“Miss Americana” é um novo documentário original Netflix lançado em janeiro de 2020, exibido pela primeira vez no Festival Sundance e liberado na plataforma no dia 31. Com direção de Lana Wilson – vencedora do EMMY 2013 de Melhor Documentário por After Tiller -, o longa acompanha a trajetória pessoal e artística da cantora norte-americana Taylor Swift, abrindo elementos da sua vida pessoal para o público e passando por temáticas como distúrbios alimentares, conquista de voz política e os efeitos que a perseguição midiática produz em um grande artista feminina.

É improvável que você que está lendo esse texto agora não conheça o nome de Taylor Swift ou, pelo menos, não conheça alguma de suas músicas mesmo sem associa-las com a figura dela. Dona de grandes singles e clipes com milhões de visualizações no youtube, Taylor era até o ano de 2018 a vencedora mais nova a ganhar um Álbum do Ano no Grammy e dona das maiores vendas de álbuns físicos dentro dos Estados Unidos.

Hits como “You belong with me”, “Shake It Off”, “Blank Space”, “Bad Blood” e o recente “You Need to calm down” fizeram sua fama, mas Taylor também é conhecida por questões que iam para além de suas composições: polêmicas envolvendo o rapper Kanye West e a empresária Kim Kardashian, sua briga (e reconciliação) com Katy Perry, a fama de ter muitos namorados e usa-los para escrever músicas sobre ex, sua neutralidade política.

O auge de sua presença na mídia foi quando uma hastag na internet motivada por uma (ou várias) dessas rixas colocou o mundo inteiro contra ela num dos maiores exemplos da “cultura do cancelamento” que o Twitter já teve. Chamada de cobra, falsa e mentirosa, Taylor sumiu das redes sociais e não foi mais vista nas mídias. Como a própria diz no trailer do documentário: “ninguém me viu em carne e osso por um ano, eu achava que era isso que queriam”.

Em parte, esperava-se que era sobre esse período de sua vida que o documentário “Miss Americana” iria falar. Mas há muito mais em Taylor Swift do que polêmicas e é essa uma das maiores mensagens de Miss Americana: há sempre alguém por trás de um icon do twitter ou uma foto no tapete vermelho.

“Miss Americana” tem por objetivo apresentar a Taylor que está por trás das letras sensíveis que ela compôs desde criança e que continua compondo até hoje. A Taylor que é apaixonada por gatos, que chora quando sente que não entregou seu melhor e que cresceu ouvindo que deveria ser uma boa garota. É sobre essa Taylor, frágil, vulnerável e ainda tentando se tornar boa – dessa vez por si mesma e não pelos outros – que Miss Americana vai falar e é impossível não dizer que o documentário fez isso bem.

Lana Wilson conseguiu capturar, reunir e montar momentos cruciais que apresentem não apenas aos fãs – que, em parte, já deveriam conhecer ao menos um pouco desse lado fora dos holofotes – mas também aos que desconheciam sua história – e até mesmo aqueles que a odiavam – o que existe para além de palcos, tabloides e hastags de linchamento virtual.

O documentário obtém sucesso em seu estilo de narração, indo em uma ordem cronológica de idades da cantora até chegar aos seus atuais 30 anos, mesclando isso com a narração de Taylor, reportagens, imagens de shows, bastidores e vídeos caseiros feito pela cantora ou sua família.

Ao decidir abrir espaço da sua vida pessoal para a diretora, Taylor fala muito sobre seu conceito pessoal de metas e objetivos. Já no trailer do documentário ela fala sobre como tentou ser boa a vida inteira, como trabalhou desde criança para receber “tapinhas nas costas” e como isso desmoronou quando ela ouviu vaias em massa pela primeira vez na vida.

Boa parte do documentário é dedicado a mostrar a luta pessoal de Taylor para reencontrar seu objetivo pessoal depois de ver que “ser boa” ainda não tinha sido o suficiente e em uma das falas mais marcantes do documentário ela coloca isso de forma bastante explicita ao dizer que “Quando as pessoas deixam de te amar, não há nada que você possa fazer”.

É uma Taylor solitária e que já não se conhece mais que é apresentada pela visão de Lana Wilson. Essa Taylor compõe o álbum “Reputation” e nele escreve sobre raiva, sobre segurança e sobre amor. É em Reputation que vemos aos poucos um novo objetivo surgir na cantora, que dessa vez decide que não quer mais depender dos aplausos dos outros. Não quer viver mais por “tapinhas nas costas”.

É poderoso o momento em que ela decide isso, em que expõe suas fragilidades emocionais e mostra como é difícil superar algo que já foi há tanto tempo colocado em sua mente. Mas é importante que ela faça isso, pois seu público talvez precise ouvir e é para eles que ela está falando.

Há também um bom tempo do documentário dedicado a descoberta da cantora de sua voz política. Após passar por um caso em que foi vítima de assedio e ir ao tribunal por 1 dólar simbólico para tentar provar que o assediador estava errado, Taylor relata o qual catártico foi o momento em que percebeu que precisava agir para que mais nenhuma mulher passasse pelo mesmo que ela.

Ao reconhecer sua posição de privilegio como uma pessoa famosa e rica, que teve condições de enfrentar um julgamento na corte para provar que estava falando a verdade, Taylor relata como foi perceber que não podia permitir mais omissões no quadro político de seu estado e que precisava se mover para deixar claro sua posição política contra candidatos que atentavam contra a segurança das mulheres.

Mesmo sem alcançar o objetivo que queria, Taylor conseguiu levar vários jovens estadunidenses a se registrarem para votar e sentiu junto deles a decepção de se tentar e ainda assim não conseguir mesmo dando tudo de si por algo que acredita. É esse espirito de decepção política e ao mesmo tempo esperança de que “os jovens podem correr” que conduz a cantora a compor a faixa especial de “Miss Americana”, intitulada “Onyl the Young”, que conversa diretamente com o momento político dos EUA e passa uma mensagem de esperança numa juventude que ainda pode fazer diferente na próxima vez.

De maneira geral, “Miss Americana” é sobre quem uma pessoa é quando ninguém está olhando, ou melhor: quem uma pessoa é se as pessoas olharem de verdade e não apenas visualizarem um nome, uma foto ou um @. Trata a respeito de você valorizar as pessoas que estão com você, que te escutam e que não te abandonam. É também um pouco sobre repensar as decisões morais que você estipulou para si, admitir erros e refazer suas metas de vida para que elas não dependam da aprovação de terceiros.

E claro: é sobre composições de músicas em estúdios, gatos – porque Taylor realmente adora eles – e mostra como escrever a respeito do que se sente é a melhor forma de conseguir compreender o que aquela situação está te dizendo. É sobre tudo isso aliado com a trilha sonora da carreira de Taylor, com cenas de bastidores de eventos que são bem interessantes de ver por outro ângulo e com uma direção organizada e delicada que proporciona as ferramentas certas para que o espectador conheça o modo como a Taylor vê a si mesma – isso incluí suas qualidades e seus defeitos.

Se você gosta da Taylor Swift, se não gosta da Taylor Swift, se nem sabe quem ela é ou se simplesmente quer ver um filme que fale sobre a indústria midiática, a composição de uma música e o que pode significar ser verdadeiro consigo si mesmo: Miss Americana é o documentário perfeito para você. 

TAYLOR SWIFT: MISS AMERICANA

Diretor: Lana Wilson

Elenco: Taylor Swift, Andrea Swift, Tree Paine

Ano de lançamento: 2020

Neste documentário revelador, Taylor Swift assume seu papel de compositora e cantora e de uma mulher que sabe usar todo o poder da sua voz.

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