O Morro dos Ventos Uivantes é o primeiro e único livro da escritora inglesa Emily Brontë , publicado no Brasil pela editora Leya em 2009 sob o selo Lua de Papel.

Sobre o livro

Atualmente publicado em uma variedade de edições por selos editoriais distintos, O Morro dos Ventos Uivantes conta a história de Catherine filha de um rico proprietário de terras, o senhor Earnshaw , que um dia tem sua vida cruzada com a do jovem órfão Heathcliff. Os dois se conhecem ainda crianças após o Sr. Earnshaw retornar de uma viagem com um garoto maltrapilho para casa e passar a criar ele como parte da família.

O menino é desprezado por todos os moradores do Morro, com a exceção de Catherine, que vê nele a oportunidade de ser a criança selvagem e arteira que ela sempre foi. Os dois se tornam amigos e criam um amor profundo um pelo outro, mas tudo começa a desandar quando o pai da menina morre e o irmão dela assume a propriedade e passa a maltratar Heathcliff e a controlar Catherine

A mudança final que decide o destino futuro dos dois ocorre quando Catherine toma uma decisão guiada por princípios individuais em detrimento de Heathcliff. Encarando essa escolha como um golpe final de uma série de frustrações e raivas que acumulou por anos, Heathcliff foge do Morro decidido a conseguir vingança.

“O meu amor pelo […] é como a folhagem dos bosques; irá se transformar com o tempo, sei disso, como as árvores se transformam com o inverno. Mas o meu amor por Heathcliff é como as penedias que nos sustentam: podem não ser um deleite para os olhos, mas são imprescindíveis. Nelly, eu sou Heathcliff”

Heathcliff quer vingança e Catherine quer colocar a si mesma acima de tudo. Dois personagens tão emocionalmente cruéis e egoístas são os pilares para a ruína dos moradores da Granja e do Morro, além de serem os principais responsáveis pela própria destruição.

Fica para Nelly Dean, a ex-governanta do Morro, a responsabilidade de contar todos os enlaces dessa história para o atual inquilino da Granja dos Tordos, o Sr. Lokckwood que conhece um Heathcliff adulto e amargurado por um passado que ninguém quer explicar. O leitor acompanha junto do Sr. Lockwood a narração de Nelly sobre o aconteceu para transformar tão profundamente a vida das pessoas daquela propriedade e a curiosidade aumenta a cada página, afinal, o que levou Heathcliff a se tornar tão cruel quanto ele é agora? O que aconteceu com Catherine depois de sua escolha no começo da narrativa? Há realmente algum espaço para o amor em meio há tanto ódio?


Minha Opinião

Emily Brontë era provavelmente a irmã menos conhecida entre Charlotte e Anne até que Virginia Woolf resgatou sua narrativa das cinzas. Virginia reforçou em seus diários o poder poético de Emily em criar personagens tão emocionalmente complexos e ambíguos que forçam o leitor a simpatizar com eles em alguns momentos e desprezá-los em outros. E é isso o que mais aprecio em O Morro dos Ventos Uivantes.

Catherine não é uma protagonista fácil, ela é absolutamente mimada, egoísta e volúvel, dada a surtos de comportamento e que tenta ao máximo controlar todos ao seu redor para que façam as suas vontades. Heathcliff é amargurado, bruto e cruel, há muito apego inicial com sua condição de órfão desprezado pelos outros moradores do Morro, mas fica difícil defende-lo após vê-lo crescer e se tornar cada vez mais assustador para com os outros que o cercam.

“-Ele não é um ser humano – retorquiu – Nem a minha piedade ele merece. Entreguei-lhe o meu coração e ele se apoderou dele, destroçou-o e, depois, o devolveu. As pessoas sentem com o coração, Ellen, e, uma vez que ele destruiu o meu, não posso sentir nada por ele; e não sentiria, nem que ele me suplicasse até a hora da morte ou chorasse lágrimas de sangue pela Catherine! (…) Perguntaste-me o que me levou a fugir desta maneira? Fui obrigada a fazê-lo, porque consegui que a sua raiva ultrapassasse a sua malvadez.”

Por meio da trama sobre amor e vingança, a autora apresenta personagens bons que são drasticamente afetados pela maldade dos dois protagonistas e promove uma reflexão sobre justiça e a influência dos pais sobre os filhos. Tudo isso é feito por meio de uma narração curiosa, uma vez que já iniciamos a história do seu final, com Heathcliff adulto sendo o novo dono da propriedade do Morro e com o Sr.Lockwood alugando a solitária Granja dos Tordos.

Heathcliff é um proprietário rude e mal humorado que destrata seu inquilino, mas que durante a estadia noturna do rapaz, acaba por revelar uma de suas angústias na frente dele. O Sr.Lockwood volta para a Granja após seu contato inicial com Heathcliff e lá, pede a Nelly Dean que o conte a história desse homem tão atormentado e cheio de ódio. Nelly então vira a narradora da história e conta tudo ao novo inquilino por meio de descrições detalhadas sobre cada personagem e cada emoção que compôs essa trajetória tortuosa.

Com isso, temos que O Morro é quase uma história dentro da outra, pois é constante a intromissão de narradores diferentes contando algo ao outro personagem ao mesmo tempo que quem realmente está falando é Nelly, pois ela é a principal narradora. Emily constrói uma intrínseca rede de vozes que ora são meramente descritos por Nelly ora tem suas vozes plenamente assumidas, quase como se Nelly entrasse em suas cabeças e assumisse seus sentimentos. Tudo isso contrastando com a narrativa do momento presente, na qual o Sr. Lockwood está escutando e tecendo comentários sobre a história que lhe é contada.

Essa aparente confusão de narração só reforça o caráter complexo que reflete-se nas atitudes e emoções dos personagens que protagonizam a trama e é uma das composições de narrativa mais legais que já vi sendo construídas. Um ponto negativo dessa mistura de vozes é que em certo momento a descrição do presente fica relegada a pequenas falas do Sr. Lockwood pedindo que Nelly continue a história ou que comente sobre algum personagem que não estava sendo mencionado por ela, e isso passa a impressão de que não há espaço para tratar do Sr.Lockwood que é supostamente o personagem que abre e encerra o livro, porém esse é um aspecto facilmente ignorado a medida que o leitor aprofunda-se nos conflitos entre o Morro e a Granja dos Tordos.

Um outro detalhe importante que contribui para a experiência de leitura ser incrível é todo o espírito gótico que cerca a propriedade do Morro, descrito como sendo um local velho, empoeirado e infeliz, como se a negatividade dos moradores desse um ar igualmente triste e melancólico para o casarão. O Morro é quase um personagem vivo que conta a história por meio dos seus cômodos frios, fechados e assombrados pelo fantasma de um amor fadado ao fracasso.

“Antes de transpor a entrada principal, detive-me a admirar as figuras grotescas que ornamentavam profusamente a fachada, concentradas sobretudo ao redor da porta, sobre a qual, perdidos num emaranhado de grifos e meninos despudorados, consegui entrever uma data – 1500 – e um nome – Hareton Earnshaw.”

Ainda muito nova, Emily Brontë foi desprezada por suas escolhas narrativas que retratavam conflitos de personalidade, discussões sobre um amor nada romântico e por representar personagens que rompiam com a moralidade da época. Foram necessários anos de esquecimento para que sua obra fosse finalmente apontada como um elemento essencial da literatura inglesa e mundial.

É fácil perceber o porquê de essa obra ser tão especial, pois quando a autora cria personagens tão maus quanto machucados, tão egoístas quanto apaixonados, ela cria a essência de personagens tão humanos e reais quanto os próprios leitores. É o exagero das emoções – característica típica das narrativas góticas que trabalham com a intensidade exacerbada de sentimentos –  que permite que O Morro dos Ventos Uivantes dê vida a Catherine e Heathcliff e é impressionante que uma escritora tão jovem tenha criado algo tão vivo e complexo.

Emily aplica toda a sua veia poética em criar narrativas emocionais que provocam o leitor e por meio disso consegue alcançar o ideal narrativo tão exigido por teóricos da antiguidade como Aristóteles e Horácio: a catarse, o livro como experiência da alma, a dor que o personagem sente é imediatamente sentida pelo leitor logo após o golpe que o personagem leva. Talvez seja por isso que, após serem resgatados do esquecimento moral, Catherine e Heathcliff tenham continuado a figurar nas prateleiras de bibliotecas e livrarias por décadas, inspirando outros filmes e até músicas.  

“Não me deixes só, neste abismo onde não te encontro! Oh! Meu Deus! É indescritível a dor que sinto! Como posso viver sem minha vida? Como posso eu viver sem a minha alma?”

É por essas razões que O Morro dos Ventos Uivantes sempre foi uma história especial para mim e que hoje só cresce em quesito admiração. Emily era descrita como reclusa e tímida, o que permitiu que a surpresa em relação ao que ela tinha escrito fosse ainda maior. Admiro ela por sua ousadia, por sua delicadeza em sempre retratar o emocional de seus personagens e por ter insistido em sua história visceral e conflituosa mesmo com as convenções morais da época sendo um obstáculo.

Há muito o que aprender sobre como não amar as pessoas com a narrativa que o livro apresenta e isso significa muito vindo de um período histórico que estava tão obcecado com histórias de amor. Emily merece seu lugar como uma das maiores escritoras de todos os tempos e é uma pena que não tenha vivido tempo o bastante para ver seu livro ganhar o reconhecimento que merecia. Porém, nunca é tarde para que novos leitores conheçam Catherine e Heathcliff e julguem por si mesmos o quanto de amor havia na relação conturbada dos dois.

O MORRO DOS VENTOS UIVANTES

Autor: Emily Bronte

Tradução: Ana Maria Chaves

Editora: Leya

Ano de publicação: 2009

Na fazenda chamada Morro dos Ventos Uivantes nasce uma paixão devastadora entre Heathcliff e Catherine, amigos de infância e cruelmente separados pelo destino. Mas a união do casal é mais forte do que qualquer tormenta: um amor proibido que deixará rastros de ira e vingança. “Meu amor por Heathcliff é como uma rocha eterna. Eu sou Heathcliff”, diz a apaixonada Cathy. O único romance escrito por Emily Brontë e uma das histórias de amor mais surpreendentes de todos os tempos, O Morro dos Ventos Uivantes é um clássico da literatura inglesa e tornou-se o livro favorito de milhares de pessoas, incluindo os belos personagens de Stephenie Meyer.

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