Despertar é o primeiro livro da série Xenogênese da autora Octavia E. Butler, publicado em 2018 no Brasil pela editora Morro Branco.

Sobre o Livro

Os humanos conseguiram perpetuar uma guerra que finalmente pôs em risco a sobrevivência da espécie e do planeta. 250 anos se passaram e agora a raça alienígena que resgatou os únicos humanos que restaram está pronta para tirá-los da animação suspensa e devolvê-los à Terra que depois de dois séculos e meio adquiriu condições de voltar a ser habitada.

A escolhida para ser a primeira e a líder desse grupo que vai voltar ao planeta é Lilith Iyapo, atualmente com 28 anos, antropologista, perdeu o marido e o filho em um acidente de carro. Uma das poucas a nunca verbalizar se estava na posse de alienígenas na vezes que foi “Despertada” anteriormente para entrevistas, ela chamou a atenção dos Oankali e será aquela que guiará os humanos de volta a seu planeta.

Mas, acima de todas as perguntas que tumultuam a cabeça de Lilith a principal delas é: o que esse povo alienígena vai querer em retorno por ter os salvado e cuidado para que um dia fosse possível voltar?


Minha Opinião

Se tem uma coisa que já entendi é o quanto Octavia Butler consegue construir histórias que apertam botões importantes sobre a sociedade em que vivemos e o comportamento humano. Esse é o terceiro livro que leio da autora e é também o que mais avança em apresentar um cenário “estranho”. Mesmo que todos os seus livros publicados até então no Brasil sejam ficção científica, Kindred e A Parábola do Semeador trabalharam coisas mais próximas da nossa atual situação e eram assustadores a sua maneira exatamente por isso e pelos aspectos que retratava e nos fazia refletir.

Aqui, temos o que eu imaginei ser um estilo de 3ª Guerra Mundial com consequências horríveis que quase levaram a extinção da nossa raça e a destruição da capacidade de habitação do planeta, fazendo necessário que alguém “de fora”, alienígena, viesse ao nosso socorro.

Nesse aspecto, o que chama atenção aqui é o comportamento de Lilith quando ela acorda. Ao invés de fascínio, o que ela sente é uma completa repulsa e apreensão com os Oankali. A raça é muito diferente fisicamente dos humanos e são descritos quase como medusas, com tentáculos na cabeça e espalhados pelo corpo, representando um horror aos olhos e, como a própria autora ressalta, também uma ameaça. Xenofobia, em uma simples definição.

“Para a maioria das espécies, o diferente é ameaçador. O diferente é perigoso e vai matar você.”

Isso que a protagonista repassa ao leitor por seus pensamentos e atos, soou a mim quase como um medo irracional e me fez questionar diversas coisas ao longo da narrativa frente a tudo que era apresentado como ponto de vantagem e desvantagem na história em correlação com o comportamento apresentado por Lilith.

O que podemos ter como certeza é que a raça exigirá algo em retorno e isso terá a ver com alterações genéticas e o que eles chamam de “permuta”, sua moeda de troca. Raciocinando sobre tudo, as exigências, os ganhos e as perdas (que eu não vou listar para não estragar a surpresa do livro), me vi pondo as coisas em uma balança e percebendo que uma das grandes reflexões da história é o quanto aquilo que lutamos para evoluir em nós mesmos, no mundo atual, através da pesquisa científica e da tecnologia, se nos apresentado por um ser monstruoso fisicamente, mas que não é maldoso, agressivo ou fez qualquer mal à nossa raça, muito pelo contrário, e com um retorno de ter que abrir mão do que nós temos como “belo” em nossa aparência ou a autenticidade de nosso “código genético”, acaba por ter um apelo imensamente negativo.

Durante toda a leitura tentei encontrar uma outra forma de alinhar esses fatores e realmente não encontrei, principalmente vendo a protagonista de aproveitando de várias “melhoras”, enxergando a vantagem, desejando e sentindo satisfação pelas alterações e mesmo assim pondo tudo à prova sistematicamente em nome da repulsa visual que sentia dos Oankali. E, tirando todo o fator “alienígena” de cena, em um contexto mais atual, é claro que temos inúmeras discussões sobre impressões e preconceitos ditamos pela aparência mesmo entre nós, quem dirá em contraste com outra raça em um ambiente tecnicamente hostil.

“São pessoas amedrontadas buscando alguém para salvá-las.Eles não querem razão, lógica, esperança ou suposições. querem Moisés ou alguém que venha e as conduza para vidas que elas conseguem compreender.”

O que Octavia faz aqui, e muito bem por sinal, é nos fazer questionar uma série de coisas tendo como cenário algo que parece impossível, mas que tem inúmeros aspectos que conversam com situações que envolvem nosso mundo e que podem sim, em certos graus, virem a acontecer em algum momento futuro. Nós buscamos a evolução genética, buscamos curar o câncer, evolução cerebral, melhor resposta à estímulos, clonagem, imunização, implantes nervosos. Mas se tudo isso viesse com o custo de nos tirar algo tido como tão precioso hoje em dia que é a nossa aparência como conhecemos hoje e a forma como estamos acostumados a nos relacionar, valeria à pena?

Até que ponto nossa quase extinta sociedade está disposta a ir para retornar a um devastado planeta onde terão que recomeçar na era das cavernas com limitados instrumentos, fontes de alimentos e muitas ameaças? E até que ponto estão também dispostos a aceitar ou a repudiar a ajuda de seus salvadores e captores? Tudo isso vem acompanhado de uma jornada de aperfeiçoamento e descoberta da protagonista e da sua interação, não só com essa nova raça, mas também com os outros humanos, que passarão pela mesma dúvida, confusão e desconfiança que ela passou (e ainda passa). Enquanto desbravamos mais e mais sobre o que os Oankali podem fazer, até onde vai seu domínio e seus estranhos costumes.

Outro ponto de vista importante é que essa raça diz ter descoberto os dois principais fatores que levaram a humanidade a se auto destruir, e que sua interferência vem exatamente para corrigir isso, pois se postos novamente na Terra, exatamente da forma como somos, nossa genética vai influenciar que cheguemos exatamente no mesmo ponto de colapso milhares de anos à frente em um ciclo sem fim. Inteligência e hierarquia: nossos principais defeitos.

Eu posso apresentar um número infinito de aspectos pelos quais esse livro passa e nos confronta, mas não quero tirar o gostinho de desbravar a trama e criar os seus próprios conflitos com os aspectos que estão sendo apresentados aqui. E, deixando de lado todos os aspectos sérios que já ressaltei, tem algo que realmente me chamou a atenção: quase sempre quando lidamos com uma raça alienígena, o sentimento dos personagens ao interagir com ela, quando não há perigo e não estão sendo atacados, costuma ser fascinação, curiosidade. Lilith não nos apresenta isso em nenhum momento no livro voltado aos Oankali. Seu sentimento é sempre medo, dúvida, repulsa, indignação e, ao mesmo tempo em que foi diferente ver as coisas assim, também foi um ponto de conflito da minha parte com a protagonista, pois sei que quase sempre, o ser humano é sim, acima de todas essas coisas um ser extremamente curioso e que, provavelmente, teria “explorado” alguns aspectos com bem mais veemência do que ela fez.

Despertar traz esse nome exatamente por representar o acordar da raça humana para um novo mundo (que eles gostariam que fosse ainda velho), como metáfora, e de como iríamos lidar com isso: cometendo os mesmos erros ou tentando um caminho diferente? Nesse primeiro livro tivemos apenas uma primeira etapa da história e eu já fiquei bastante curiosa para onde a autora vai levar as coisas daqui pra frente.

A escrita da autora se apresenta de forma muito fluida e, dos três livros que li, esse foi o que passei pelas páginas com mais rapidez. Por mais que tenhamos algumas explicações, a ânsia por descobrir o que vai acontecer e que mistérios está escondido à frente toma às rédeas da leitura. A capa mantém o padrão que a editora vem trazendo para as publicação de Butler no Brasil, com capa soft touch e uma diagramação bem confortável.

Despertar, livro que abre essa nova história é uma experiência para entretenimento, porém também para reflexão, assim como são quase todas as ficções científicas que trabalham aspectos sociais e, mais uma vez, Octavia faz seu trabalho com extrema maestria.

 

DESPERTAR

Autor: Octavia Butler

Tradução: Heci Regina Candiani

Editora: Morro Branco

Ano de publicação: 2017

Há vida inteligente lá fora e é ela que salva a humanidade de si mesma. Quando Lilith Iyapo desperta após 250 anos de animação suspensa, descobre que o planeta Terra e os seres humanos sobreviventes de uma guerra catastrófica estão sob a guarda dos Oankali, uma espécie alienígena com habilidades e tecnologias tão impressionantes quanto sua aparência é repulsiva. Lilith foi escolhida para despertar e preparar outros seres humanos para finalmente retornarem ao planeta natal. A Terra está novamente habitável há pouco, porém em condições bem diferentes do que conheciam. Assim, os humanos precisarão desenvolver suas habilidades de sobrevivência, enquanto Lilith terá que superar as próprias suspeitas para liderá-los nessa nova etapa – além de decidir se vale a pena andar sobre a linha do que nos define como humanos.

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