Velhice Transviada é um lançamento de 2019 pela Objetiva, selo do grupo editorial Companhia das Letras. É um livro de memórias do autor brasileiro João W. Nery, o último livro finalizado antes de seu falecimento, em 2018.

SOBRE O LIVRO

Em um dos países que mais mata sua população trans, ou invisível ou vítima de perseguição e de ataques de ódio por boa parte da população, pouco falamos sobre como é a velhice dessas pessoas.

“Uma certeza eu tinha, não iria me sepultar vivo entre quatro paredes, nem no hospital, nem na minha casa”.

O primeiro homem trans do país, operado ainda em plena Ditadura Militar, João W. Nery toma para si essa missão e irá nos conduzir por reflexões e relatos que buscam explorar esse tema: que tipo de terceira idade estamos, afinal, dando aos nossos cidadãos trans?


MINHA OPINIÃO

João Nery construiu seu livro em dois momentos principais: primeiramente, mostrando sua relação com a velhice e, em especial, com um câncer que acabou por tomar a sua vida; em um segundo momento, reproduzindo conversas com outros homens e mulheres trans em que discute a relação de cada um com esse momento de suas vidas e com tudo o que viveram, de bom e de ruim.

Senti que é uma escolha que funciona a favor do texto, pois nos dá tanto a perspectiva de quem fala, em primeira pessoa, da convivência com uma doença extremamente agressiva quanto constrói um panorama mais amplo das questões que a população trans tem quanto a sua chegada a terceira idade.

Essa forma de organização, porém, acaba subaproveitada, no sentido em que terminamos a leitura sentindo que esses dois momentos são demasiadamente desconectados. Assim, acabamos sentindo que é uma boa ideia, porém que poderia ter sido desenvolvida ou com mais profundidade, se seguisse apenas um dos caminhos, ou com mais coerência, se elas fossem melhor conectadas.

“O futuro de uma travesti é hoje. Amanhã não se sabe e nem se quer pensar”.

Se tem um aspecto, entretanto, em que o livro é certeiro é em nos mostrar o quão distante a velhice parece estar da maior parte da população trans. Com o alto indíce de ataques, assassinados e suicídios que essas pessoas sofrem, é raro que eles tenham a mesma perspectiva de uma velhice tranquila que pessoas cis.

Fazer o leitor refletir sobre isso, especialmente aqueles entre nós que ainda não vemos a passada pelos 60 anos como um privilégio, é de fato o grande trunfo do livro. Mesmo com suas falhas, nesse âmbito ele cumpre muito bem o seu papel, e mostra, mais uma vez, o quanto João Nery ainda temos a aprender e crescer a partir da experiência do outro.

 

VELHICE TRANSVIADA

Autor: João w. Nery

Editora: Objetiva

Ano de publicação: 2019

Primeiro transgênero masculino brasileiro, João W. Nery percebeu como era difícil envelhecer como trans no Brasil: quem sobrevive apresenta um longo histórico de traumas e tem muitos desafios pela frente. As reflexões e memórias sobre o que chamou “velhice transviada” são seu último trabalho, finalizado pouco antes de falecer, em 2018. Leitura imprescindível. Falar de velhice é difícil, sobretudo quando ela é transviada. O psicólogo, escritor e ativista dos direitos humanos João W. Nery constatou que, no Brasil, essa população ― constantemente vítima fatal do ódio ou do descaso ― não tem direito à longevidade. Por isso, decidiu escrever sobre os “transvelhos”, termo que criou para se referir aos transexuais e travestis que conseguiram ultrapassar a marca dos 50 anos. João sempre foi um pioneiro. Em plena ditadura militar, foi o primeiro transgênero masculino brasileiro a passar por cirurgia de redesignação sexual, aos 27 anos. Obrigado a tirar uma nova documentação para conseguir trabalhar, teve que inventar um expediente: alegou ter dezoito anos e querer servir às Forças Armadas. Deu certo. Renasceu como João, mas perdeu seus registros anteriores, incluindo os diplomas de psicólogo e professor. Com o tempo, se tornou uma referência nos debates públicos e acadêmicos sobre gênero e sexualidade, participando ativamente de uma onda que, pouco a pouco, começava a quebrar preconceitos até então muito arraigados em nossa sociedade. Neste livro, que traz prefácio de Jean Wyllys, João relata o que passou para chegar a ser um transvelho. Também dá voz, por meio de entrevistas, a outros transidosos, na segunda parte destas memórias.

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