Lançado em 2014, Olhos D’água é uma coletânea de contos escritos por Conceição Evaristo publicada pela Editora Pallas. 

Sobre o Livro

Centrado em temáticas sociais, políticas e emocionais, Olhos D’água possui uma seleção de contos que gira em torno de mulheres, crianças e homens oriundos em maioria das periferias e que carregam consigo as marcas de problemas amorosos, desavenças familiares e sonhos que jamais se realizaram. No conto de abertura, “Olhos d’água”, acompanha-se as memórias de uma filha que recordar-se de sua história com a mãe, mas que não consegue lembrar qual era a cor dos olhos dela e isso atormenta suas reflexões. Em “Ana Davenga”, segue-se a história de Ana, que, apreensiva, espera a chegada do marido em casa em uma noite em que tudo parece ter dado errado.  

“Duzu-Querança” trata sobre uma avó que observa os netos e reflete sobre seu passado marcado por vivências que a fazem desejar algo melhor para as crianças a sua frente. Em “Maria” acompanhamos uma mulher que reencontra o pai de seu filho em um assalto ao ônibus. “Quantos filhos Natalina teve?” é um difícil conto que segue Natalina desde sua primeira indesejada gravidez e a acompanha na reflexão sobre todas as crianças que ela já odiou ter e na única que ela realmente queria. “Beijo na face” segue Salinda, uma mulher que sabe que seu marido descobriu sua traição e que, junto ao leitor, aguarda o próximo passo da tensa e silenciosa briga entre eles.  

“Uma noite, há anos, acordei bruscamente e uma estranha pergunta explodiu de minha boca. De que cor eram os olhos de minha mãe?”

 “Luamanda” acompanha as memórias dos diversos encontros sexuais vividos pela personagem idosa, trazendo à tona a questão da sexualidade na velhice. Em “Zaíta esqueceu de guardar os brinquedos” temos uma criança que procura pela figurinha de um álbum e desce o morro sozinha bem na hora que um tiroteio começa. “Dí Lixão” tem um narrador masculino que em meio a um delírio causado por uma infecção, pensa no ódio que ele sentia pela mãe. “Lumbiá” segue os passos de mais uma criança que vende bala e flores nas ruas e que, ao deparar-se com a imagem de Jesus nos presépios de natal, vê naquele menino um reflexo de si mesmo. “Os amores de Kimbá” é outro dos contos que apresenta um personagem adulto, que envolve-se num relacionamento triplo com Beth e Gustavo, dois personagens de classe alta que lhe prometem o mundo, e cabe a Kimbá decidir qual deles o terá.

“Ei, Ardoca” acompanha um depressivo protagonista que reflexe sobre sua relação com os trens e as estações que lhe acompanharam durante toda a vida. “A gente combinamos de não morrer”, o conto mais longo da coletânea, segue diversos relatos de uma vida coberta por ações, medos e segredos. E, por fim, “Ayoluwa, a alegria de nosso povo” apresenta uma analogia mitológica que relaciona o nascimento de uma criança com a chance de redenção de um povo cuja terra padeceu em agonia. Ao todo, são 15 contos que provocam questionamentos diversos em cada uma de suas curtas páginas, instigando o leitor a questionar-se sobre questões familiares, questões sociais, políticas e amorosas, traçando um caminho que, de certo modo, culmina numa pergunta bastante simples: você lembra qual era a cor dos olhos das pessoas que marcaram a sua vida?


Minha Opinião

Conhecer Conceição Evaristo pela força de seu nome antes de conhecer seus contos criou um misto de expectativa e hesitação ao abrir as páginas de “Olhos D’Água” pela primeira vez. Expectativa por acreditar que aquela mulher das palestras e entrevistas em bienais com certeza não decepcionaria na hora da escrita. Hesitação por puro medo de não encontrar nos contos aquilo que a imaginação tinha criado como meta, o que poderia levar a decepção. Bem, de certa forma, realmente o encontro com a escrita de Conceição Evaristo não rendeu o que era esperado pela imaginação que criei, mas isso não foi causado por uma potencial decepção, e sim porque seus contos ultrapassaram qualquer expectativa que eu tinha.

“A morte incendeia a vida, como se essa estopa fosse. Molambos erigem fumaça no ar. Na lixeira, corpos são incinerados. A vida é capim, mato, lixo, é pele e cabelo. É e não é.”

De forma simples e extremamente bonita, os contos de “Olhos D’água” mexem de formas diferentes com cada parte de quem lê, provocando medo, apreensão, tristeza, causando lá no fundo da alma aquele sentimento ruim de impotência diante da crueldade de alguns destinos que os personagens sofrem. Impotência que torna-se pior quando fica nítido que esses personagens são reais. Não dá para evitar pensar que poderia ser alguém conhecido no lugar de Salinda, Maria ou Natalina.

A escrita de Conceição Evaristo é daquelas que não precisa de ornamentos linguísticos grandiosos para se tornar marcante e fazer o leitor se emocionar com suas passagens. O conto “Luamanda” é talvez um dos mais poéticos de toda a obra e trata do tema sexo de forma que eu jamais tinha visto anteriormente em algum livro. Com descrições respeitosas, mas ainda imersas em luxuria, desejo e amor, o conto é uma bela reflexão sobre a sexualidade da mulher, principalmente da mulher idosa.

Além de “Luamanda”, o primeiro conto, que dá título a coletânea, é daqueles que provoca uma leve vontade de chorar, o que dá total sentido a ele ser a porta de entrada do livro. Em poucas palavras, “Olhos d’água” leva a uma profunda reflexão sobre a relação que temos com as mulheres de nossas vidas, principalmente as mães e avós que conhecemos, e como elas são nossas conhecidas e desconhecidas ao mesmo tempo.

“Os mais velhos, acumulados de tanto sofrimento, olhavam para trás e do passado nada reconheciam no presente. Suas lutas, seu fazer e saber, tudo parecia ter se perdido no tempo.”

Conceição Evaristo também sabe tocar na ferida quando escreve seus personagens, principalmente aqueles que não sabemos se amamos ou odiamos, pois provocam o pior e o melhor das nossas definições padrão de moral e ética. Natalina é um personagem desse tipo, levantando um tema polêmico sobre gravidez indesejada e crianças que nunca foram realmente amadas por quem – em teoria de senso comum – deveria tê-las amado desde o começo. Dí Lixão também levanta outro tópico instável, pois apresenta uma realidade facilmente apagada da sociedade e das mídias: aquela em que os pais talvez não sejam tão bons assim pros filhos.

Temas tão difíceis, mas tão sinceros em sua dor, medo e propostas são raros de encontrar e fáceis de admirar. Conhecer a produção artística de Conceição Evaristo é se encantar por personagens que talvez não devessem ser admiráveis e é odiar alguns que seriam taxados de heróis. Ler seus contos é abrir a força os olhos para pessoas e relações que você talvez não quisesse ver. Também é admirar o trabalho lindo que ela faz com as palavras, criando uma coletânea em que, por mais que cada conto seja apreciado individualmente, todos deixam sua marca.

Olhos D’água é um livro que é recomendado para quem já é familiarizado com narrativas curtas e fortes e também para aqueles que queiram conhecer melhor o universo dos contos nacionais. Também é um livro para aqueles que gostem de histórias brutais em sentimentos e enredos, mas que não deixam de ser lindas em sua descrição. Vindo de uma autora tão importante quanto Evaristo, o livro é também recomendado para aqueles que queiram apreciar a literatura nacional e ver o que de novo – e incrível – ela tem para mostrar.

OLHOS D’ÁGUA

Autor: Conceição Evaristo

Editora: Pallas

Ano de publicação: 2014

Em Olhos d’água Conceição Evaristo ajusta o foco de seu interesse na população afro-brasileira abordando, sem meias palavras, a pobreza e a violência urbana que a acometem.

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