Lançado originalmente em 1865, Iracema é um dos mais famosos romances da fase indianista do escritor José de Alencar e possui diferentes edições relançadas no mercado, sendo uma delas a da editora Nova Fronteira, publicada em 2011.

Sobre o Livro

Considerado como um dos grandes clássicos nacionais, “Iracema” é um romance romântico da que foi chamada “fase indianista” da literatura brasileira, produzida com o objetivo de criar um mito de origem nacional para a sociedade recém independente que se formava naquele período. Localizando a história no estado do Ceará, onde Alencar nasceu, o livro acompanha o aventureiro português Martim que ao se perder na mata encontra Iracema, membro do povo tabajara e que, após inicialmente ferir o português, acaba arrependendo-se de sua ação e faz com ele um acordo de paz, levando-o para encontrar o pajé de seu povo.

“Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema. Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira”

Nesse intervalo em que se conhecem, Martim e Iracema se apaixonam, mas o português é aliado do povo inimigo dos tabajaras e sua paixão por Iracema é impossível de concretizar visto que Iracema é a guardiã do segredo da Jurema, prometendo assim ser virgem para sempre. A situação dos dois se complica quando um grupo do povo de Iracema volta-se contra Martim e Iracema precisa decidir entre deixar o aventureiro português para trás ou salvá-lo e consequentemente acabar traindo o seu povo.


Minha Opinião

É sempre uma complicação falar de clássicos literários sem desvencilhar-se de uma série de prerrogativas anteriores. Iracema, é visto por muitos críticos, inclusive por Machado de Assis, como uma das grandes obras de José de Alencar, sendo considerado como seu maior livro da temática indianista. De fato, o romance é uma “poesia em prosa” e tem claramente uma intenção de trabalhar com personagens que são arquétipos e exemplares do que um mito precisa: Iracema é a heroína que se sacrifica em nome do amor e não tem limites para abandonar tudo em favor daquilo que ela ama. Dotada de características fortes apenas quando precisa proteger Martim, a partir de determinados eventos da trama, Iracema vira aquilo que seu símbolo como mito precisa virar: esposa e mãe e, como tal, sofre um constante lamento que resulta no final simbólico de origem da sua história.

Martim é o herói clássico que deve reunir em si a coragem, a honra e o destino a uma vida de aventuras, seu papel é de ser um grande líder em que, em torno dele, os demais personagens relacionam-se quase com um esquema de devoção. Em meio aos dois protagonistas, os personagens dos povos nativos em guerra são elementos que ora representam coragem, ora despertam pena e simbolizam tentativa histórica de fundar a origem trágica dessa sociedade brasileira originada no encontro dos nativos com os portugueses. Os povos indígenas apresentados em Iracema – e a própria personagem – são puramente uma representação idealizada que o romantismo criava em torno da figura do “bom selvagem”. Muito mais criada em prol de um propósito narrativo que sirva a mensagem exemplar dos ideais românticos que os escritores queriam criar para o caráter nacional do que uma pessoa real, Iracema e seus irmãos são mais um conceito do que de fato uma imagem da realidade. Por essa perspectiva, de fato “Iracema” é uma narrativa que cumpre com seu objetivo, tem uma escrita verdadeiramente bonita com sequencias orais poéticas e simbólicas e conduz os principais caracteres do romantismo literário nacional.

Com tudo isso sendo considerado, ainda assim “Iracema” é um livro que é difícil de se gostar de forma apreciativa. Como estudante, consigo entender os caracteres históricos e estéticos que a obra traz consigo, entendendo sua importância e sei exatamente quais símbolos ela queria passas e que são símbolos de uma época com valores diferentes dos nossos. Ter essa perspectiva em mente é algo do qual nunca me desvencilho. Mas, como leitora, dizer que gostei do livro já é uma afirmação que não seria verdadeira. Até a perspectiva de esse ser o “melhor romance indianista” do José de Alencar me deixa meio desconcertada. Consigo ver esteticamente o porquê, mas como alguém que tem “O Guarani”, também um romance indianista do autor, como um dos livros favoritos da vida, fico pessoalmente hesitante de achar isso verdadeiro quando “O Guarani” se saiu muito melhor enquanto obra para mim.

Parte do problema que “Iracema”, enquanto um romance, possui para conquistar um público é que, diferente de outros livros do autor, os personagens aqui são arquétipos explícitos demais para permitir que nos encontremos com e neles. Podemos entender as emoções da personagem pelo que ela afirma, entendemos Martim como o protagonista heroico típico pelo que dizem dele, compreendemos os sentimentos de lealdade de Poti pelo que é dialogado, mas nunca essas emoções são concretas, nunca passam a sensação de veracidade por meio das ações. Martim é dito para o leitor como um grande e honrado herói por quem valeria a pena ser cometido todos os sacrifícios de devoção que Iracema e Poti realizam. Mas é isso: é dito, esteticamente é falado de forma poética sobre os valores de Martim, dizer não foi o problema. O problema é que, enquanto leitora, não confio nem um pouco nisso, pois nada na trama me convenceu de que realmente isso era verdadeiro e que tamanhas dores valeriam a pena. É diferente de um herói como Peri, que em O Guarani conhecemos e vemos agir em cena e confiamos de que ele é de fato tudo que é dito pelos demais.

“Os olhos de Iracema estendidos pela floresta viram o chão juncado de cadáveres de seus irmãos; e longe o bando dos guerreiros tabajaras que fugia em nuvem negra de pó. Aquele sangue que enrubescia a terra era o mesmo sangue brioso que lhe ardia nas faces de vergonha”

Esse problema se repete em outras relações. O “amor incondicional” de Iracema por Martim é lindamente escrito em palavras, mas em momento algum convence em ações. É quase unilateral, considerando que é proposital o sacrifício dela, porém é difícil sentir emoções com um sacrifício que não conseguimos entender porque de ter acontecido por algo tão frágil quanto essa relação. Só em palavras, a relação não age na trama de forma a se tornar concreta. Tudo é rápido demais, sem tempo para que qualquer sentimento se desenvolva, sem tempo do leitor comprar as emoções.

Em termos históricos, é obvio que Iracema é uma indicação que nunca vai sair da vida dos leitores brasileiros, é importante se entender a obra, questioná-la hoje sabendo da problemática que a narrativa indianista traz quando o assunto é representar os povos indígenas – que nunca expressam sua voz de fato e são idealizados e modelados conforme um ideal que não diz nada por eles, assuntos desse tipo são discutidos em livros como “Pele silenciosa, pele sonora”, que aborda a literatura indígena no Brasil de forma teórica, além de ficar a indicação de livros como “A Queda do Céu – relatos de um xamã yanomami”, de Davi Kopenawa e “Metade Cara, Metade Máscara”, de Eliane Potiguara, ambos obras que apresentam a voz autoral de integrantes e ativistas de diferentes povos indígenas que tomam seus espaços na narrativa literária contemporânea.

Também podemos entendê-la enquanto uma narrativa que segue os propósitos simbólicos de seu tempo. Por esses aspectos, “Iracema” continua sendo uma história importante de ser lida, já que apresenta o que era os ideais e projetos de origem de um Brasil do passado que modelou bastante do presente. Contudo, é de fato uma leitura que não é simples de se fazer e não foi agradável de terminar, cabendo um esforço maior de leitura.

IRACEMA

Autor: José de Alencar

Editora: Nova Fronteira

Ano de publicação: 1865

Uma atmosfera lendária, exótica e delicada envolve a bela e triste história de amor entre Martim, primeiro colonizador português do Ceará, e Iracema, jovem índia tabajara, filha de um pajé. Lenda do Ceará: este é o subtítulo do romance escrito no século XIX pelo autor cearense José de Alencar, ligado ao Romantismo, movimento preocupado em resgatar a tradição de um país, em pesquisar as histórias transmitidas oralmente. E esse subtítulo diz muita coisa sobre o livro: que essa história queria explicar alguma coisa ou algum fato maior, que o autor provavelmente buscava as raízes de sua gente, uma tradição que o ligasse ao verdadeiro povo da terra, os indígenas. E, ao escrever sobre o povo considerado o verdadeiro dono da terra, origem de nossa história, narrou também uma história de heróis, de guerreiros valentes e dispostos a defender seus valores.

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