Descobri Nimona em uma menção rápida de um vídeo de melhores do ano, perdido entre uma série de filmes badalados. Mas agora eu não consigo entender como eu não vi muito mais gente comentando sobre essa pequena pérola da Netflix. A animação é dirigida por Troy Quane e Nick Bruno, com produção de Julie Zackary, Roy Lee e Karen Ann Ryan, com roteiro assinado por Robert L. Baird e Lloyd Taylor.

Inspirada na webcomic homônima de ND Stevenson, a história de Nimona nos apresenta ao Reino, uma pequena monarquia isolada do mundo pela constante ameaça de monstros. Ao longo dos séculos após a lendária fundadora Gloreth construir a Muralha, criou-se a Instituição, uma ordem de cavaleiros de berço nobre que manteria todos seguros. Isso até Ballister (Riz Ahmed), um plebeu, ser condecorado e, em sua cerimônia de consagração, uma grande tragédia ocorrer. O jovem então se vê fugitivo e encontra a mais inesperada das ajudas em Nimona (Chloë Grace Moretz), uma monstrinha metamórfoga que o fará questionar tudo em que sempre acreditou.

O longa tem tantos pontos fortes que não sei exatamente o que mais me conquistou. Com mensagens já bastante trabalhadas (ainda que logicamente importantes) sobre aceitação e os perigos do fanatismo, além de uma trama por si só previsível nos momentos-chave, é a execução ousada e a inclinação para a temática LGBTQIAP+ que torna Nimona inesquecível.

Logo de cara o estilo de animação e o mundo que se desdobra como cenário já chamam a atenção. Misturando tecnologias dignas do sci-fi com elementos medievais, o filme abre espaço para o inusitado surpreender de forma casual mesmo como pano de fundo. Já a construção técnica, tanto de personagens, quanto de cenário traz um pouco de Homem Aranha no Aranhaverso (2018) e um pouco de Pixar, em uma combinação que eu pessoalmente adorei. Estou escrevendo esse texto antes do anúncio final de indicações ao Oscar, mas espero que Nimona se confirme na lista (ainda que tenha poucas chances de vencer frente a concorrentes mais fortes e populares).

Mas, sinceramente, acho que grande parte do encantamento de Nimona está na mescla perfeita de humor e vulnerabilidade. Fazia muito tempo que eu não dava tantas risadas com um filme, que entrega um ótimo equilíbrio entre sacadas inteligentes, situações genuninamente cômicas e uma personagem principal infinitamente carismática. Cenas emocionantes ou fofas vieram para oferecer o contraponto nos momentos certos também, com direito a um background de partir o coração para Nimona. No geral, embora, como eu disse acima, os plot twists centrais fiquem bem na cara para um expectador com um mínimo de repertório, isso não torna a experiência menos surpreendente em sua construção.

Grande parte dessas pequenas e ótimas surpresas vêm dos nossos dois protagonistas. Nimona não pode ser descrita de outra forma que não “apocalíptica”; sua coragem insana, sua constante disseminação do caos, bem como sua gentileza e tristeza vindas da solidão a tornam simplesmente icônica desde o início. Ballister também tem tudo para encantar: ele só quer fazer o certo, tem fé total na Instituição e nos cavaleiros, e fica totalmente desamparado ao ser visto como vilão. Os dois interagindo é puro ouro, seja pela comédia, seja pela doçura da amizade que surge entre eles.

Criancinhas… elas crescem acreditando que vão ser heróis se enfiarem uma espada no coração de qualquer um que seja diferente.

Infelizmente, acho que o roteiro peca em desenvolver os demais personagens, com exceção parcial de Ambrósio (queria ter visto mais dele, inclusive). E o mais triste é que isso parece ser mais em função do recorte temporal de 1 hora e 45 minutos praticado para filmes assim, do que propriamente uma falta de conteúdo. O mesmo se dá com outros detalhes – não que eu esperasse grandes complexidades políticas, mas algumas bolas foram levantadas e ficaram sem resposta. Senti que a resolução final acabou sendo um pouco simples demais até mesmo tendo em vista o público infantil, com um grande felizes para sempre, já esperado, mas um pouco decepecionante por seus alguns vários furos.

E ainda assim, nada tira o mérito dessa recomendação. A representatividade LGBTAQIAP+ é natural e casual (pontos por isso), assim como o é a camada de mensagens e reflexões sobre fugir à heteronormatividade. É uma história moderna com a pegada das animações que já nos conquistaram antes; fica principalmente a dica para quem curtiu Frozen (2013) e Operação Big Hero (2014), Nimona é quase uma mistura perfeita dos dois. Acima de tudo, esse é um filme divertidíssimo que tem tudo para funcionar para várias faixas etárias.

NIMONA

Diretor: Troy Quane e Nick Bruno

Elenco: Riz Ahmed, Chloë Grace Moretz, Eugene Lee Yang, Frances Conroy

Ano de lançamento: 2023

Um cavaleiro é acusado de um crime que não cometeu, e a única pessoa que pode ajudá-lo a provar sua inocência é Nimona, uma adolescente que muda de forma e que também pode ser um monstro que ele jurou matar.

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