“Impossível de não se apaixonar” é como eu definiria Klaus (2019). Indicado ao Oscar de Melhor Animação em 2020 – e eu levo até hoje como uma ofensa pessoal não ter ganhado – o longa da Netflix faz a proeza de entregar ao mesmo tempo uma história clássica e algo totalmente novo. A direção é de Sergio Pablos, que também assina o roteiro ao lado de Zach Lewis, e a produção é de Matthew Teevan, Gustavo Ferrada e Marisa Román.

Klaus traz para o público a história de origem da lenda do Papai Noel. Mas para isso, o caminho percorrido é bem diferente do que se espera: temos como protagonista Jesper, o rico e preguiçoso filho do dono de uma rede de correios, que é enviado pelo pai como castigo à pequena e desagradável ilha de Smeerensburg para abrir uma agência dos correios. Sua meta é realizar o envio de 6000 cartas em um ano, ou sua vida de luxos acabou para sempre. Porém, Jesper se depara com uma cidade que transborda raiva e que vive uma briga entre clãs desde sua origem.

O jovem já não tem grandes esperanças de um dia sair do odioso fim de mundo, até que um acidente leva uma carta de uma criança chegar ao misterioso e recluso lenhador do lugar, Klaus. Mas ninguém conseguiria prever como a forma que o homem, enorme e com uma grande barba branca, dá ao garoto um brinquedo iria mudar tudo para sempre. Nem ao menos Jesper, que vê nessa empreitada a sua passagem de volta para casa.

Cartas. Você não escreve muitas hoje em dia, não é? Mas aposto que há uma que nunca se esquece.

Esse é um dos filmes da Natal mais lindos por aí, e isso eu afirmo com toda a certeza. Divertido para as crianças e tocante para os adultos, ele tem aquela qualidade de sentir nostálgico mesmo na primeira vez em que se assiste. É um tom de conto de fadas, com um humor atemporal.

A mensagem é bastante simples, mas universal: se encontra a felicidade nas pequenas coisas e abrir seu coração para o outro pode, sim, mudar o mundo. É claro que fica um pouco utópica a forma como as pessoas mudam magicamente, mas isso acontece de maneira natural e gradual na tela, e ver como a inocência das crianças catalisa todo um efeito cascata é encantador. E, lógico, é divertidíssimo ver a lenda se construindo ao redor dos esforços malucos de Jesper e da figura distante de Klaus, que nem desconfiam do que estão provocando.

A animação é impecável e traz todo um charme diferente. O traço cai bem na linha entre o cartunesco e o artístico, e na minha opinião não haveria formato melhor para se contar essa história. Ah, e vale ressaltar que a dublagem em português é simplesmente incrível, com Rodrigo Santoro, Daniel Boaventura e Fernanda Vasconcellos.

Os personagens são cativantes e seu desenvolvimento, lindo. Assistir a Jesper lentamente aprender que o mundo é mais do que ele mesmo, lençóis de seda e caviar é engraçado e muito doce. Por outro lado, Klaus conquista o público com sua falta de jeito e bondade silenciosa, para depois revelar suas dores do passado e divertir com seu lado empolgado. E, por fim, ver Alva, a professora local que já tinha desistido de tudo na ilha, reacendendo o brilho no olhar, ainda que relutante, é lindo.

Um verdadeiro ato de bondade sempre desperta outro.

Vale dizer que o conflito do filme é um tanto bobo, mas encaixa bem com a narrativa e funciona melhor como uma oposição simbólica. Porque, no final das contas, a história não é sobre esse conflito.

Agora, ouso dizer que o ponto mais alto do longa é o flerte com a magia. Apesar de se passar em locais fictícios, Klaus envereda para o realismo mágico, construindo uma história mais ou menos racional para a construção de Papai Noel (com excelentes sacadas, inclusive), mas inserindo pequenos toques de uma magia inexplicável. A atmosfera do filme já é mágica por si só, mas para os encantos que vemos na história, o vento que conversa com Klaus, bom, cabe a cada um ter sua interpretação.

O que nos leva ao final. Lágrimas são garantidas aqui, e não tem como encerrar essa história sem um quentinho no coração. É lindo em todos os sentidos, pela amizade que assistimos construir e crescer entre Klaus e Jesper, e muito também pelo que não se é capaz de explicar. Facilmente digo que Klaus é um filme para todo mundo, e tem algo diferente a acrescentar a cada vez que se assiste. É único e inesquecível de um jeitinho que poucos filmes nesse nicho tão saturado poderiam sequer sonhar em ser.

KLAUS

Diretor: Sergio Pablos

Elenco: Jason Schwartzman, J. K. Simmons, Rashida Jones

Ano de lançamento: 2019

Um carteiro egoísta e um fabricante de brinquedos solitário cultivam uma amizade improvável e levam alegria a uma cidade fria e sombria.

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