Vincent – A História de Vincent van Gogh é uma história em quadrinhos que mostra a fase mais revolucionária e também turbulenta de Van Gogh, nos traços singelos e coloridos da artista gráfica Barbara Stok. Esta HQ foi publicada em 2014, pela editora L&PM Editores.

Sobre o Livro

Vincent foi um homem difícil de lidar, muitas vezes reagia de forma alterada quando alguém lhe fazia alguma crítica ou questionava seu modo de levar a vida, tanto pessoal quanto profissional. Em sua mente orbitavam ideias geniais a todo momento e por não saber administra-las de forma saudável, acabava lidando com o trabalho de forma abusiva, não parando de trabalhar por um segundo.

Parte de ele lidar com o trabalho de forma tão desgastante, era para conseguir retribuir seu irmão, Theo, que o sustentava. Mais produção, mais chances de reconhecerem sua arte e começarem a comprar suas obras, assim teria como devolver ao irmão toda a sua gratidão e ficaria conhecido por seu talento. A estadia de Vincent no sul da França, com todas aquelas paisagens campestres e cheias de vida em espaços abertos de pura natureza, lhe forneceram a matéria-prima da sua arte, qual mais tarde fora considerada a fase mais rica e revolucionária de seu trabalho.

“Depois que um pintor morre paga-se muito dinheiro por suas obras, mas quase ninguém se interessa pelos artistas vivos!”

Aquela nova vida, em um lugar tão rico para a sua criatividade, não lhe encheu apenas de contentamento. Esse mesmo motivo que lhe causava tanta felicidade e satisfação, também lhe causava angustia e agravavam seus desequilíbrios mentais. Como todo gênio, tinha ideias fabulosas, as externalizava de forma magistral em suas telas, mas só fora lhe dado o devido valor após sua morte, e cá neste livro vemos o retrato de seus últimos anos, turbulentos mas muito, muito ricos, que são essenciais tal conhecimento para que se entenda quem foi Van Gogh.


Minha Opinião

Quem não conhece Van Gogh? Quem nunca ouviu esse nome pelo menos uma vez na vida? Podem não saber muito ou absolutamente nada sobre ele, mas seu nome já lhe apareceu em algum momento. Eu, por exemplo, sempre fui uma admiradora das obras desse artista, mas o pouco que sabia sobre ele, é que era um cara que sofreu trancos e barrancos em vida, pintou quadros fenomenais mas só fora reconhecido após sua morte. Hoje ele é idolatrado ao redor de todo o mundo, suas obras são estudadas, existe museu em sua homenagem. Por isso que, quando num café avistei esse livro numa prateleira em minha direção, interrompi o gole e fui até ele. Me apaixonei pela edição, pelos traços, pela forma como previ que a história seria contada e fiz uma coisa que nunca faço: decidir levar um livro pra casa independente do preço que fosse. Spoiler: valeu a pena!

Barbara Stok, artista gráfica que concebeu esse incrível livro que nos traz a história, ou melhor, parte de um momento da história de Vicent, qual fora a mais incrível e, ao mesmo tempo, difícil, de forma pura e singela, retratada de forma unica por seus traços, que em 2009 já lhe concederam o Prêmio Holandês de Melhor Autor de HQ, pelo livro Barbaraal, seu primeiro livro que retrata seu próprio cotidiano. Vincent é o seu oitavo livro, e todas as HQ’s de Stok seguem a mesma linha de arte, incríveis. Barbara trabalhou em cima deste por três anos, tendo ajuda recorrente do Museum Van Gogh, em Amsterdam. Confesso que foi uma experiência unica ter mais conhecimento da vida de Van Gogh de forma tão original, pintada e interpretada por outra artista. Muito melhor que pegar um livro com páginas brancas, contando de forma desgastante a vida de Van Gogh com a foto de uma obra ou outra no decorrer das páginas.

“Na vida de um pintor, talvez a morte não seja a coisa mais difícil.”

Algo que para mim foi novidade saber, é que Van Gogh fora uma pessoa difícil de se lidar, sendo muitas vezes intolerante e egoísta em prol do seu trabalho. Eu, não sei porquê, o imaginava como uma figura dócil e muito incompreendida pelos outros, e bom, só na parte do dócil eu estava enganada. Foi nítido perceber o quão esse artista pensava à frente de outros, e, por isso, acabava sendo tão incompreendido. Uma pena que ele não tenha tido paciência e estruturas emocionais para explicar sua arte de forma mais amigável, mas dá pra entender a agressividade em suas palavras quando se vê que seria difícil explicar pra quem não está disposto a entender.

“Muitas vezes as dificuldades estão em nós mesmos, e não em outro lugar.”

Após ter problemas no hotel em que estava hospedado por tempo indeterminado, ele decide alugar uma casa, pois com a quantidade de quadros que estava produzindo, precisava de espaço. Com isso surgiu a ideia de transformar aquela casa em um ateliê de artistas, onde a ideia era trazer vários artistas para morar lá, produzindo juntos e promovendo cada vez mais a arte e sua valorização. Seu primeiro convidado foi seu amigo e pintor, Gauguin (artista muito prestigiado atualmente), que, sem pestanejar, aceitou o convite. Mas as coisas não foram como Van Gogh estava idealizando, Gauguin não demonstrou devido interesse e entusiasmo pelas mesmas ideias do amigo, que começou a adoecer ainda mais com à recusa, teve até um ataque de raiva quando Gauguin decidiu ir embora, onde arrancou um pedaço da própria orelha.

Após esse episódio, decidiu, por contra própria, se internar. E esse fora outro período em que produziu belíssimas pinturas. Meses depois convenceu seu médico de que já estaria bem para tocar sua vida sozinho fora do hospital, e um tanto contra gosto, o médico o liberou. Infelizmente sua depressão continuou e tempos difíceis colocaram à prova sua sanidade. Algo bonito que Barbara fez ao contar esse trecho da vida do artista, foi não expor seu suicídio. Presume-se que quem leia este livro já conheça por cima a história de Van Gogh, para não chegar na última página do livro e pensar que ele se recuperou e viveu feliz pra sempre, 100% recuperado e pintando belas obras, mas para entender que ele passou por um belo tempo de recomposição até seu momento de recaída, que acabou lhe tirando a vida. Aqui Barbara focou em mostrar alguns altos e baixos do artista, e finalizar sua história nos ”altos”, para termos em nossos corações que independente dos baixos, ele era muito melhor que seus problemas e sua história tinha que ser lembrada não por sua morte, mas por sua bela trajetória.

“Eu tenho momentos bons e ruins, não apenas ruins. Que venha o que tiver de vir.”

A relação que Vincent tinha com seu irmão, Theo, era bastante bonita, e a autora usou das cartas trocadas entre eles para retratar aqui na HQ como era a convivência e relação dos dois. Vimos o quão Theo, apesar de tudo, apoiava e acreditava em seu irmão a ponto se não se importar em sustenta-lo, e o quão Vincent era absurdamente grato a ponto de sofrer tanto por conta disso, por não conseguir retribuir. É uma relação linda de se ver, mas também muito angustiante. Dá vontade de dizê-los: deixe-me ajudar!!!

Para quem gosta de histórias em quadrinhos, arte, literatura, história, ou melhor, para quem gosta da boa cultura em todas as suas vertentes, deveria dar um espaço para esse livro em suas estantes. É um livro rico que revive um pouco à trajetória de uma alma incrível que fora Vincent van Gogh. Além disso, reforça a ideia e acaba nos impulsionando para darmos mais valor às coisas e às pessoas enquanto ainda estão vivas. Não estou dizendo para não dar atenção ou desmerecer o trabalho de pessoas que já se foram, mas imagina o quão sensacional seria se essas pessoas tivessem a chance de saber o quão incrível elas eram?!

Com isso, vou presentea-los com uma breve cena de um episódio da série Doctor Who, em que fizeram uma homenagem a esta figura. Doctor Who é uma série britânica que conta as aventuras de um Senhor do Tempo que viaja por toda à galaxia resolvendo problemas alienígenas, podendo voltar ou ir adiante no tempo, e em determinado momento ele acredita ser importante voltar ao passado, pegar Vincent e levá-lo para o futuro, mais especificamente, levar para visitar um museu onde contém obras dos mais consagrados pintores, incluindo as dele. A reação que o ator teve ao interpretar como possivelmente Van Gogh reagiria é de destroçar corações. Antes de dar play, pegue o lencinho.

 

VINCENT – A HISTÓRIA DE VINCENT VAN GOGH

Autor: Barbara Stok

Tradução: Camila Werner

Editora: L&PM Editores

Ano de publicação: 2014

Em 1988, após uma estadia em Paris, Vincent van Gogh muda-se para Arles, no sul da França. A luminosidade, os espaços abertos e as paisagens bucólicas da região, além do próprio contato com a natureza, fornecem ao artista a matéria-prima para aquela que é considerada a fase mais rica e revolucionária de sua arte. Se por um lado o ambiente o enche de contentamento e esperança, por outro agravam-se seu desequilíbrio e sua angústia, piorados ainda pela falta de dinheiro e de perspectivas concretas de futuro e pela culpa de se achar um fardo para o irmão, que o sustentava.

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