O Primeiro Amor de Uma Camponesa é o primeiro romance de época da série Os Camponeses, da escritora brasileira Geisiana Campos, publicado em 2016 pela Novo Século Editora.

Sobre o Livro

Ana Oliveira é uma camponesa de caráter bastante humilde, que reside numa fazenda no sudoeste goiano junto com seus pais e seus nove irmãos. Ela, por ser a caçula, é a única que pode escapar do trabalho na roça. Sendo a única com mais tempo para brincar pelos arredores, foi brincando por dentro da mata que a garotinha conheceu seu melhor amigo, mas também é onde sofreu o pior trauma da sua vida.

“Vocês acham mesmo que o que uma pessoa se torna quando adulta nada mais é que a repercussão do que vivenciou na infância?”

Após o trauma vivenciado por Ana e pela demasiada agressão que sofreu, ela acabou sofrendo um traumatismo craniano que lhe deixou dois meses em coma, resultando na perda de sua memória recente. A família e amigos resolvem esconder da garota o que havia lhe acontecido, pois concluíram que assim seria melhor para ela, mas independente de não lembrar do que aconteceu no dia em que sofreu o “ataque do lobo”, seu inconsciente lhe deixou vários resquícios traumáticos que começam a lhe perturbar com o passar dos anos.

Devido a esse trauma que lhe aconteceu quando pequena, Ana passou a se sentir incomodada com o seu bloqueio para viver a vida. Para ela, sua vida era uma antes do ”ataque do lobo” e outra depois. Antes ela era uma menina corajosa, não tinha medo de nada; ela era, simplesmente, imbatível. Depois do ataque todas as suas qualidades heroicas foram um pouco freadas e ela começou a se fechar, e isso acabou atrapalhando a interpretação e entrega de e para certos acontecimentos e sentimentos. Mas… será que algum dia Ana será capaz de compreender e superar seu trauma, para assim poder dar uma chance à vida e ao amor?


Minha Opinião

O Primeiro Amor de Uma Camponesa é o primeiro livro da escritora brasileira Geisiana Campos, logo, por óbvio, é meu primeiro contato com a autora. Não lembro ao certo o porquê decidi comprar esse livro, já que eu não sou adepta a ler romances de época, mas algo na sinopse me chamou atenção e eu resolvi arriscar. Devo confessar, que depois da compra esse livro ficou abandonado na minha estante por um tempo, eu sempre o olhava e pensava “deixa pra depois… deixa pra depois…” Até que um belo dia eu o pego na mão, sem compromisso de leitura (estava apenas examinando), abro na primeira página e logo dou de cara com uma baita de uma reflexão ambiental. Leia um trecho:

“O meio ambiente está em constante mudança. Seria bom se isso fosse apenas resultado da evolução. Entretanto, não são causas naturais que provocam essas alterações, e sim o ser humano, que se acha dono do mundo, mas se esquece de que ele é do mundo. O ser humano, que fecha os olhos para não enxergar que o que faz é errado e destrutivo para si mesmo. […] A ignorância leva ao erro, e recusar-se a entender o que está explícito é ainda pior.”

Interessante, né? E ao ler essa reflexão ambiental e depois ler novamente a sinopse do livro eu fiquei realmente pensativa sobre qual seria a conexão daquilo tudo; despretensiosamente, página a página, quando me dei conta, já estava lendo aquele livro – e adorando. Por ser o primeiro livro da autora, ela não faz feio. Sua escrita é bastante simples e isenta daquelas palavras rebuscadas de época. A sua narrativa, apesar de um deslize ou outro e alguns vícios de linguagem, é bastante consistente. É fácil se envolver e compreender a história, que é cheia de personagens.

A personagem de Ana é muito cativante, amiga, alegre, bondosa, otimista, e esses traços de sua personalidade lembram um pouco a personagem super famosa de Eleanor H. Porter: Pollyanna. Exceto um personagem deste livro, que é completamente repugnante, todos os demais têm as mesmas qualidades que Ana, só que bem menos potencializadas. A construção de personagens tão bondosos em nenhum momento se torna forçado, pelo contrário, a medida que cada um particularmente é formado faz com que tenham sua contribuição importante para lidar com a problemática central da história: o trauma da garotinha Ana.

O único “p.s.” que eu faço é em relação ao personagem Alberto Genoom, que pela sinopse original do livro já se pode ver que é ele quem vai balançar o coração da personagem principal. Alberto é o típico príncipe que as mulheres de 2021 já não veem mais graça, mas que a maioria das mulheres lá de 1930 sonhavam em ter ao lado: os bonitões de olhos claros, com a profissão mais nobre, de boa família e que carrega aquele pensamento de que mulheres são frágeis e precisam de bons homens para protegê-las e ama-las. Ana faz uns pequenos, mas bem pequenos mesmo, manifestos feministas em alguns pensamentos e dizeres, e eu fiquei me perguntando se esse lado empoderado não fora melhor explorado devido a ela não achar necessário confrontar ou até mesmo desconstruir esses pensamentos machistas de Alberto só porque ele era ótimo nos demais aspectos. Entretanto, independente disso, não dá pra problematizar a relação apenas por essas reações absurdamente protetoras de Alberto, até porque, de certa forma, a autora foi fiel em descrever um possível galã quase perfeito da década de 30.

“Mulheres como a senhorita são como belas rosas frágeis e devem ser consideravelmente tratadas e protegidas.”

Geisiana também conseguiu construir sua história e ligar determinados acontecimentos, tanto os trágicos, quanto os felizes, com bastante destreza. Uma coisinha ou outra me incomodou; em determinado momento, mais para o final da leitura, eu achei um episódio bastante desnecessário, mal explicado e mal resolvido; algo de cunho extremamente complexo resolvido com muita simplicidade, além de não parecer ter causado efeito minimamente traumático nos personagens envolvidos.

Num contexto geral, é um bom livro com uma história interessante e com mensagens necessárias de reflexão. Recomendo a leitura para quem gosta de interpretar a história para além do que ela tem a dizer com sua premissa inicial. O leitor encontrará presente na obra uma reflexão ambiental bastante importante e em meio à história é possível ver a personagem principal combatendo o racismo. Além disso, no final do livro, após o epílogo, tem a continuação da análise histórica do racismo, que se iniciou em meados do livro com a personagem e se termina com as palavras da autora.

O Primeiro Amor de Uma Camponesa, embora seja um romance de época, não tem seu foco principal no romance em si, que acaba sendo bastante secundário, mas, sim, em toda a trajetória de descoberta de Ana sobre o que aconteceu em seu passado e a partir daí tentar superar o que lhe aconteceu e reaprender a viver a vida como de fato é pra ser vivida: intensamente e sem fantasmas do passado.

O PRIMEIRO AMOR DE UMA CAMPONESA

Autor: Geisiana Campos

Editora: Novo Século Editora

Ano de publicação: 2016

No sudoeste goiano vive a senhorita Ana Oliveira, uma camponesa marcada por um trauma: um ataque que sofreu anos atrás. Aos vinte anos de idade, ela está solteira e sem segurança alguma para ter um homem ao seu lado. Entretanto, Ana não imagina que um convite para passar uma temporada no sul do país também implica passar várias semanas na companhia do homem mais tentador que já conheceu. Logo, ela se vÊ em um conflito de sentimentos. Ele, no entanto, parece determinado a não deixá-la escapar. Em meio a tudo isso, há um mistério por trás do ataque que a camponesa sofreu.

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