O Corvo é um conto do aclamado autor Edgar Allan Poe e, nesta edição, lançada em 2019 pela Companhia das Letras, foi organizada por Paulo Henriques Britto e teremos as traduções de Fernando Pessoa e Machado de Assis.

Sobre o livro

Publicado, originalmente, em janeiro de 1845, na American Review e assinado por um pseudônimo, o conto “O Corvo” já passou por diversas análises, publicações e traduções. A história sobre um jovem estudante que está sozinho em casa em uma noite fria e tempestuosa de dezembro quando, em determinado momento, ouve batidas na sua janela. Essas batidas o deixam apavorado e ele procura diversas explicações para o fenômeno que está acontecendo, acreditando ser apenas uma visita.

“É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais; Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais. É só isto, e nada mais.”

Quando o jovem percebe que a visita é, na realidade, um corvo preto que adentra seu quarto e pousa no busto de Atena, ele fica surpreso. Essa visão é quase cômica e o medo dele acaba por arrefecer. No entanto, quando decide gracejar perguntando ao pássaro qual é o seu nome, para seu grande espanto, ele responde: NUNCA MAIS.

Pavor e incredulidade tomam conta desse rapaz que passa a fazer diversas perguntas ao animal. Seu desespero após perder a mulher amada acaba por aumentar a gana de saber mais sobre a morte, a vida e tudo mais. Mas, para cada pergunta o corvo apenas responde: NUNCA MAIS.


Minha opinião

Não sei o que está melhor aqui: traduções, ensaios ou edição. Esse livro é uma obra de arte que precisa estar nas estantes de todos os amantes de Poe. O cuidado ao reunir e apresentar esse livro, o material utilizado, as ilustrações presentes no seu miolo e a riqueza de detalhes e notas de rodapé estão dignos das 5 estrelas. Está simplesmente maravilhoso. Para quem não sabe Paulo Henriques Britto é um tradutor e professor de tradução, literatura e criação literária. Além de ser um grande fã e estudioso de Poe. Aqui, ele conta, como começou esse seu fascínio com a obra do autor, além de apresentar seus estudos sobre o mesmo.

A primeira parte do livro possui as traduções de Fernando Pessoa e Machado de Assis. Parece que não estamos lendo a mesma obra. É neste momento que percebemos o quanto a tradução não deixa de ser uma nova obra. No quanto a escolha de uma palavra e visão do tradutor podem alterar todo o sentido de uma frase. As duas traduções são muito diferentes e isso fica totalmente explícito para nós.

Esse conto é um dos meus preferidos de Poe e sempre me fez pensar sobre o medo do sobrenatural. Do inexplicável. Um jovem sozinho, que ouve batidas e sente um medo paralisante. O temor que tem início e que apenas é aplacado quando ele tenta justificar o barulho. Quantas vezes não tentamos justificar algum barulho estranho também? Uma porta que se abre? Um objeto que cai? Nosso ceticismo tenta falar mais alto quando algo sobrenatural acontece.

“Seu olhar tem a medonha dor de um demônio que sonha.”

O Corvo, para mim, sempre representou todos os nossos temores. Ou até mesmo a morte. Aquela implacável visita que não desejamos receber. Os sentimentos de terror e pânico causados por uma ave que fala, revelam muito sobre a natureza humana. O quanto estamos suscetíveis e o quanto ficamos sem reação e desesperados quando algo fora do normal acontece. A normalidade é muito importante para as pessoas. A confusão também me parece presente nesse conto, o quanto ele fica desesperado, após perder a sua amada Lenora, e o quanto ele coloca o corvo em um pedestal, quase como um profeta detentor da verdade, e se põe a fazer perguntas que apenas uma entidade sobrenatural poderia ter respostas.

A tradução de Fernando Pessoa foi a que mais gostei. Mas por ser mais fácil de entender. A de Machado de Assis é mais dura, difícil de compreender e sem aquela musicalidade. Parece que o poema não flui. No entanto, essa é a mais fiel. Esse livro é uma forma de mostrar, também, o quanto a tradução é importante. O quanto é árdua a tarefa de dar sentido a uma história traduzida para outra língua. Quando estamos envolvidos com uma leitura, nem mensuramos a quantidade de trabalho que um tradutor tem ao dar voz aos nossos escritores favoritos para a nossa língua.

Além disso, o organizador conta a história do poema, das críticas recebidas, do fascínio causado na população, as diversas interpretações dadas pelos estudiosos, aquela euforia em tentar dar significado a tudo. O que achei incrível e ainda não tinha ciência, são os ensaios realizados por Poe e que estão reunidos nesse livro. É quase como um aula de tradução, versificação, aspectos semânticos e interpretação. Poe é um mestre e, se alguém ainda duvidava da sua inteligência, por favor, leia-os.

“Com longo olhar escruto a sombra, que me amedronta, que me assombra.”

O ensaio escrito por Poe sobre como foi feita a escrita desse poema, é simplesmente fenomenal. Na verdade, por falta de palavras, não sei como exemplificar o quanto este ensaio é incrível. Ele nos apresenta uma criação completamente racional e calculada. Afirmando que sua ideia surgiu de tal forma e que o restante apenas foi sendo feito conforme o que mais ele acreditava ser aceitável. Ou seja, nada de arroubos de criatividade como pensamos ter os grandes poetas, onde um poema é feito através da emoção e calor do momento. Poe nos apresenta uma escrita comedida e totalmente sob medida. É incrível ler suas palavras sobre a criação desse conto que atravessa gerações e encanta tantos até hoje.

Reunindo um apanhado sobre sua história, a tradução desse poema, trazendo aspectos mais técnicos e como a tradução é feita temos aqui, muito mais que um simples livro, temos uma aula completa e cheia de detalhes. Com diversas explicações e notas. Contendo uma tradução feita ao pé da letra e outra que é “ritmicamente conforme o original”. Teremos duas versões de um poema, além das próprias palavras do autor e avaliações do organizador. Repito: esse livro precisa estar na sua estante, fã do Poe.

“Assim, Poe decide que o poema será longo o suficiente para que lhe seja possível desenvolver seu tema de modo adequado, mas não tão longo que não possa ser lido de uma única vez – pois qualquer interrupção do processo de leitura afetaria a unidade do efeito sobre o livro.”

São duas traduções muito boas, cada uma com suas particularidades. Com os ensaios, nos sentiremos ainda mais próximos de Poe, quase como se ele estivesse falando conosco. Esse livro apenas reforça a minha certeza de que Poe foi um dos maiores escritores que já passou pela terra. Percebemos aqui a magnitude da sua inteligência, desenvoltura e confiança. Ele apresenta um tom explicativo e racional para o poema. Algo que nos faz amar ainda mais a sua obra.

O CORVO

Autor: Edgar Allan Poe

Tradução: Fernando Pessoa e Machado de Assis

Editora: Companhia das Letras

Ano de publicação: 2019

“A morte de uma mulher bela é, sem sombra de dúvida, o tema mais poético do mundo.” Assim Edgar Allan Poe justificaria a gênese de “O corvo”, poema publicado sob pseudônimo originalmente em 1845. Mas o que faz com que esses versos hipnotizantes sobre perda e desejo, escritos de modo tão calculado pelo mestre do terror há quase dois séculos, tenham merecido tantos elogios e tamanha controvérsia? Nesta edição, o leitor vai conhecer as traduções mais notáveis de “O corvo” para a nossa língua ― as de Fernando Pessoa e Machado de Assis ―, analisadas pelo poeta, tradutor e professor Paulo Henriques Britto, que também traduz três textos fundamentais de Poe sobre poesia (“A filosofia da composição”, “A razão do verso” e “O princípio poético”) e examina a faceta ensaística do escritor.

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