Lançado em 2017, O Urso e o Rouxinol é o primeiro livro da Trilogia Winternight, escrito por Katherine Arden e pulicado no Brasil pela editora Fábrica231.

Sobre o Livro

Imersa no folclore eslavo, O Urso e Rouxinol apresenta a história de Vasilisa Petrovna, ou Vasya, a filha mais nova de uma tradicional família da Rússia agrária medieval. Órfã de mãe, Vasya cresceu ouvindo os contos de fadas populares da sua cultura; histórias repletas de seres sobrenaturais atrelados a natureza, controladores de fogo, água, animais, dos ventos e da vida e morte; essas criaturas são invisíveis aos olhos das pessoas da vila de Vasya, mas estão fortemente presentes na dinâmica de sincretismo popular da vida social. Mistura de dúvida e respeito, os moradores da vila frequentam as igrejas ao mesmo tempo que deixam oferendas para esses seres e é em meio a essa mistura de crenças que Vasya cresce e também é nelas que ela encontra sua misteriosa habilidade de ver e entender esses seres.

Não, Vasya sentia medo era de sua própria gente. Eles já não brincavam a caminho da igreja, escutavam o padre Konstantin num silêncio pesado e faminto.

Contudo, a situação muda quando o pai de Vasya casa de novo com Anna Ivanovna, filha do príncipe Ivan II, e que, assim como Vasya, sempre foi capaz de ver os seres folclóricos desde criança; mas o fanatismo religioso a impediu de vê-los com naturalidade, como Vasya sempre viu. Anna chega na vida da família de Vasya e faz com que as histórias e as oferendas tenham de ser feitas em segredo. Vasya, para não perturbar ainda mais a madrasta, passa a interagir com a floresta de forma cada vez mais sigilosa e cresce aturando o desprezo que Anna desconta em cima dela. Acreditando que pode levar essa situação adiante, Vasya é pega de surpresa quando um padre chega na cidade com a missão de salvar aquela população dita como “pagã”.

Impondo medo e temor nas pessoas, a chegada do padre torna Anna ainda mais rígida, insere o medo do folclore popular dentro da família de Vasya e as pessoas da vila passam a não mais deixar oferendas para os seres da floresta. Secas, devastação de plantações, frios absurdos que matam pessoas congeladas e a fuga em massa de animais começam a assolar a vila e ocasionar uma catástrofe coletiva. Os seres da floresta estão irritados e uma rixa entre os dois irmãos do inverno ameaça a vida da vila de Vasya. Sozinha, a menina terá de escolher se segue as ordens de sua família e aceita o silenciamento das crenças populares com as quais ela tanto conviveu em vida ou se arrisca tudo, até sua reputação, para lutar contra o fanatismo que está apavorando seus amigos e família e espantando o equilíbrio de crenças que sempre foi tão harmonioso dentro da vida de seu povo.


Minha Opinião

Misterioso e singular, O Urso e o Rouxinol conquista rapidamente pela novidade de sua mitologia ficcional ao misturar as temáticas do folclore eslavo com problemáticas acerca da religiosidade e do sincretismo religioso. Essa temática não apenas modela o pano de fundo da obra como também alia-se com a construção da própria protagonista; Vasya, construída inicialmente como a típica heroína escolhida para um aparente destino grandioso, torna-se uma personagem real aos olhos do leitor quando demonstra sua vulnerabilidade, preocupação e genuíno amor pela cultura popular com a qual cresceu e tenta aliar os dois universos sem desprezar nenhum dos lados. Discutindo muito fortemente a questão da fé, os limites do fanatismo religioso e os diferentes caminhos entre crenças que formam todos os seres humanos; Vasya e os personagens ao seu redor conquistam pela singularidade e pela honestidade com que abordam e crescem em cima dessa temática.

Com uma trama lenta, O Urso e o Rouxinol se constrói nas sutilezas das ações em pequena escala de seus personagens. Vasya, apesar de ser em certa medida um arquétipo da escolhida, ainda é uma personagem criada sob os moldes medievais de sua sociedade. Vista sob os olhos patriarcais da família e da vila, é devagar que ela se desenrola dos rótulos e das atribuições que lhe são impostas, constituindo assim um processo muito verdadeiro justamente por não ser simples. Vasya ama a família, não queria decepciona-los ou ir contra eles, suas atitudes são incialmente dispostas em escalas menores de ação até que com o crescimento da trama se tornam maiores, em paralelo evolutivo com a personagem. O amor dela pela família e seu desejo de ter uma possibilidade diferente de vida se contrastam em sua formação e é essa dinâmica lenta, mas genuína, que torna a protagonista tão especial ao leitor.

O Senhor quer que a minha gente o ame, então faz com que tenham medo

A própria Anna, mesmo que presente em menor escala na obra e colocada na posição de antagonista por seu fanatismo religioso e seu desprezo por Vasya, é também uma personagem complexa. Não gloriosa como Vasya, mas real em seu medo e no que a tornou tão hesitante em ser flexível, Anna retrata o que o medo pode causar em uma pessoa que viveu tanto tempo enjaulada e julgada pelos demais. Ao lado dela, o Padre Konstantin é outro do núcleo religioso da história que apresenta a dualidade entre intenção e execução: a missão dele na vila de Vasya era repleta de boas intenções, mas sua incapacidade de respeitar a diversidade de crenças coloca em risco não apenas a vida dos moradores, como a sua própria.

A presença dos irmãos de Vasya, principalmente Alyosha, é outra das dinâmicas mais sutis e fofas da obra. Observando a irmã como necessitada de proteção, o amor entre eles é transmitido na tentativa de se entender mesmo não apoiando alguma decisão um do outro. Em contraste com essa busca, o amor do irmão se polariza com o do pai de Vasya, que quer acima de tudo protege-la, mas que para isso talvez não a escute de fato, colocando os medos acima da compreensão. É esse inclusive um dos aspectos mais legais do livro: sem precisar ser preto no branco, o livro apresenta as relatividades de uma dinâmica familiar na qual nem todos sempre acertam nas decisões que tomam em prol do próximo, mas que estão tentando fazer o melhor que podem.

E, claro, o trunfo da discussão acerca do sincretismo religioso tão intrínseco a formação humana é um dos aspectos que mais potencializam reflexões. Discutindo fé de forma precisa, tratando das relações da fé com a política e com as disputas por espaço de influência; a obra traz as múltiplas formações culturais de onde sociedades inteiras são feitas e permite um espelhamento situacional com a nossa formação até mesmo aqui no Brasil. O folclore eslavo não é muito diferente das crendices populares que aprendemos com nossos avôs e avós e tanto quanto os personagens da obra, aqui também misturamos religião e crenças tradicionais na mesma medida, mesmo sem perceber.

De um modo geral, O Urso e o Rouxinol introduz uma dinâmica mitológica muito original com temáticas especialmente delicadas, mas que são abordadas de forma primorosa pela autora. Além disso, o livro traz uma excelente protagonista e encerra a trama de forma redonda, mas ainda alimentando aquele hype singelo para a continuação da trilogia. Sútil, singular e que cresce de pouquinho em pouquinho conforme as páginas passam, “O Urso e o Rouxinol” é uma ótima indicação para quem quer conhecer fantasias com dinâmicas diferentes e que tragam personagens complexos, encantadores e que estabelecem fortes conexões com as nossas próprias histórias.

O URSO E O ROUXINOL

Autor: Katherine Arden

Tradução: Elisa Nazarian

Editora: Fábrica231

Ano de publicação: 2017

No limite das terras selvagens russas, o inverno se estende por grande parte do ano e as camadas de neve são mais altas do que as casas. Mas Vasilisa não se importa ― ela passa as noites frias aconchegada com seus queridos irmãos, enquanto são aquecidos pelos contos de fadas narrados por sua velha ama. De todas as histórias, sua favorita é sobre Gelo, o demônio do inverno de olhos azuis, que surge na noite congelante e vai atrás de almas desavisadas. Os sábios russos o temem, diz Dunya, e honram os espíritos domésticos e da floresta que protegem seus lares do mal. Após a morte da mãe de Vasilisa, seu pai vai a Moscou e retorna com uma nova esposa. Extremamente devota, criada na cidade, a nova madrasta de Vasilisa proíbe toda a família de honrar os espíritos. Todos obedecem, mas Vasilisa se apavora com a sensação de que tais rituais são muito mais importantes do que imaginam. E, de fato, logo as colheitas se tornam escassas, criaturas malignas da floresta se aproximam e infortúnios perseguem a aldeia. Ao mesmo tempo, a madrasta de Vasilisa torna-se ainda mais rígida e determinada a preparar a jovem rebelde para o casamento ou ao confinamento em um convento. Com o perigo cada vez mais próximo, Vasilisa precisa enfrentar até aqueles que ama e invocar dons perigosos que por muito tempo escondeu ― tudo para proteger sua família de uma ameaça que parece ter saltado diretamente dos contos mais assustadores de sua ama.

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