O Idiota é do aclamado autor Fiódor Dostoiévski. Publicado pela primeira vez em 1869, ele foi relançado em 2018 pela editora Martin Claret.

Sobre o livro

O príncipe Lev Míchkin é um jovem peculiar para a sua idade. Com seus mais de 20 anos, ele ainda vive de uma forma inocente e sem ver maldade nos outros. Após passar anos na Suíça cuidando do seu problema de saúde – ele sofre de epilepsia -, o jovem retorna para a sua amada Rússia.

É durante essa viagem que ele conhecerá Parfión Rogójin. Rapaz que parece ser exatamente o oposto dele. Os dois travam uma conversa e é dali que pode surgir uma amizade. Através dele que o príncipe ouvirá falar pela primeira vez na famosa Nastássia Filíppovna. Uma bela mulher que atrai a admiração de homens, a inveja de mulheres e os maiores comentários da sociedade russa da época.

“Seus olhos eram grandes, azuis e fixos. Através deles transparecia algo gentil mas com uma expressão afadigada e tão esquisita que muita gente ao primeiro relance reconheceria estar defronte de um epiléptico.”

Chegando ao seu destino, ele irá em busca de auxílio de parentes e conhecerá as mudanças que acorreram durante os anos que ele esteve fora. No entanto, quando ele conhecer a famosa Nastássia sua vida mudará completamente. Em meio a uma paixão incomum, mentiras contadas pela alta sociedade e o poder do dinheiro, veremos a história dessa nobre figura se desenrolar.


Minha opinião

Já vi muita gente se apaixonar por um personagem, mas por um livro? Pois é. Apaixonei-me pelo conjunto completo: trama, edição e personagens. Os meus elogios para essa obra são muitos, mas vou tentar resumir. Primeiramente a edição está uma beleza. Capa dura, com fitinha, uma diagramação linda, cheia de detalhes… enfim, uma beleza completa. Confesso que ainda não havia travado um contando com as obras do autor, que é tão aclamado e elogiado pelos estudiosos – principalmente meus amigos das letras. Por isso, minha vontade de conhecer sua escrita. No entanto, eu tinha certo receio de não me adaptar a linguagem utilizada pelo autor.

A trama é completamente diferente do que eu estava acostumada. Aqui temos uma história baseada em diálogos e pouca ação. Em alguns momentos, essa linguagem mais rebuscada, me fez diminuir a velocidade da leitura para entender o que estava sendo discutido. Mas, para minha felicidade, existem várias notinhas de rodapé explicando algumas palavras. Para mim, que estava acostumada com investigações, aquele clima de suspense e um terror, encontrar algo mais clássico e que envolve discussões filosóficas e debates sobre certas situações referentes à época, foi um grande desafio. Se gostei? Adorei. Mal posso esperar para conhecer as demais obras do autor. Agora entendo todo o alvoroço em volta dele.

A narrativa é cheia de detalhes e minúcias. É quase impossível acreditar que essa é apenas uma obra de ficção. Para mim, pareceu um relato fidedigno de acontecimentos passados. A riqueza de detalhes, a exploração de uma época onde tudo era diferente, a construção de personagens únicos e a reunião de tantos assuntos diferentes, mas que ao final de interligam foi muito interessante.

“Tem um rosto maravilhoso. E percebo que a história dela não é uma história comum. É um rosto prazenteiro. Mas não teria ele passado já por terríveis sofrimentos? Os seus olhos nos dizem isso, e as suas faces, e este trecho debaixo dos olhos! É um rosto altivo, pasmosamente orgulhoso, mas não sei se ela tem bom coração! Se tiver, ah!… Isso a redimiria! De tudo!…”

O livro é dividido em 4 partes. Na primeira teremos uma apresentação dos personagens e principalmente do nosso protagonista, na segunda alguns eventos acontecerão e nos levarão a questionar o que ainda não foi explicado e está sendo escondido do leitor, na terceira observaremos um príncipe dividido entre dois amores e, ao final, veremos um desfecho inesperado.

O príncipe Míchkin é uma figura enigmática. No começo, fiquei muito apiedada dele e da forma como as outras pessoas o tratavam. Por isso o termo “o idiota”. É assim que as outras pessoas o consideram em razão da sua bondade. Com o tempo, fui ficando irritada e nervosa com sua falta de atitude, mas, ao final, toda essa irritação passou e vi ele com outros olhos. Ele é um jovem tímido, que ainda vê bondade nas pessoas e parece acreditar em um mundo melhor. Totalmente humilde e desapegado de maldade. Ele é quase uma Pollyanna russa. Sua evolução é perceptível enquanto evoluímos na narrativa. Aos poucos ele vai revelando suas intenções e quando ele se encontra apaixonado por duas beldades, ficamos tão divididos quanto ele.

Nastássia Filíppovna foi uma das personagens mais peculiares que já conheci. Ainda existem tantos outros personagens para falar, mas preciso me ater a esses principais, apesar de todos serem bem construídos e explorados. Por muitos ela é vista como uma moça vulgar, sem os modos esperados para uma jovem dessa época. Por outros, é vista como uma despudorada ou até uma louca. Eu digo que, pelo menos no começo do livro, eu a via como uma mulher que chegou ao seu limite. Uma mulher que cansou de ser cobrada, de ser vista como mercadoria, julgada e posta como um objeto. Mas, com o tempo, percebi o quanto ela decaiu e se perdeu por pressão dessa sociedade machista e opressora.

“Ah! A expressão escura e misteriosa daqueles olhos! Pareciam estar pedindo que lhe interpretassem o enigma.”

A relação entre o príncipe e Nastássia é extremamente conflitante. Ele afirma amar o seu sofrimento, quase como se a amasse por pena. E tudo isso faz com que fiquemos apreensivos e tentando desvendar o que ele sente. Por muitas vezes, eu pensava que nem ele sabia sobre os seus sentimentos por ela. As voltas que essa relação dá, as incertezas da própria moça, esse amor que beira o desespero está entre os relacionamentos mais complicados e desconexos que já vi. Quando terminei minha leitura, precisei ficar um bom tempo refletindo sobre eles. Será que isso é realmente amor? Afinal, cada um sabe de si e sobre o que sente. Entretanto eu ainda tenho minhas dúvidas sobre essa situação.

Sou extremamente atraída pela Rússia. Morro de vontade de conhecer o lugar, os costumes, a arquitetura e a população. Tenho muito interesse em desbravar suas ruas e conhecer sua história. Ter nessa trama – pelo menos um pouquinho – de seus costumes, debates, filosofias e pensamentos, foi incrível. Me senti vivendo um pouquinho nessa época e lugar também.

Entendam que eu apenas pincelei um pouco da história e dos diversos acontecimentos que ocorrem aqui. As reviravoltas e assuntos que compõe essa obra vão além do que posso comentar nessa resenha. O que posso afirma é: leiam esse livro. O autor conduz o seu leitor como bem deseja. É quase como se observássemos de fora, todo o desenrolar dessa situação, enquanto as partes vivem o seu dia a dia. Essa é minha grande recomendação para vocês!

O IDIOTA

Autor: Fiódor Dostoiévski

Tradução: José Geraldo Vieira

Editora: Martin Claret

Ano de publicação: 2018

Dostoiévski é considerado o maior escritor russo de seu tempo. É autor de várias obras-primas. O Idiota começou a ser redigido em 14 de setembro 1867 em Genebra, Suiça, e foi concluído a 25 de janeiro de 1868, em Florença, Itália. A obra teve uma elaboração difícil e torturada. Em meio às piores dificuldades, foi escrita e reescrita muitas vezes até a redação definitiva. A obra foi inspirada na figura de Dom Quixote, de Cervantes. O Idiota é, talvez, o romance mais típico de Dostoiévski, provocou perplexidade nos meios intelectuais da época. a obra foi elogiada por Tolstoi, que a achou de grande força dramática e beleza literária.

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