Muito barulho por nada é considerado um dos textos mais divertidos de William Shakespeare. A peça foi apresentada originalmente em 1598, mas pode ser lida em diversas edições, uma delas essa de 2016, da editora L&PM Pocket.

Sobre o Livro

Messina, Itália, por volta de 1598. Beatriz é uma moça que demonstra toda a sua aversão aos homens e ao casamento, principalmente quando é arranjado; não mede suas palavras para impor sua opinião sobre isso, desagradando quem for. Hero, sua prima, por outro lado, está ali para satisfazer os desejos do pai, pondo-se disposta a aceitar o que seu pai acreditar ser melhor para ela.

Benedicto é um moço que demonstra toda a sua aversão ao casamento, comprometimento é algo que lhe da coceira só de pensar; ele e Beatriz irão provar sua articulação argumentativa a todo tipo de afirmação ou pergunta sobre o assunto. Cláudio, amigo de Benedicto, é apaixonado por Hero e não vê a hora de consumar matrimônio com a moça, mas para isso ele acredita que precisa da ajuda da lábia de seu príncipe, Dom Pedro, e pede a ele que no baile de máscaras seduza Hero, para que, no dia seguinte, Cláudio peça a sua mão e ela aceite.

“Nisto eu agradeço a Deus e ao meu sangue-frio: nessas coisas, tenho a mesma disposição que o senhor; prefiro ouvir meu cachorro latindo para uma gralha a ter de escutar as juras de amor de um homem.”

Para entrar na brincadeira da sedução, os amigos de Beatriz e de Benedicto decidem inventar umas mentirinhas para ambos pensarem que um está apaixonado pelo outro, em oposição ao divertimento temos Dom John, o irmão bastardo do príncipe, que não nega a aversão que sente pelo irmão e amigos deste, e decide inventar mentiras a respeito de Hero pondo a prova a pureza da moça.

Nesse emaranhado de situações tem-se provas falsamente arranjadas, baile de máscaras, cerimônia de casamento, flertes, calunias, desafios para duelos, cerimônias fúnebres, mortes e fugas que se revertem, não necessariamente nesta ordem. Em meio a dores e amores nasceu essa história tragicômica, que faz-nos ansiar por justiça e torcer pelo amor.


Minha Opinião

Quando o autor é superestimado nós tendemos a iniciar a leitura com medo, ou com muitas expectativas, ou mesmo sequer passamos perto desses autores para evitar, sei lá, o que que criamos em nossas cabeças. Superestimando ainda mais os autores e subestimando ainda mais nossa capacidade de entendimento; será? É por isso que por muito tempo passei longe de alguns títulos, mas venho aos poucos desmistificando a literatura para mim mesma, e me arriscando em territórios novos. E digo para vocês: estou adorando o que estou conhecendo! Se você captou a mensagem, percebeu que eu enrolei tanto para dizer que essa é a primeira vez que leio Shakespeare, porque antes sentia medo! E claro, é a primeira vez que leio por livre e espontânea vontade, sem que tenha uma professora impondo leituras que por algum motivo nós achávamos as coisas mais chatas do mundo!

Quando eu decidi ler “Muito Barulho por Nada” não foi nem pelo autor em si, ou pelo livro, mas, sim, porque eu estou em uma fase muito gostosa de ler peças. E quando se quer ler peças, bom… fugir de Shakespeare é algo um tanto quanto complicado, ou impossível, eu diria. Então eu decidi me despir desse medo que não sei porquê existia, e procurar mais das obras dele sem que fossem aquelas histórias que nem precisamos ler para saber o que acontece do início ao fim. Foi aí que eu me deparei com o título qual vos dedico esse post, que, para mim, foi um ótimo achado e uma grata leitura!

O que me convenceu a ler a peça foi por sua temática, que embora tenha sido escrita e ambientada no século XVI, retratou de forma bastante moderna aquele tempo, onde uma mulher podia se impor contra o casamento sem que sua opinião fosse guardada a sete chaves, onde um pai ainda arranjava o casamento da filha, mas só caso ela aceitasse o prometido também. Eu achei isso super interessante, afinal as mulheres seguem na luta pela liberdade até hoje, e ver uma história de séculos atrás dando liberdade à mulheres, mesmo que poucas, é bem interessante. Claro que aqui nessa história nós estamos concentrados em apenas uma família e ciclo de amigos, e a liberdade das mulheres que falo, pelo que entende-se da história e de todo o contexto histórico em si, é também apenas nesse ciclo.

“Por minha fé, esta é a obrigação de minha prima: fazer uma mensura e dizer “Meu pai, como o senhor achar melhor”. Mas, apesar de tudo, prima, certifica-te de que ele é bonito; caso contrário, fazes outra mensura e dizes “Meu pai, como eu achar melhor.”

Outra coisa que achei legal foi Shakespeare ter criado o que hoje conhecemos como “quem briga se ama”, já que em meio a trama temos dois personagens que tentam autossabotar seus próprios sentimentos. E eu, que temia esse grande nome da literatura, me peguei lendo algo que cansamos de ver pelos corredores do colégio: puxões de cabelo e tapas no ombro no corredor e beijinhos atrás da escola. Claramente que a história vai muito além disso, ela mostra as consequências que uma mentira pode causar, principalmente em tempos onde se valorizava muito um sobrenome sem vergonhas atreladas a ele. Também retrata muito a solidariedade dos sexos; onde uma mentira é contada sobre Hero, mas Beatriz colocaria suas mãos no fogo se precisasse para provar que a prima era inocente, enquanto Cláudio, o Príncipe e até mesmo o pai de Hero, voltaram-se contra a moça, preferindo acreditar nas histórias que um sujeito contara, só porque ele era um homem e, ainda por cima, da realeza! Maaas, também um lado bastante interessante, é Benedicto ter ficado ao lado de Hero e acreditado na moça, por amor à Beatriz.

Um detalhe muito importante de ser percebido, é que em uma época machista, os homens dessa história sabem reconhecer os seus erros e colocar a bondade acima de seu próprio orgulho, tentando redimir-se. E para nós, leitores, isso é ótimo, porque não nos faz passar raiva ao ler um sujeito sustentando algo errado, mesmo sabendo que está errado, só para não dar o braço a torcer. Resumindo, Shakespeare se pôs ao lado das mulheres e moldou personalidades masculinas mais amáveis, mesmo que com resquícios machistas impregnados de alguma forma.

De início algo que pode dar uma leve assustada é a quantidade de personagens que vão entrando sem introduções, e nas histórias paralelas, afinal, é uma peça, ou seja, são apenas diálogos. Mas essa edição nos dá um índice de todos os personagens e seus papéis, o que facilita na hora que aparece alguém novo. Tirando isso, ler peças com temáticas que gostamos é simplesmente algo que eu sugiro a todas as pessoas que gostam de ler, ou que estão adentrando ao universo da leitura, porque é rápido e fácil, mas nem por isso, superficial

MUITO BARULHO POR NADA

Autor: William Shakespeare

Tradução: Beatriz Viegas Faria

Editora: L&PM Pocket

Ano de publicação: 2016

Um homem e uma mulher. Os dois igualmente inteligentes, bem articulados, espirituosos, rápidos em construir respostas espertas a todo tipo de afirmação ou pergunta. É nas falas de Beatriz e Benedicto, dois dos personagens mais queridos do público de Shakespeare, que se fundamenta a parte cômica desta peça, Muito barulho por nada. Quando se encontram os dois, armam-se verdadeiros combates entre esses esgrimistas das palavras, dois alérgicos ao casamento, para o prazer do leitor ou platéia.

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