A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água, de Jorge Amado, novela publicada pela primeira vez em 1959, na revista Senhor, com ilustrações de Glauco Rodrigues. Sua edição mais recente é de 2008 pela Companhia das Letras.

SOBRE O LIVRO

Joaquim Soares da Cunha é um cidadão respeitável, casado e com filhos, funcionário público de vida pacata, que um dia resolve abandonar a família e viver como um boêmio. Sua filha, genro e irmãos ficam sabendo de sua morte anos depois. A família então providencia um velório respeitável, para tentar manter a memória de bom cidadão de Joaquim.

“Não sei se esse mistério da morte (ou das sucessivas mortes) de Quincas Berro D’Água pode ser completamente decifrado. Mas eu o tentarei, como ele próprio aconselhava, pois o importante é tentar, mesmo o impossível.”

No entanto, quando seus amigos do tempo de boemia aparecem para a guardação, essa galerinha do barulho apronta altas confusões com aquele que ficou conhecido na noite como Quincas Berro D’Água, trazendo dúvidas sobre a hora, local e frase derradeira proferida por Quincas antes de morrer.


MINHA OPINIÃO

Eu costumava ter alguma resistência a Jorge Amado: nunca gostei dos casos especiais e novelas de televisão baseados em seus livros. Amado é, porém, muito importante na literatura brasileira para ser deixado de lado. Cedi, então, e peguei esta novela.

Foi uma decisão acertada. A prosa de Amado é fluida sem ser rasa. Tinha baixas expectativas, e estas foram superadas de longe. Ainda bem. A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água pode ser lida em duas horas ou menos, tem ritmo, e é muito engraçada. E há a crítica social esperada de um livro da época e autor.

Jorge Amado (Itabuna, 1912 – Salvador, 2001) foi um dos mais famosos e traduzidos escritores brasileiros de todos os tempos. Começou a envolver-se com literatura aos 14 anos. Foi para o Rio de Janeiro estudar Direito, mas nunca exerceu a profissão. Tornou-se jornalista, e como escritor profissional, viveu quase que exclusivamente dos direitos autorais de suas obras.

O autor em A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água brinca com o Realismo Fantástico, assim como mais tarde o faria em Dona Flor e Seus Dois Maridos. A novela se passa inteiramente em Salvador, Bahia, e alguns dos personagens aparecem ou aparecerão em outros livros do autor, como Vadinho (Seara Vermelha) e Antônio Balduíno (Capitães de Areia).

O ponto de vista é de um narrador observador, redigindo na terceira pessoa. O foco da narrativa é a “verdadeira” morte de Quincas, a que ocorre na pocilga em que viveu após abandonar a família.

Os personagens estão divididos em dois núcleos; a família de Joaquim, e os amigos de boemia. Na primeira parte da novela observamos as reações e comportamento daqueles (sua filha, genro, irmãos), que querem, em um velório respeitoso, recuperar a fama de bom cidadão do protagonista. Na segunda parte, estes, os amigos, após a saída de cena da família, decidem levar o corpo do falecido para uma última noitada, que é quando Quincas vai “escolher” como realmente quer deixar a vida.

No meio da confusão

Ouviu-se Quincas dizer:

“Me enterro como entender

Na hora que resolver.

Podem guardar seu caixão

Pra melhor ocasião.

Não vou deixar me prender

Em cova rasa no chão.”

E foi impossível saber

O resto de sua oração.

Por ser um livro publicado há sessenta anos, o leitor já tem uma ideia da história e do que acontece com Quincas. Apesar disso, é uma leitura muito divertida, que prende bem a atenção.

Indico este livro para quem nunca leu Jorge Amado, é uma boa introdução. O leitor vai se beneficiar de algumas idas ao dicionário, mas o vocabulário não é tão difícil quanto em outras obras do mesmo autor ou até da mesma época. É uma novela de veio cômico, e na edição lida há um prefácio de Vinícius de Moraes, que considera esta “a melhor novela da literatura brasileira”.

A MORTE E A MORTE DE QUINCAS BERRO D’ÁGUA

Autor: Jorge Amado

Editora: Companhia das Letras

Ano de publicação: 2008

Numa prosa inebriante, que tangencia o fantástico sem perder o olhar aguçado para as particularidades da sociedade baiana, Jorge Amado narra a história das várias mortes de Joaquim Soares da Cunha, vulgo Quincas Berro Dágua, cidadão exemplar que a certa altura da vida decide abandonar a família e a reputação ilibada para juntar-se à malandragem da cidade. Algum tempo depois, Quincas é encontrado sem vida em seu quarto imundo. Sua envergonhada família tenta restituir-lhe a compostura, vesti-lo e enterrá-lo com decência; mas, no velório, os amigos de copo e farra dão-lhe cachaça, despem-no dos trajes formais e fazem-no voltar a ser o bom e velho Quincas Berro Dágua. Levado ao Pelourinho, o finado Quincas joga capoeira, abraça meretrizes, canta, ri e segue a farra em direção à sua segunda e agora apoteótica morte.

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