Kleber Mendonça Filho arrebatou as críticas com seu longa de 2019, Bacurau. Sua participação no Festival de Cannes em 2023, entretanto, foi por uma linha totalmente diferente, com o documentário um tanto experimental Retratos Fantasmas. O diretor, também roteirista e voz narrativa do documentário, combina forças com a produção de Emilie Lesclaux, a montagem de Matheus Farias e a fotografia de Maira Iabrudi e Marcelo Lordello.

Aqui o expectador vai encontrar uma proposta narrativa bastante intimista. Todo o documentário é composto por uma sequência de imagens históricas e atuais de Recife, combinando arquivo pessoal do diretor com outras fontes, e um voice over do próprio Kleber Mendonça Filho narrando sua experiência com o cinema na capital pernambucana, enquanto arte, instituição e local físico. A sinopse oficial diz que o tema central são as mudanças urbanas de Recife e a história dos seus cinemas de rua, o que não é mentira de forma alguma. O assunto foi o que me atraiu inicialmente, e saí mais do que satisfeita. No entanto, é sobre muito mais do que isso.

A primeira parte do longa é totalmente focada na vida e carreira de Mendonça Filho, o que me surpeendeu bastante. Não deixa de ser muito interessante, mas tenho certeza de que alguém mais fã e/ou conhecedor do trabalho dele aproveitaria bem mais. Isso porque o público é guiado pela história do apartamento da família em Recife, onde, aprendemos, a maior parte de seus filmes foi gravada. Perfeito para quem gosta de bastidores e, lógico, de uma boa anedota, essa porção do documentário é também uma homenagem à mãe do diretor, Joselice, de forma delicada e até emocionante. Ao longo desse ato também são inseridas cenas dos filmes, despertando imediamente a curiosidade de assistir a toda a filmografia de Mendonça Filho.

Pode parecer que estou falando de metodologia, mas estou falando de amor.

Já nesse primeiro momento a forma de storytelling me conquistou totalmente. É a sensação perfeita de que Kleber é um amigo seu, não Kleber Mendonça Filho, O Diretor. Ele é seu amigo, vocês estão tomando uma cerveja numa calçada de bar e olhando álbuns de foto antigos. Não sou grande fã de podcasts, mas tenho certeza de que quem já tem o hábito de acompanhar esse formato não pode deixar de conferir Retratos Fantasmas.

Avançando para o segundo ato, encontramos a sinopse. Em uma carta de amor à sétima arte tanto quanto a Recife, nosso narrador conta sua história crescendo nos cinemas de rua, sua paixão precoce que mescla o olhar de uma criança, de um estudante e de um grande nome do cinema. É profundamente interessante como, ao falar desses cinemas de rua, Mendonça Filho fala sobre a vida: a política, a relação da sociedade com o espaço urbano e o entretenimento, projetos públicos, modo de vida.

É também aqui que assistimos à decadência do centro da capital de Pernambuco. Em um arco tristemente familiar a todos que vivem em centros urbanos, dinheiro atrai dinheiro, e, quando ele deixa uma região, só nos resta comparar a grandiosidade dos tempos passados à precariedade gritante, à falta de vivacidade e à ausência do poder público. Sem sombra de dúvida, entre as críticas sociais e histórias do passado, esse terço do filme foi o que mais me encantou. Isso muito devido também à inserção da única outra voz ativa do documentário, Seu Alexandre, antigo operador de projetor em um dos cinemas da cidade, minha parte favorita de todo o documentário.

O centro de uma cidade pode lembrar muitas outras cidades.

Por fim, o arremate final da produção vem com um terceiro ato mais exotérico, por assim dizer, com mais reflexões. A mudança de tom é bastante perceptível, e não me agradou totalmente, mesmo que cumpra seu papel. Ainda não me decidi se fiquei satisfeita com o diálogo final, mas me pego pensando nele de vez em quando, o que talvez seja um sinal de que a cena atingiu o que pretendia.

Com edição de som e imagem hipnotizantes e um roteiro que te mantém preso mesmo com a proposta pouco usual, Retratos Fantasmas com toda a certeza vai te deixar com vontade de ir ao cinema (e planejar uma viagem para Recife). Assistir a esse documentário é uma experiência fantástica para se ter sozinho, totalmente imerso na voz de Kleber Mendonça Filho e nas lindas imagens dos anos 60 e 70.

RETRATOS FANTASMAS

Diretor: Kleber Mendonça Filho

Elenco: Kleber Mendonça Filho

Ano de lançamento: 2023

Retratos Fantasmas é um documentário brasileiro dirigido por Kleber Mendonça Filho e ambientado no centro do Recife, durante o século XX. Ao longo de 1 hora e 33 minutos e reunindo imagens de arquivo, fotografias e registros em movimento, o filme busca explorar a história do centro da cidade, contada a partir das salas de cinema que movimentavam a população e ditavam comportamentos. Tendo levado 7 anos para a sua conclusão, o documentário marca o retorno de Kleber ao Festival de Cannes – após vencer o Prêmio do Júri, em 2019, com Bacurau. Tratando do desenvolvimento urbano acelerado, o filme segue o ponto de vista da janela da casa do diretor, onde morou por vários anos.

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