Lançado originalmente em 1881, Memórias Póstumas de Brás Cubas é uma das maiores obras de Machado de Assis e anualmente ganha diversas versões diferentes, incluindo e-books organizados pela Editora Câmara em 2018.

Sobre o Livro

Narrado pelo “defunto autor”, Brás Cubas, o livro apresenta com muita ironia e a boa critica machadiana o universo em que cresceu esse personagem tão memorável da literatura brasileira, misturando lembranças, delírios, aventuras da juventude e amores nada pueris do nosso narrador morto e mesclando cada um desses elementos com uma boa dose de críticas a elite brasileira da época.

 “Mas, na morte, que diferença! que desabafo! que liberdade! Como a gente pode sacudir fora a capa, deitar ao fosso as lantejoulas, despregar-se, despintar-se, desafeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos; não há plateia. O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o território da morte.”

Dedicando o livro aos vermes que irão roer seu cadáver, Brás Cubas promete ao leitor um relato verdadeiro, pois agora livre de qualquer amarra social em vida, ele pode narrar com total honestidade tudo que viveu em sua jornada pré-morte, contando desde momentos da sua infância até os segundos finais de sua vida. Passando por personagens como Virgília, seu grande enlace amoroso guiado por boa parte de sua vida, Quincas Borba, uma espécie de projeto de filósofo que ele reencontra em seu caminho e pela presença de elementos típicos da alta sociedade do período, “Memórias Póstumas de Brás Cubas” inaugura uma subversão do tipo de produção literária que estava sendo produzida na época e consagrou-se como um dos livros mais importantes o panorama literário brasileiro.


Minha Opinião

É quase uma missão impossível falar de um livro tão famoso e importante para a produção literária nacional como “Memórias Póstumas de Brás Cubas” é. Acredito que muitos de nós conhecemos o nome do livro e do seu autor muito antes de ir para o livro em si, o que por vezes gera experiências não tanto positivas para um primeiro contato com uma história tão ironicamente divertida quanto essa. Porque, no fundo, é isto: essa é uma história que te faz rir. E justamente porque Machado de Assis era tão bom em criar uma narrativa sarcástica e irônica que não tem como não dar sorrisinhos de nervoso, de divertimento ou de constrangimento a cada momento que uma crítica é brilhantemente feita a algo que até os dias de hoje é reconhecível como falhas da nossa sociedade.

Lembro que quando li esse livro na escola, boa parte da minha concentração estava em acumular as informações que poderiam ser cobradas em prova, o que fez com que esses momentos envolventes, divertidos e acidamente críticos passassem apenas como uma informação a mais e não como algo que eu realmente desejasse ler. Hoje, lendo o livro sem nenhum propósito além de me dedicar integralmente a ele, percebo exatamente todos os pontos que tantos professores ressaltaram nas aulas e que comprovam o que o torna tão especial a ponto de ser a obra que é hoje: Machado é brilhante da dedicatória até as últimas páginas, pois todos os elementos, do sarcasmo a emoção, são todos descritos na proporção certa para tornar essa história especial, única e que jamais poderá ser repetida com os mesmos toques e a mesma presença que o livro firma no panorama literário nacional.

 “Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes”

Brás Cubas é um narrador completamente não nobre em suas atitudes, fugindo assim do herói ideal do romantismo tão comum no período literário anterior. Mimado desde a infância, pouco ligado aos estudos, zero preocupado em manter relações ilícitas com uma mulher casada e mesquinho ao desprezar uma moça por ser coxa, Brás Cubas em nenhum momento esconde sua personalidade não vangloriosa e é justamente a franqueza de suas confissões que tornam suas descrições de lembranças e momentos tão interessante. Livre das amarras da vida, o narrador defunto divaga nas páginas sobre sua criação, sobre as pessoas com quem trabalhou e conviveu, sobre seus amores nada similares ao ideal de romance que geralmente encontramos em narrativas e, principalmente, divaga consigo mesmo sobre as não realizações de sua jornada.

Compreender o quando de negativas de eventos aconteceram em sua trajetória é o que faz do livro uma combinação ainda mais interessante, uma vez que em uma de suas mais famosas citações, é justamente sobre sua falta de realizações que Brás Cubas se orgulha. E, de fato, é isso o que acontece na história. Não há grandes feitos, não há momentos de ápices nervosos, gloriosos ou dramáticos. O enredo é pura e simplesmente a passagem das memórias de um homem da alta sociedade, cuja a vida fácil nunca lhe causou problemas e cujos os amores nunca foram para frente e que tem em toda a sua trajetória momentos comuns narrados com sábia e produtiva ironia, objetividade e com detalhes sutis simbólicos de críticas ainda maiores aos comportamentos, ações e estereótipos dos personagens com quem Brás Cubas interage.

Mais divertido do que assustador, Memórias Póstumas de Brás Cubas é especial justamente porque cada um de seus detalhes importam, mesmo que nenhum ápice narrativo esteja esperando em seu enredo. Afinal, já sabemos praticamente tudo: o nosso narrador morreu e já começa descrevendo a cerimonia de seu enterro. Ele não teve grandes feitos em sua vida e muito menos estava junto de alguém quando parte do mundo terreno. Isso é tudo o que precisamos para embarcar na jornada de detalhes, descrições e construções de personagens com gosto. Com capítulos curtos – que de certa forma brincam com a própria criação literária, uma vez que há capítulos em que cenas são descritas justamente pela falta de narração, tais como “O velho diálogo de Adão e Eva” -, o livro flui de forma rápida e a espontaneidade com que nosso narrador defunto conta a narrativa torna tudo ainda mais envolvente.

Brás Cubas também usa da metalinguagem com primazia ao constantemente conversar com o leitor não apenas sobre sua trajetória, mas sobre suas decisões criativas. Contar um fato ali ou prometer falar apenas depois, dizer que determinado capítulo não saiu como o esperado, falar de como ele acredita que o leitor irá recepcionar a história e etc. São elementos como esse que também o auxiliam a concretizar sua espontaneidade, quase tornando a leitura um diálogo com ele e provando mais uma vez o quão conscientemente a narração é para construir tais elementos que a firmam como algo único em si mesma.

“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”

Pensando em “Memórias Póstumas” dentro dessa experiência tão empolgante quanto viciante, é fácil entender então porque Machado de Assis tornou-se a referência que é para a literatura brasileira. São suas decisões, simbologias, descrições e construções de enredo, narração e trama que tornam o livro uma experiência envolvente e única, algo que ao finalizar a história sentimos que não encontraremos em lugar algum além dali. Antonio Candido, grande teórico dos estudos literários no Brasil, percebia Machado de Assis como aquele que representaria a consolidação da formação da nossa literatura.

E é, sem dúvidas, isso que Machado representa. Consciente de seu papel enquanto autor, Machado foi antes crítico e estudioso do território literário e sabia quais pontos poderiam ser aproveitados de outros modos. Inovando de forma consciente, suas histórias abrem e firmam caminhos novos para a literatura e com isso ele inspirou tantas outras narrativas que viriam depois. Com isso, é possível ver em “Memórias Póstumas de Brás Cubas” exatamente todos os elementos que explicam porque juntos, autor e obra, ocupam tamanho espaço de destaque nas bibliotecas, escolas e livrarias brasileiras.

Rápido, ácido, divertido e sútil de forma objetiva e envolvente, “Memórias Póstumas de Brás Cubas” não apenas é recomendado por si mesmo enquanto um dos livros mais importantes da literatura brasileira, como também é a escolha certa para quem quer dar uma chance aos clássicos de uma forma curiosa, divertida e que ainda promova de brinde reflexões sobre o que é bem e mal, justo ou injusto, certo e errado quando se tem um narrador morto contando o que de digno e indigno a sociedade brasileira tem a oferecer.

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS

Autor: Machado de Assis

Editora: Edições Câmara

Ano de publicação: 2019

Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), um dos principais romances da literatura brasileira, inaugura a fase madura de Machado de Assis e concretiza o ideal estético que consagrou o autor e marca sua obra. Revolucionário e provocativo, o romance rompe com tradições literárias e sintetiza a crítica machadiana à elite brasileira da época. Um dos personagens mais populares da nossa literatura, Brás Cubas é um defunto-autor que dedica sua obra ao verme que primeiro roeu as frias carnes de seu cadáver. O protagonista narra suas memórias, intercalando episódios, delírios, reflexões e teorias, não poupando ninguém do seu olhar crítico e expondo as atitudes mesquinhas que teve em vida. É definitivamente uma obra imperdível que, com linguagem fluente e coesa, conduz sedutoramente o leitor por uma narrativa que deixa nas entrelinhas muito material para reflexões mais profundas.

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