Primeiro livro de uma trilogia, foi publicado em 2019 pela editora Globo Livros da autoria do jornalista brasileiro Laurentino Gomes.

Sobre o Livro

Com intuito de atualizar o nosso conhecimento sobre o nosso passado escravocrata, e até esboçar o passado escravocrata da humanidade, Laurentino Gomes imerge os leitores em um convite para recontar o que aconteceu com nossos ancestrais vindos de um continente explorado pelo homem europeu.

Neste primeiro livro, em uma sequência de três, tratará principalmente de como se iniciou a escravidão no Brasil, desde os motivos que interessaram os portugueses a escravizar negros do continente africano, até os lucros e a rotatividade do comércio por trás do famoso ganha-pão dos comerciantes de escravos do Atlântico. Não se deixa faltar de mencionar os heróis abolicionistas como Zumbi dos Palmares.

[…] Mantemos com nossa raiz africana uma relação contraditória, marcada por duas atitudes extremas: de um lado, o mais cru preconceito racial; de outro, a celebração ufanista e irreal das heranças africanas, como nos festejos de Carnaval.”

Conectando o passado com o nosso presente, em uma forma jornalística de narrativa, Laurentino apresenta não só elementos do passado brasileiro, como resquícios dos povos africanos independentes que foram submetidos ao processo colonialista europeu e muitos governantes seduzidos a escravizarem seu próprio povo. Os dias de hoje, é um reflexo do passado letal e colonial do Brasil, como uma grande cicatriz.

Elaborado a partir de uma pesquisa com duração de seis anos, passando por doze países em três continentes diferentes, o passado histórico brasileiro é desmascarado por sua crueldade, perseguição, genocídio em massa e peregrinação território à dentro. O objetivo por trás da morte de milhões de negros africanos durante dois séculos foi unicamente enriquecer um único país europeu.


Minha Opinião

Conhecido nacionalmente por ser autor dos sucessos de venda de 1808, 1822 e 1889 que abrangem o início do período monárquico no Brasil até a proclamação da república dada pela elite, Laurentino Gomes avança suas fronteiras para tratar dos conflitos étnicos e racial. Apresentando de forma cativante e jornalística, nunca pude negar a capacidade que o autor tem em enriquecer mentes com simples palavras.

De início nos é apresentado o passado da escravidão no mundo. Desde seu início conturbado e indefinido de anos antes de Cristo, o autor nos mostra o quão a escravidão era emancipada da questão da cor de pele. Antes, muito antes dos portugueses escravizarem os povos africanos, escravo era aquele oriundo da região eslava: olhos azuis, pele branca e cabelos loiros. Uma realidade totalmente diferente ao qual conhecemos hoje.

A seguir, ele nos apresenta a construção e evolução da escravidão no Brasil: os primeiros leilões em Portugal e no Brasil, as primeiras invasões no continente africano e os primeiros líderes de povos oriundos do continente invadido que ora ajudavam os invasores e comercializavam seu povo ou ora eram donos de movimentos reacionários à invasão europeia em suas terras.

Tudo se completa quando, ao se alargar na leitura, percebemos o quão intrínseco se tornou a utilidade do escravo. Desde aspectos econômicos quanto ao lucro e ao movimento do comércio de escravos, até as primeiras crises do sistema escravocrata. Altas taxas de mortalidade, baixos lucros, alta demanda nas terras de cultivo de açúcar brasileiro e condições desumanas, são elementos muito presentes que Laurentino nos mostra como se fossem grandes provas contra um caso criminal.

[…] Nas minhas viagens de pesquisa, pude constatar que a África real, em muitos aspectos, assemelha-se ao Brasil. Tem, sim, pobreza, corrupção, mazelas e problemas. Ao mesmo tempo, tem países de economia dinâmica, gente trabalhadora e empreendedora, legiões de estudantes que, em número cada vez maior, frequentam universidades e centros de pesquisa.”

Tudo se completa com suas jogadas entre o passado e o reflexo de hoje. A questão da culpa pelo passado, das origens, da herança da arquitetura brasileira em Ghana e países vizinhos e, principalmente, dos costumes. A mandioca. O inhame. O samba. O Candomblé. Elementos que compõe nossa etnia, nossas crenças, nossa dieta e nosso conflituoso racismo herdado pelo passado trágico.

Somos apresentados também à figuras importantes na composição da história. Desde heróis abolicionistas esquecidos como Zumbi dos Palmares um estrategista que se equivalia a Alexandre, O Grande ou até Napoleão Bonaparte; ou Catarina de Bragança, filha do rei D. João XIV que graças a ela, sua pessoa é referência do bairro Queens em Nova York, Estados Unidos. Um dos bairros mais diversos etnicamente do mundo. E além disso, influenciadora dos costumes ingleses, uma portuguesa que trouxe o hábito do consumo de chá. Laurentino ainda esboça os perfis de líderes africanos como Jinga, na Angola, uma mulher astuta e ambiciosa que ainda hoje é possível ver sua estátua na capital do país, venerada pelo movimento comunista.

É ou não é um livro digno para quem se aventura em entender o passado histórico? Sendo só o primeiro livro, muito ainda está por vir. Mas, assim como Laurentino afirma, sempre será impossível atingir a totalidade do entendimento da escravidão. É algo tão complexo e tão comum como se fosse algo natural da raça humana. Aqui, nos colocamos a questionar: quem nós somos e por que nós nos colocamos tão violentos consigo mesmo?

ESCRAVIDÃO

Autor: Laurentino Gomes

Editora: Globo Livros

Ano de publicação: 2019

Depois de receber diversos prêmios e vender mais de 2,5 milhões de exemplares no Brasil, em Portugal e nos Estados Unidos com a série 1808, 1822 e 1889, o escritor Laurentino Gomes dedica-se a uma nova trilogia de livros-reportagem, desta vez sobre a história da escravidão no Brasil. Resultado de seis anos de pesquisas e observações, que incluíram viagens por doze países e três continentes, este primeiro volume cobre um período de 250 anos, do primeiro leilão de cativos africanos registrado em Portugal, na manhã de 8 de agosto de 1444, até a morte de Zumbi dos Palmares. Entre outros aspectos, a obra explica as raízes da escravidão humana na Antiguidade e na própria África antes da chegada dos portugueses, o início do tráfico de cativos para as Américas e suas razões, os números, os bastidores e os lucros do negócio negreiro, além da trajetória de alguns de seus personagens mais importantes, como o Infante Dom Henrique, patrono das grandes navegações e descobrimentos do século XV e também um dos primeiros grandes traficantes de escravos no Atlântico. Esta é uma história de dor e sofrimento cujos traços ainda são visíveis atualmente em muitos dos locais visitados pelo autor, como Luanda, em Angola; Ajudá, no Benim; Cidade Velha, em Cabo Verde; Liverpool, na Inglaterra; e o cais do Valongo, no Rio de Janeiro.Os dois volumes seguintes, a serem publicados até as vésperas do bicentenário da Independência Brasileira, em 2022, serão dedicados ao século XVIII, o auge do tráfico de escravos, e ao movimento abolicionista que resultou na Lei Áurea de 13 de maio de 1888, chegando até o persistente legado da escravidão que ainda hoje assombra o futuro dos brasileiros.

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