Delirium é do autor nacional Carlos Patrício e foi publicado em 2014 pela editora Página 42.

Sobre o Livro

“Quando uma pessoa sofre de um delírio, isso se chama insanidade. Quando muitas pessoas sofrem de um delírio, isso se chama religião”.

Essa frase de Robert M. Pirsig reflete a primeira coisa que você precisa saber sobre esse livro: ele não é pra todo mundo, e definitivamente não é para quem tem na religião seu porto seguro.

Delirium reúne oito contos autorais de Carlos Patrício, extremamente diferentes entre si, mas com um denominador em comum, a crítica. Crítica a sociedade, a religião, ao sadismo, aos egocentrismo, a fofoca, a morte. É um livro para se sentir incomodado e refletir sobre os aspectos mais corriqueiros e também bizarros nos quais estamos suscetíveis na sociedade atual.

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O livro é aberto com o Doutor Sádico, conto enaltecido no prefácio, escrito por Estevan Lutz, e que trás as práticas mais macabras do ser humano. Incesto, estupro, tortura, necrofilia e culto ao medo ilustram apenas alguns aspectos trabalhados no protagonista desse ato, alguém com grandes traumas, que se usa das mais bizarras formas para sentir prazer.

“Para descrever o interior daquela casa, palavras não passam de vento. Se os termos ‘terrível’, ‘desprezível’, ‘asqueroso’ e ‘cruel’ fossem multiplicados entre si, não representariam mínima fração de uma definição justa para tamanha desumanidade. Corpos mutilados, instrumentos de tortura e toneladas de podridão compunham um indesejado panorama aos olhos do sensível cristão”.

Truco, o segundo conto, trás uma mensagem oculta que pode refletir de diferentes formas em cada leitor, mas que nos mostra que muito do que vemos e sentimos está em nossa cabeça, e que o mal nos cerca cada vez mais de perto e porque não, já não está dentro de nós?

O terceiro conto se chama Agoniado e é o que mais me identifiquei enquanto pessoa. É o retrato da sociedade voraz e efêmera em que vivemos, onde pressão virou sinônimo de dia a dia, e a compreensão deu lugar à cobrança. Toda essa carga tem um peso e, é claro, uma consequência. Já Telefone sem fio é o mais divertido dos contos, trazendo a fofoca como sua protagonista em uma situação que usa do exagero para impactar o leitor.

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A questão de todas as coisas é meu conto favorito. É aqui que a crítica religiosa que alertei no começo  está massivamente presente, pois o protagonista, um médico que vê sua prima irmã sofrendo de câncer e que não acredita em Deus, mas na teoria do pensamento positivo, se vê discutindo com uma devota a sua religião. O confronto entre a ciência e a fé e a imposição de valores transcorre por 50 páginas de uma narrativa muito bem construída e que mostra, além do fato de que nada é irrefutável, mas que também somos muito suscetíveis a exercer influência em outros, que tanto criticamos em alguns.

“Pode-se induzir o povo a seguir uma causa, mas não a compreendê-la.” – Confúncio

No sexto conto, O outro mundo de Henrique, temos o desejo representado de fugir da realidade e poder viver por alguns momentos em outro lugar, vivenciando coisas diferentes. Em Pouco antes da virada temos o confronto com a morte e o tic tac do relógio em direção ao fim.

No oitavo e último conto do livro, que se chama Lindos sonhos dourados, há a imersão no mundo das drogas e no confronto com a família. Até que pontos estamos certos e até que ponto só enxergamos nosso lado? Até que ponto é se meter de mais e até que ponto é se importar demais? Um conto onde parece difícil diferenciar o que é amor, do que é rejeição.


Capa e Edição

O livro está muito bonito por dentro com páginas em preto em sua abertura e em toda a virada de capítulo. A cada novo conto temos uma ilustração para demonstrar a essência do que aquela história vai trazer e isso ajuda muito a engrandecer a edição. O livro possuí apenas 250 páginas e seus contos variam muito de tamanho, tendo entre 50 páginas os maiores, como Doutor Sádico, A Questão de todas as coisas e Lindos sonhos dourados, à duas páginas, como é o caso de Pouco antes da virada.

Não há ordem alguma entre as histórias, portanto você pode ler conforme tiver vontade ou disponibilidade naquele momento. As páginas são amareladas e por se tratar de contos que não são muito grandes a leitura fui super bem e é possível devorar o livro em apenas um dia, se o leitor tiver um pequeno tempo a se dedicar.

E é claro, o livro veio autografado, o que eu sempre aprecio :)

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Minha opinião

Eu topei ler esse livro pela premissa desafiadora de ele trazer temáticas que poderiam gerar polêmica e acho que ele cumpre muito bem esse papel. Acho que a intenção do autor é exatamente fazer com que o leitor se sinta desconfortável e repense algumas coisas em sua vida.

No primeiro conto, que prometia ser o mais chocante, por estar muito acostumada com séries de tv que tratam sobre serial killers ou coisas do gênero, não me surpreendi tanto, mas compreendo o apelo, pois pode ser considerado o mais forte por sua temática violenta.

Me identifiquei bastante com Agoniado por me sentir muito assim, pressionada pela sociedade a ser e fazer o tempo todo, porém, ao contrário da expectativa o conto que menos me identifiquei foi O outro mundo de Henrique. Depois, pensando sobre a temática, percebi que por eu viver muito no mundo dos livros, o que tem a ver com o que é proposto no conto, meio que saquei qual era a jogada e não foi assim tão interessante quando ela se revelou. Toda vez que leio um livro mergulho em um mundo imaginário, então isso é parte constante na minha vida.

Mas o que mais gostei foi exatamente o que traz a temática da religião. Ando debatendo muito isso ultimamente e na leitura de Os Miseráveis, que estou fazendo a dois meses em paralelo com os outros livros, me deparei com reflexões sobre o quanto a religião influencia as pessoas e inclusive me manifestei sobre isso em um dos diários de leitura. Portanto, a presença de um conto inteiro sobre isso fez com que eu gostasse ainda mais da experiência com Delirium.

É super interessante ver como o autor consegue argumentar três pontos de vista diferentes de forma coerente e inteligente por 50 páginas, mantendo o leitor interessado e pensando no fato de que o protagonista age da forma como critica a quem é religioso, por acreditar em coisas vagas e impor sua crença a outras pessoas.

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Quando aceitei a leitura o autor me avisou de algumas coisas que eu deveria relevar e uma delas eram as notas de rodapé, que hoje ele considera desnecessárias, em sua maioria. Confesso que achei elas bem úteis em geral, tirando uma ou outra e o que realmente me incomodou foi a quantidade de citações de outros autores inseridas no meio da história.

Acho que no início dos capítulos ou a começar um novo arco, não haveria problema. O que realmente atrapalha a leitura são quando essas citações são inseridas no meio do texto, cortando completamente o fluxo de leitura. Acho que isso sim merecia uma revisão para uma possível segunda edição ou próximo livro.

De forma geral curti muito a leitura dos contos e acredito que mesmo Carlos Patrício sendo um autor iniciante, ele já demonstra bastante maturidade na sua escrita em Delirium. Apesar das dezenas de citações, é a voz do autor que ouvimos em cada palavra e se isso não se firmasse eu com toda certeza teria uma opinião bem diferente a expressar.

Recomendo esse livro pra quem tem uma política de vida mais “open mind” ou está tentando se abrir pra leituras conflitantes ou que causem reflexão, pois Delirium é exatamente esse tipo de livro. E fico na expectativa por ler mais coisas do autor e acompanhar sua evolução no meio literário.

DELIRIUM

Autor: Carlos Patrício

Editora: Página 42

Ano de publicação: 2014

Desordens. Distúrbios. INSÂNIAS!
Este é o tema de Delirium.
Nesta coletânea de contos o autor preza, sobretudo, pela diversidade e a originalidade. Pois em que outro livro você encontraria realidade virtual, experiência com alucinógenos, assassinos sádicos, debates sobre crenças e religião, um desabafo a la Kafka, e, até mesmo, os infortúnios de uma fofoca? Uma culinária diversificada e bem temperada para todos os paladares.

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