Contando nele a soturna história de um assassino em busca de redenção e ressurreição espiritual, Dostoiévski chegou a explorar, como nenhum outro escritor de sua época, as mais diversas facetas da psicologia humana sujeita a abalos e distorções e, desse modo, criou uma obra de imenso valor artístico, merecidamente cultuada em todas as partes do mundo. O fascinante efeito que produz a leitura de Crime e castigo ― angústia, revolta e compaixão renovadas a cada página com um desenlace aliviador ― poderia ser comparado à catarse dos monumentais dramas gregos.

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