Doutor sono é a continuação do livro O iluminado do autor estadunidense Stephen King. O livro foi lançado no Brasil em 2014 pela Suma, selo editorial do Grupo Companhia das Letras.

SOBRE O LIVRO

“Doutor Sono” é uma espécie de continuação, que não fora inicialmente planejada, de “O iluminado”, na qual Stephen King vai nos apresentar o que aconteceu com Danny nestes mais de 30 anos que se passaram entre a publicação deste (em 1980) e a publicação daquele (em 2013). É bom lembrar que, como estamos falando de uma continuação, esta resenha pode conter Spoilers de “O Iluminado”. Continuando, conforme King nos conta em sua “Nota do autor”,

“essa era uma ideia que nunca chegou a sair da minha cabeça. De vez em quando – ao tomar banho, assistir a um programa de TV, ou fazer uma longa viagem de carro – eu me via calculando a idade de Danny Torrance e imaginando onde ele estaria. Sem falar em sua mãe, mais um ser humano basicamente bom, que sobrevivera ao rastro de destruição de Jack Torrance. Wendy e Danny eram, no linguajar atual, codependentes, pessoas presas a um membro viciado da família por laços de amor e responsabilidade. Em algum momento de 2009, um de meus amigos, um alcoólatra em recuperação, me disse uma piadinha sucinta: ‘Quando um codependentes está se afogando, a vida de outra pessoa passa diante de seus olhos’. Isso me pareceu verdade demais para ter graça, e acho que foi neste ponto que Doutor Sono se tornou inevitável. Eu precisava saber.”

Assim, vamos seguir as consequências para Wendy, Dick e, principalmente, Danny, do que eles viveram no Hotel Overlook. E, ao fazermos isso, conheceremos também novos personagens, como Abra Stone, uma menina de 12 anos com poderes excepcionais, ainda mais iluminada que o próprio Danny, e um grupo conhecido como o “Verdadeiro Nó”, que pode parecer relativamente inofensivo, a princípio, mas que rapidamente se mostrará bastante perigoso e colocará Danny e Abra em uma posição bastante delicada.


MINHA OPINIÃO

Uma das coisas que me chamou atenção logo de início em Doutor sono é como King continua a história de O iluminado acabando logo de cara com qualquer esperança de que tudo ficaria bem. Uma das coisas que mais me incomoda em certos finais, e que me incomodou em especial na leitura de O iluminado, é o modo como os personagens passam por coisas horríveis ao longo da história e, quando acaba, parece ficar tudo bem, como se nada tivesse acontecido. King mostra bem claramente nesta continuação os traumas físicos e psicológicos que Danny e sua mãe sofreram, assim como mostra que ainda há muitos fenômenos sombrios no seu futuro.

“Mas outra parte sua, a parte iluminada, sabia mais que isso. Ele ainda não estava livre do Overlook.”

Vemos, por exemplo, o processo que leva Danny a recair no mesmo vício do pai, o álcool, mas também vemos como o modo como isso acontece e a forma como Danny lida com o vício e com seus impulsos violentos é drasticamente diferente. Ao contrário de Jack, que nunca buscou ajuda ou sequer foi capaz de admitir para si mesmo e para os outros a extensão de seu problema, Danny de fato busca ajuda, passa a frequentar o grupo Alcoólicos Anônimos (AA) e torna-se um alcoólatra em recuperação. Fica claro que ele não está curado, afinal o alcoolismo não é uma doença para a qual exista cura ainda, mas, sim, que ele está sempre lutando contra seus impulsos negativos, sempre se esforçando ao máximo para não permitir-se mergulhar na loucura que seu pai caiu.

E este não é o único paralelo que vemos entre as linhas narrativas de “O Iluminado” e “Doutor Sono”; todo o livro pode ser lido como um novo ciclo dentro do mesmo tema, durante o qual Danny se verá em um papel um pouco diferente do que se viu anteriormente, já que agora é Abra a criança iluminada que precisa de um guia como ele mesmo precisou um dia. O que não significa que esta seja uma daquelas continuações em que o autor pega o modelo do primeiro livro e simplesmente o repete. “Doutor Sono” não poderia estar mais longe disso. É uma continuação em que muita coisa mudou, inclusive a escrita do autor evoluiu muito, como o mesmo reconhece em sua nota, mas que certos padrões se repetem. Até o Hotel Overlook ressurgirá das cinzas, de certa forma.

Por último, gostaria de chamar a atenção de vocês para uma discussão muito interessante que surge dentro deste livro e que definitivamente não estava presente em “O Iluminado”: a problematização da violência, mesmo quando é utilizada como meio para derrotar o vilão. Não quero entra em muitos detalhes, pois daria spoiler do final do livro, mas todo o processo que leva a este final nos faz pensar sobre a violência e, em especial, sobre em que medida somos mesmo melhores que nossos inimigos.

“É matar que você queria que não tivesse acontecido ou a alegria de ter matado?”

Se ao matar o vilão o herói sente prazer ao fazer uso da violência, o que ainda os diferencia? O herói poderia ser apenas um vilão que venceu? Se não tratamos nossos inferiores melhor que somos tratados pelos vilões, somos tão diferentes assim?

 

Doutor Sono

Autor: Stephen King

Tradução: Roberto Grey

Editora: Suma

Ano de publicação: 2014

Mais de trinta anos depois, Stephen King revela a seus leitores o que aconteceu a Danny Torrance, o garoto no centro de O iluminado, depois de sua terrível experiência no Overlook Hotel. Em Doutor Sono, King dá continuidade a essa história, contando a vida de Dan, agora um homem de meia-idade, e Abra Stone, uma menina de doze anos com um grande poder. Assombrado pelos habitantes do Overlook Hotel, onde passou um ano terrível da infância, Dan ficou à deriva por décadas, desesperado para se livrar do legado de alcoolismo e violência do pai. Por fim, ele se instala em uma cidade de New Hampshire, onde encontra abrigo em uma comunidade do Alcoólicos Anônimos que o apoia e um emprego em uma casa de repouso, onde seu poder remanescente da iluminação fornece o conforto final para aqueles que estão morrendo. Ajudado por um gato que prevê a morte dos pacientes, ele se torna o Doutor Sono. Então Dan conhece Abra Stone, uma menina com um dom espetacular, a iluminação mais forte que já se viu. Ela desperta os demônios de seu passado e Dan se vê envolvido em uma batalha pela alma e sobrevivência dela. Uma guerra épica entre o bem e o mal, uma sangrenta e gloriosa história que vai emocionar os milhões de fãs de O Iluminado e satisfazer os leitores deste novo clássico da obra de King.

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