Este prêmio Nobel da autora ucraniana Svetlana Aleksiévitch foi publicado pela Companhia das Letras em 2016.

Sobre o Livro
A jornalista Svetlana traz em seu livro um compilado de entrevistas que levou em torno de duas décadas para reuni-las. Os entrevistados eram cidadãos comuns, mas que se tornaram diferentes e distantes da sociedade ucraniana. Isto por que eles viviam em Pripiat e arredores de Tchernóbil, aonde tudo mudou quando um acidente nuclear aconteceu em sua usina.
“O mundo se dividiu: há os de Tchernóbil, nós; e há vocês; o resto dos homens.”
Há uma diversidade de entrevistados: desde famílias inteiras que tiveram que sair de sua cidade por conta da radiação até bombeiros e soldados que foram acionados em um plano de contigência de crise para minimizar os impactos do acidente nuclear e ocultar o máximo de informações possíveis enquanto a União Soviética projetava seu poder na Guerra Fria.
O vencedor do prêmio Nobel de literatura narra de forma oralizada diversas experiências que as pessoas tiveram no momento do acidente, dias depois, e as sequelas da radiação, da exclusão social, do regime soviético autoritário e da negligência por parte do governo.
Minha Opinião
O que dizer de um livro que tem o mesmo objetivo de um documentário: trazer informação? É claro que livros como este é muito mais do que somente uma leitura simples. É documento, história, denúncia e registro daquilo que pessoas tiveram que passar em um período extremamente conturbado de nossa história. E não para por aí: não foram somente as vidas ucranianas na região que se encontraram afetadas pela radiação: houve um agravamento para além da Ucrânia e do país vizinho, Bielorrússia, ultrapassando territórios em toda a Europa.
O livro não se exime somente das entrevistas. Svetlana traz uma abertura à obra e um capítulo final de conclusão contextualizando todo o apanhado que teve ao longo destes inúmeros anos de entrevista.
“Por que damos voltas continuamente ao redor da morte?”

Um outro fator positivo para este livro é a forma como a autora resolveu transcrever as entrevistas adaptando-as para uma espécie de narrativa coerente. Isto é, conseguimos ver que há cortes necessários para que a leitura e o entendimento possa ser fluído.
“Não sei do que falar… Da morte ou do amor? Ou é a mesma coisa? Do quê?
Por outro lado, no quesito fluidez eu considero uma obra densa de se ler. Há diversas entrevistas que reafirmam as mesmas situações e que não acho que agregam muito ao objetivo do livro, apesar de nunca perderem sua importância por se tratar de documento. Mas deve ser dito que esta não é uma obra literária para se divertir ou se distrair. É um meio para adquirir conhecimento. E pode ser um meio doloroso, isto por que o conteúdo que temos é difícil de digerir.
Confesso que se tivesse um encurtamento de algumas entrevistas seria mais interessante se prender nas páginas o que não me deixaria sentir mais cansado no meio do livro. De qualquer forma, cada página foi importante para constituir um dos livros mais aclamados do século e o que torna a autora reconhecida pelo seu grande feito.


VOZES DE TCHERNÓBIL
Autor: Svetlana Aleksiévitch
Tradução: Sonia Branco
Editora: Companhia das Letras
Ano de publicação: 2016
Em 26 de abril de 1986, uma explosão seguida de incêndio na usina nuclear de Tchernóbil, na Ucrânia – então parte da finada União Soviética -, provocou uma catástrofe sem precedentes em toda a era nuclear: uma quantidade imensa de partículas radioativas foi lançada na atmosfera da URSS e em boa parte da Europa. Em poucos dias, a cidade de Prípiat, fundada em 1970, teve que ser evacuada. Pessoas, animais e plantas, expostos à radiação liberada pelo vazamento da usina, padeceram imediatamente ou nas semanas seguintes. Tão grave quanto o acontecimento foi a postura dos governantes e gestores soviéticos (que nem desconfiavam estar às vésperas da queda do regime, ocorrida poucos anos depois). Esquivavam-se da verdade e expunham trabalhadores, cientistas e soldados à morte durante os serviços de reparo na usina. Pessoas comuns, que mantinham a fé no grande império comunista, recebiam poucas informações, numa luta inglória, em que pás eram usadas para combater o átomo. A morte chegava em poucos dias. Com sorte, podia-se ser sepultado como um patriota em jazigos lacrados. É por meio das múltiplas vozes – de viúvas, trabalhadores afetados, cientistas ainda debilitados pela experiência, soldados, gente do povo – que Svetlana Aleksiévitch constrói esse livro arrebatador, a um só tempo, relato e testemunho de uma tragédia quase indizível. Cenas terríveis, acontecimentos dramáticos, episódios patéticos, tudo na história de Tchernóbil aparece com a força das melhores reportagens jornalísticas e a potência dos maiores romances literários. Eis uma obra-prima do nosso tempo.

















