Um Teto Todo Seu é um ensaio escrito por Virginia Woolf. O livro foi publicado em 2014, pela Tordesilhas.

Sobre o livro

A autora foi convidada para palestrar nas faculdades de Newham e Girton, instituições exclusivas para moças, sobre “As Mulheres e a Ficção”. Ela se debruçou sobre o tema do qual foi produzido dois longos textos que, posteriormente, foram reduzidos para a palestra.

Virgínia cria um alter ego chamado Mary, que poderia ser qualquer mulher, que deseja se dedicar a um ofício, mas não consegue exercê-lo em sua plenitude, por causa da opressão da sociedade machista.

“Tudo o que poderia fazer seria oferecer-lhes uma opinião acerca de um aspecto insignificante: a mulher precisa ter dinheiro e um teto todo seu se pretende mesmo escrever ficção.”

A autora faz uma análise sobre a condição da mulher, aponta as críticas mordazes e machistas feitas pelos homens sobre as obras literárias e o trabalho intelectual feito por mulheres em áreas acadêmicas.

A autora, então, desenvolve uma tese para explicar a diferença nas obras escritas por mulheres e homens. Segundo Virgínia, o meio influencia a produção e a qualidade do trabalho, pois diferente dos homens, as mulheres não eram incentivadas a se instruírem bem como não era oportunizado meios para desenvolverem suas habilidades. Para melhor ilustrar, cria uma personagem dotada de talento que, por ser mulher, acaba não conseguindo oportunidades para mostrar seu trabalho e ascender.


Minha opinião

Foi minha segunda tentativa com Um Teto Todo Seu. A primeira vez, não foi bem-sucedida, pois não tinha maturidade para entender a escrita da autora. Hoje, um pouco mais velha e com mais experiência de vida, pude entender não só o texto, mas a indignação, revolta e frustração que transborda do livro.

A autora traz um panorama sobre a sociedade e das dificuldades enfrentadas por mulheres que desejavam escrever. Mulheres que dependiam financeiramente dos maridos ou das famílias, que sequer tinham direito ao próprio tempo e a um espaço para desenvolver suas habilidades ou trabalhos livre das interrupções da família, visitas e problemas domésticos, tomando como exemplo Jane Austen.

A autora aborda também a discriminação sofrida naquela época. As autoras eram duramente criticadas e inferiorizadas, apenas, por serem mulheres. Alguns homens ainda alegavam que as mulheres não possuíam capacidade intelectual suficiente para o exercício da escrita. Era comum que mulheres publicassem livros usando pseudônimos masculinos.

“Como conseguiu fazer tudo isso (…) é surpreendente, pois ela não tinha estúdio próprio para onde pudesse ir, e a maior parte do trabalho deve ter sido feita na sala de estar comum, sujeita a todo tipo de interrupções corriqueiras. Ela tomava cuidado pra que os criados ou visitantes ou quaisquer pessoas fora da família não suspeitassem de sua ocupação.”

A verdade é que não foi oportunizado às mulheres a educação, na mesma medida que fora para os homens e, tampouco, a autonomia financeira. Isso fica muito claro, quando Mary compara a faculdade em que os rapazes estudam e a das moças. Enquanto uma é próspera, a outra necessita economizar até nas refeições das professoras e suas pupilas. Isso pois, as faculdades da época costumavam se manter também por meio de doações e, obviamente, os homens possuíam mais poder aquisitivo que as mulheres. Sendo assim, qualquer dificuldade existente teria relação com a instrução recebida e não por alguma incapacidade.

Acredito que, durante o isolamento social, ficou ainda mais evidente a desigualdade no tratamento entre homens e mulheres, no ambiente de trabalho. Quando uma criança invade a live ou videoconferência do pai, isso é visto pelos demais como algo engraçado e fofo. Todavia, se isso acontece com a mãe, ela é acusada de falta de profissionalismo.

Recentemente, a contadora Dris Wallace foi assediada e discriminada pelo chefe. Ele reclamava dos barulhos dos filhos da contadora ou se os ouvissem conversando, mesmo que distante, exigindo um silêncio completo durante as reuniões (algo impossível e até cruel para se impor à duas crianças de um e quatro anos!); ele também marcava videoconferências e telefonemas no horário de almoço, interferindo na rotina das crianças. Apesar de, desdobrar-se em mil, Dris foi demitida (leia aqui). Isso só demonstra que, a mulher ainda se encontra em posição de vulnerabilidade no mercado de trabalho, mesmo depois de quase um século da publicação de Um Teto Todo Seu.

“Se apenas a sra. Seton e sua mãe tivessem aprendido a grande arte de ganhar dinheiro e tivessem deixado seu dinheiro, como fizeram seus pais e seus avós antes deles, para instituir fellowships e docências e prêmios e bolsas de estudo apropriadas para uso dos membros do mesmo sexo, poderíamos ter jantado aqui em cima, sozinhas e bem razoavelmente, uma ave e uma garrafa de vinho; (…), Erguer paredes nuas da terra nua foi o máximo que elas conseguiram fazer.”

Consumi a história por audiolivro e, posteriormente, em ebook. Achei que a maior parte do texto fluiu muito bem, mas algumas partes foram cansativas, pois a autora muda drasticamente o curso da narrativa para falar sobre outra coisa que chamou sua atenção ou para praticar alguma ação, para depois retomar a ideia que era desenvolvida. Todavia, acredito que, com tempo e a leitura de suas obras, ficarei mais familiarizada com sua escrita.

Gostei muito da tradução, princialmente, de não terem adequado em excesso o texto para uma linguagem mais atual. Acho que uma das belezas na leitura dos clássicos é conhecer mais daquela época, não só pela exposição daquela sociedade, mas também pela linguagem própria da época e ampliar o vocabulário.

Apesar dos avanços conquistados, ainda somos preteridas no ambiente de trabalho, ameaçadas pelos nossos companheiros e objetificadas por uma sociedade machista. É necessário demonstrarmos a nossa insatisfação, cobrar posturas diferentes e ter sororidade para tornar o mundo o mais igualitário possível em relação a questão de gênero.

Virgínia já virou uma queridinha! Não se assuste com a reputação dela. Leia, todavia, caso não se sinta preparado, uma dica interessante é ouvir o audiolivro. Com certeza, parecerá menos desafiador. Se possível, ouça e acompanhe pelo livro.

UM TETO TODO SEU

Autor: Virginia Woolf

Tradução: Bia Nunes de Sousa

Editora: Tordesilhas

Ano de publicação: 2014

Baseado em palestras proferidas por Virginia Woolf nas faculdades de Newham e Girton em 1928, o ensaio Um teto todo seu é uma reflexão acerca das condições sociais da mulher e a sua influência na produção literária feminina. A escritora pontua em que medida a posição que a mulher ocupa na sociedade acarreta dificuldades para a expressão livre de seu pensamento, para que essa expressão seja transformada em uma escrita sem sujeição e, finalmente, para que essa escrita seja recebida com consideração, em vez da indiferença comumente reservada à escrita feminina na época. Esta edição traz, além do ensaio, uma seleção de trechos dos diários de Virginia, uma cronologia da vida e da obra da autora e um posfácio escrito pela crítica literária e colaboradora da Folha de S. Paulo Noemi Jaffe.

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