Eu não sou a única chocada com o fato de Deadpool foi a salvação da Marvel em 2024. Aliás, o grande consenso foi de que Deadpool & Wolverine foi uma surpresa, o primeiro do estúdio em muito tempo que levou pessoas que não são necessariamente fãs do MCU aos cinemas. Isso sem falar na campanha de comunicação de milhões feita.
Shawn Levy dirige e assina o roteiro, esse último junto de Ryan Reynolds e Rhett Reese. A produção é de Kevin Feige, Simon Kinberg e Lauren Shuler Donner, além de Levy e Reynolds. Já a fotografia fica com George Richmond e a trilha sonora, com Rob Simonsen.

A sinopse mais do que um pouco absurda já diz muito sobre o clima em Deadpool & Wolverine: o sempre irreverente Wade Wilson (Ryan Reynolds) aposentou o uniforme de Deadpool e aceitou uma vida mediana e sem propósitos. Isso até a Autoridade de Variância Temporal (AVT, organização que o público conheceu pela primeira vez em Loki), retirá-lo de cena e o informar de que sua realidade inteira estava prestes a desaparecer. A única maneira de evitar a catástrofe parece ser partir em busca de um novo Wolverine (Hugh Jackman), mas nada é tão simples e os dois irão (literalmente) até o fim dos tempos, em uma confusão cada vez maior, repleta de perigos e super-heróis esquecidos.
Deadpool já tem suas marcas registradas no cinema, e o maior atestado da qualidade do roteiro e da direção é que esses recursos não ficaram velhos no terceiro filme da franquia. A quebra de quarta parede, as cenas de lutas sangrentas que beiram o ridículo, o humor escrachado e sem vergonha, e, claro, Ryan Reynolds falando absurdo atrás de xingamento a aproximadamente 100 Km/hora – tudo isso ainda funciona, e com certeza é grande parte do atrativo do filme.
Agora, o filme é uma obra prima? Lógico que não. E nem pretende ser, assim como Deadpool não pretende ser um dos grandes heróis, nem enquanto personagem, nem enquanto parte do universo cinematográfico. E aparentemente palhaçada era tudo o que estávamos buscando em um filme de herói. Isso porque Deadpool & Wolverine não é nem de longe um dos melhores filmes da Marvel; mas depois de algumas produções onde narrativa, comédia e carisma dos protagonistas falharam muitas vezes, uma história amarradinha (ainda que absurda) e que não se leva a sério precisava aparecer.

É muito fácil, inclusive, de observar a identidade de outros trabalhos do diretor, como O Projeto Adam (2022), Gigantes de Aço (2011) e a franquia Uma Noite no Museu (2006), ao ver que mesmo a proposta do multiverso – que tem se tornado uma sombra – foi aproveitada de maneira leve. O que pode chegar a incomodar é o número de lutas excessivamente longas entre os dois protagonistas; foram todas muito bem feitas, mas se torna um pouco cansativo.
A narrativa por si só funciona sob a lógica da comédia. Temos um começo, meio e fim, com um arco central e crescimento do protagonista – um arroz com feijão que é incrementado com referências e obscenidades. Para mim a trama é bem esquecível, e são os personagens que a carregam de fato, assim como a atuação. Assistir Reynolds como Wilson é sempre incrível, realmente uma das melhores escalações do estúdio. Já ver Jackman de volta ao papel de Wolverine a princípio me deu um certo medo, mas quando ficou claro que o filme não estragaria a história de Logan (2017) e que esse Wolverine que veríamos não era exatamente o personagem do qual nos tínhamos despedido, tendo um arco próprio, foi muito bom mesmo.

Emma Corrin deu um show como Cassandra Nova, daquelas vilãs que fazem crueldades de maneira tão casual que assustam e divertem ao mesmo tempo. Fiquei decepcionada, por outro lado, com Matthew Macfadyen (Sr. Paradoxo), cujo personagem carecia de personalidade e tempo de tela para ter alguma presença e cuja performance ficou praticamente idêntica a seu papel como Tom Wambsgans em Succession. O mesmo vale para Morena Baccarin (Vanessa), que tinha muito potencial no primeiro filme da trilogia para não ser “apenas um par romântico”, mas que foi se desgastando como a motivação do protagonista e quase não participa do filme de 2024.
Efeitos visuais e trilha sonora são de última qualidade, sendo a chave de ouro. Vale a nota de que o 3D, recurso que se popularizou até um pouco demais, realmente faz diferença na experiência do filme, algo sempre muito legal de se ver.
Resumidamente, o sucesso de Deadpool & Wolverine é agridoce: faz muito sentido que tenha ganhado a popularidade que ganhou, mas ao mesmo tempo é um pouco triste que tenha sido o grande filme de super-herói do ano. Vale muito a pena pelas risadas e momentos icônicos, mas sabemos que esse é um ponto baixo para as produtoras desse gênero, e que sem dúvida há histórias mais interessantes a serem contadas nesses universos.


DEADPOOL & WOLVERINE
Diretor: Shawn Levy
Elenco: Ryan Reynolds, Hugh Jackman, Emma Corrin, Matthew Macfadyen
Ano de lançamento: 2024
Wolverine está se recuperando quando cruza seu caminho com Deadpool. Juntos, eles formam uma equipe e enfrentam um inimigo em comum.

















