Lançado originalmente em 1992, A História Secreta é um romance escrito pela premiada autora Donna Tartt que foi publicado no Brasil pela editora Companhia das Letras pela primeira vez em 1995.

Sobre o Livro

Bunny está morto. Seus amigos são os responsáveis por matá-lo e agora é preciso entender como que essa trágica situação aconteceu sendo que, externamente, todos eles pareciam tão próximos e unidos. Em meio a segredos, mentiras e remorsos, Richard Papen precisa retomar suas lembranças da época de sua faculdade para compreender como que o delirante e atraente grupo de amigos que ele formou nessa época conseguiu chegar ao limite de assassinar um de seus maiores colegas.

Richard Papen, oriundo de uma cidade da Califórnia e com uma vida familiar pouco amorosa e instável, é um dos mais novos estudantes da universidade Hampden, berço intelectual de alunos de elite e cujos os perfis não combinam com o dele. Eternamente preso a um sentimento de desejar mais do que possui e não querer levar uma vida interpretada como medíocre ao ver seus pais e o destino de seus colegas, Richard chega em Hampden graças a um folheto de divulgação da faculdade e lá encontra um grupo de alunos muito curioso e para o qual dedica sua admiração imediata. Henry, Francis, Bunny, Camilla e Charles são os únicos cinco estudantes da turma de Grego do professor Julian, um controverso docente de Hampden que só abre sua turma para pouquíssimos alunos e forma com eles um grupo fechado e isolado de intelectuais que discutem cultura grega e traduzem grandes clássicos.

“Existe, fora da literatura, aquela coisa de “falha fatal”, a nítida fenda escura que se estende e racha uma vida ao meio? Eu costumava achar que não. Agora acho que sim. E penso que a minha é assim: a ânsia mórbida pelo pitoresco, custe o que custar.”

Desejando fazer parte desse círculo tão fascinante de estudantes, Richard começa a mudar a si mesmo e a modelar sua história para o que melhor faria ele se encaixar entre essas pessoas que ele observa como excepcionais. Contudo, ao adentrar cada vez mais dentro desse grupo, Richard pode acabar descobrindo que há mais falhas do que encanto em cada um deles e sua jornada irá girar em torno de decidir se o deslumbramento é maior do que o alerta em sua mente. De todo modo, Richard nunca mais será quem foi ao juntar-se a seus colegas.

Discutindo filosofia, arte e literatura, “A História Secreta” reúne um conjunto de personagens que trabalham os temas da beleza, da culpa e da loucura e que buscam responder perguntas incômodas, sendo a principal delas a indagação de até onde você iria para sentir que faz parte de algo maior do que qualquer outro sentimento que já sentiu anteriormente.


Minha Opinião

Aliando um enredo fascinante, que mistura diferentes tipos sociais, com uma escrita densa, metafórica e encantadora, “A História Secreta” já apresenta seu maior “spoiler” já no começo do primeiro parágrafo, descontruindo a noção do que seria um clímax narrativo e conduzindo aos leitores para o principal – e mais interessante – ponto de uma narrativa: como e por qual motivo as coisas aconteceram. É nas entrelinhas, nas sub tramas e no convívio próximo que a autora cria entre leitor e narrador que o livro revela seu potencial de cativar e prender cada espectador na trama pesada, complexa e bastante humana que cerca a narrativa. E é isso que faz de Donna Tartt e do seu livro de estreia uma obra genial.

Quando conheci e li “A História Secreta” pela primeira vez, tinha 15 anos e fui facilmente impressionada por todos os personagens criados pela autora. Mais do que apenas admirá-los, em parte, como Richard, eu sentia que queria ser como essas pessoas ou pertencer aquele grupo de alguma forma. Hoje, cinco anos depois, a percepção que tenho deles é bem mais realista e com os pés no chão, me permitindo notar com muito mais clareza a construção dos personagens não como seres completamente admiráveis, mas como personagens extremamente humanos e, por consequência, bastante falhos. Ter essa diferença de perspectiva só acrescentou pontos para a escrita da Donna Tartt que conseguiu provocar dois sentimentos diferentes e ainda fazer o livro fluir de uma forma impactante em ambas as leituras. E é nesse ponto, o do sentimento provocado, que a “A História Secreta” guarda seus principais trunfos e que fazem de Donna Tartt uma escritora tão inesquecível.

Digo isso porque é impressionante o quanto cada detalhe, por mais insignificante que pareça a princípio, se torna essencial para construir cada personagem de forma única e quase mágica. Anunciando seu plot principal já na primeira página – o que rende ótimas reflexões sobre a subversão do conceito de spoiler e sobre quais elementos realmente importam numa trama quando você já sabe quem morreu e quem matou desde o princípio – o livro constrói seus alicerces em cima dos personagens que te apresenta. Sob os olhos de Richard, narrador em primeira pessoa e com um relato tipicamente não confiável, os leitores são conduzidos ao caminho de ver quem são Henry, Francis, Camilla, Charles e Bunny. Assim como Richard, somos encantados e enganados por esses personagens e sua aparente superioridade fascinante que faz com que o sentimento de querer pertencer a isso cresça, bem como a decepção de ver eles como figuras menos mágicas e etéreas do que pareciam. Richard e sua narração bastante tendenciosa tornam a nossa leitura também algo parcial a favor do grupo e é justamente isso que faz a narrativa ser tão espetacular.

“Por que uma vozinha obstinada, dentro de nossas cabeças, nos atormenta tanto?” – disse, olhando em torno da mesa. “Quem sabe por nos lembrar de que estamos vivos, de que somos mortais e possuímos uma alma individual – que nos amedronta tanto entregar e, no entanto, nos leva ao desespero mais do que qualquer outra coisa? Não é a dor, porém que nos dá consciência do ego? É terrível descobrir, na infância, que o indivíduo vive isolado do mundo inteiro, que ninguém e mais nada pode sofrer a dor da sua língua queimada ou joelho ralado, que os sofrimentos e pesares pertencem apenas a cada um. Mais terrível ainda, quando crescemos, é aprender que nenhuma pessoa, por mais que nos ame, pode nos compreender verdadeiramente.”

Construídos como personagens de elite, tanto econômica como intelectual, Henry, Charles, Camilla, Francis e Bunny são apresentados como um grupo praticamente de outro mundo. Richard os vê como bonitos, inteligentes, melhores que qualquer um ao redor dele e é isso que o move a querer ser como eles. Juntando-se ao grupo como uma metade totalmente nova e de fora, uma vez que sua falta de dinheiro marca sua trajetória de mentiras dentro da relação com os demais, Richard vai emaranhar-se em uma trama de conversas filosóficas nas aulas com, o reservado e nada convencional, Julian e compartilhar com os outros uma amizade que aos poucos aprofunda-se e torna-se algo mais intenso e perigoso do que poderia aparentar. É na relação que ele estabelece com essas pessoas e no modo como o sentimento que os une alimenta consequências boas e ruins que “A História Secreta” faz sua marca como livro que tira o folego não pelo choque ou pela correria, mas pela sutileza e pelo emaranhado denso que constrói em torno de cada personagem com quem trabalha.

Henry, sempre frio, alheio e arrogante, torna-se impressionantemente humano em momentos que jamais esperaríamos e mesmo quando o narrador diz estar com o pé atrás em relação a ele, ainda há encanto e fascínio vivos que impedem que esses laços se partam completamente. Camilla, descrita como exótica e bela tanto em ações quanto na aparência, torna-se real e não mais uma idealização nos pontos que Richard deixa escapar detalhes que seu pensamento tendencioso buscam ocultar. Charles, gêmeo de Camilla e cuja diversão, leveza e calmaria são as referências para os leitores no começo, mostra-se mais obscuro e imprevisível quando observamos mais de perto e vemos o que Richard não quis ver. Francis, tipicamente o modelo de personagem rico, com a vida ganha e cuja presença passaria despercebida não fosse sua vontade de ser leal aqueles que ama, vira alguém mais crível quando colocado sob a pressão dos atos que foram cometidos e sua aparente rigidez revela alguém muito mais real por trás da aparência. E, claro, Bunny, aquele que vai morrer: expansivo, marcante, problemático em alguns aspectos e incrivelmente humano, Bunny revela ser alguém detestável e amável por Richard e pelos outros em proporções idênticas, revelando em sua existência e em sua morte a complexidade das relações humanas e do quanto alguém que odiamos pode ser também alguém do qual se sente falta, por mais irracional que seja a convergência entre esses sentimentos.

Além dos personagens, “A História Secreta” também é excelente em proporcionar uma ambientação única, os cenários descritos dentro da universidade e na casa de campo para qual o grupo vai em diversas cenas tornam cada lugar especial ao seu modo, contribuindo para a impressão geral de que a narrativa poderia ser real e o leitor poderia passear por algum lugar e deparar-se com os cenários colocados ali.

“Beleza é terror. Desejamos ser devorados por ela, dissolver nossos egos no fogo que nos refinará.”

O livro também apresenta uma quantidade bastante grande de discussões, uma vez que a temática que une os personagens é justamente a questão acadêmica. Há extensos diálogos sobre filosofia, literatura e aplicação de conceitos éticos, morais e emocionais. Dentro dessas discussões, percebe-se outras problemáticas abordadas na história, tais como as infames e preconceituosas opiniões de Bunny, contadas em forma de piada aos demais, o questionamento sobre a elitização do ensino dentro dos métodos de didática de Julian, que ao só eleger uma quantidade mínima de alunos e priva-los de contato com os demais, retira conceitos básicos de educação que pregam pela diversidade e não pelo isolamento e favoritismo. Há ainda as claras discussões sobre loucura, lucidez, remorso e culpa e uma nítida correlação entre a história dos personagens e as tragédias gregas.

É com os pequenos detalhes que Donna Tartt compõe uma história única, viciante e impossível de se deixar para trás graças ao realismo magnético de seus personagens e a força com que seus problemas tornam-se contextos dos quais tememos e admiramos na mesma medida. Com um brilhantismo de construção narrativa que só favorece sua história e apresentando um enredo em que cada sutil referência e descrição importa, “A História Secreta” é um livro excelente se você gosta de histórias de crimes ou assassinatos com bastante foco nas relações e nas ambientações do drama, bem como se você aprecia enredos que discutem questões filosóficas e que colocam a humanidade e suas emoções em cheque ao apresentar a beleza e o terror por trás dos atos que tomamos.

A HISTÓRIA SECRETA

Autor: Donna Tartt

Tradução: Celso Nogueira

Editora: Companhia das Letras

Ano de publicação: 2014

Donna Tartt surpreende pelo talento com que combina a densidade psicológica e o vigor poético de um texto clássico com a trama complexa e o ritmo alucinado dos melhores romances policiais contemporâneos. Quem conta a história é Richard Papen, garotão da ensolarada Califórnia que consegue ser admitido na seleta Hampden, uma universidade em Vermont freqüentada pela elite norte-americana. Richard imagina ter atingido o Olimpo ao entrar para o círculo mais privilegiado daquela universidade. Cinco alunos, sofisticados e originais, selecionados por um mestre erudito e carismático, dedicam-se ao estudo da Grécia antiga. A eles junta-se o narrador, para participar da busca da verdade e da beleza, entre festas orgiásticas e finais de semana numa antiga casa de campo, regados a muito álcool e discussões filosóficas. A loucura desmedida certa vez termina numa orgia cujo ponto culminante é um ato de violência inominável e o suposto aparecimento do próprio Dioniso, numa de suas diversas manifestações.Quando descobre a terrível verdade, Richard envolve-se numa cadeia de segredos e cumplicidades, num encadeamento de medos e inseguranças que leva o grupo a cometer um ato ainda mais terrível. Melancólico e irônico, este é um romance feito de terror e prazer, remorso e decepção. Com ele, Donna Tartt revelou-se uma grande escritora já em seu livro de estréia. “Como estudo do remorso e seus efeitos na mente, do homem ‘bom’ que mata, A história secreta é um livro comovente e profundo. Como thriller, é um dos melhores que já li. Mas, como romance de estréia, é realmente espantoso.”Ruth Rendell”Donna Tartt vai muito além da conhecida combinação de sexo, drogas e rock and roll: ela mergulha tão fundo quanto qualquer tragédia grega no desespero e na decepção humana.”Newsday

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