Lançado originalmente em 1853, A Casa Soturna é um dos grandes romances clássicos de Charles Dickens e foi publicado no Brasil em diferentes edições, dentre elas a da editora Nova Fronteira, sob o selo Biblioteca Áurea.

Sobre o Livro

Apresentando uma narrativa em primeira e terceira pessoa, A Casa Soturna apresenta a história das vidas afetadas pelo infame e jamais concluído caso “Jarndyce e Jarndyce”, que há tantos anos reside nas cortes legislativas e jurídicas de Londres e já virou uma piada comum aos relatores. Acumulando ódios, perdas e uma disputa eterna sem nenhuma perspectiva de conclusão, vemos sob os olhos da órfã Ester Summerson o interior da casa soturna, local onde a moça é acolhida por seu tutor junto de dois outros jovens, também envoltos nesse grande redemoinho judicial.

“Esta é a Corte de Justiça que tem casas decadentes e terras estéreis em cada condado; que tem seus malucos alquebrados em cada hospício e seus mortos em cada cemitério; que tem seus demandantes arruinados, de calcanhares cambados e roupas coçadas, correndo a roda dos conhecidos, a fazer empréstimos e a pedir dinheiro; que dá aos poderosos endinheirados os meios abundantes de fatigar o direito; que de tal modo exaure finanças, paciência, coragem e esperança, de tal modo arruína o cérebro e destroça o coração, que entre seus profissionais não existe um homem honrado que não dê – que muitas vezes não dê – o seguinte conselho: “suporte toda e qualquer injustiça que lhe hajam feito, em vez de vir pedir justiça aqui”.

Ao lado de Ester, temos também um narrador que vagueia de ambientes nobres para cenários de total miséria e desolação, apresentando personagens cujas vida foram destruídas pela hipocrisia de suas causas ou pela injustiça e desigualdade social que cercam a sociedade da época. Há alguma justiça possível em um caso que já degradou tantas vidas? Quantos inocentes foram e ainda serão puxados para esse mesmo espiral de amargor, mágoa e incerteza?

E, para além dos impactos individuais, o que a total incompetência da legislação e do judiciário para dar conta de um caso como os do Jarnydce pode revelar sobre a incompetência da própria sociedade em dar conta das suas inúmeras falhas e deficiências sociais que tanto consomem vidas?


Minha Opinião

Possuindo há muito tempo uma paixão especial pela escrita de Dickens, posso afirmar com um pouco de pesar, mas total honestidade, que a “A Casa Soturna” foi o livro mais difícil do autor que já li e que exigiu de mim muita atenção, bem como muitas batalhas para com a narrativa. Elogiado por muitos críticos como sendo sua narrativa mais rica e madura, parte do que sinto que foi meu entrave inicial com a história foi a dificuldade de estabelecer empatia com os personagens, elemento esse tão fácil de se conseguir em outros livros do autor que já li anteriormente. Foi meio aos trancos e barrancos que a leitura de A Casa Soturna foi feita e, no fim, há uma mistura de admiração com decepção ao fim da experiência de passar por essa história.

Uma das coisas que mais admiro em Dickens é sua brilhante habilidade de construir personagens que são ao mesmo tempo o arquétipo de bondade e um poço de sucessivos erros humanos banais que causam consequências desastrosas. É essa humanidade genuína que faz de David Copperfield, Pip, Agnes e tantos outros personagens o que há de mais especial nas histórias do autor, foi por suas tramas me empolguei, com seus medos que me envolvi e com suas atitudes e decisões que admirei e relutei em deixar esses personagens para trás quando alguma leitura havia sido concluída.

Dickens não escreve bem apenas seus personagens principais; em seus livros e contos, mesmo os secundários têm extremo desenvolvimento ficcional e narrativo e possuem tanto ou mais capacidade de conquistar e provocar emoções no leitor do que os próprios narradores e protagonistas da história. Vinda de uma experiência como essa em livros anteriores, foi com uma pequena frustração que me deparei com a dificuldade em me conectar com os personagens de A Casa Soturna para além de Esther. Talvez por Ester ser a narradora que mais se aproxima do leitor, é dela que é mais fácil gostar quando estamos acompanhando a trama e é até proposital esse efeito, considerando que Ester é a personagem mais típica de romances que podemos conhecer: genuinamente boa e aberta a sentir empatia pelo próximo, Esther fornece os olhares mais doces e mais pesarosos do livro e não à toa é em torno dela que ficaram os núcleos mais interessantes.

Em contrapartida, a narração que vagueia de forma mais impessoal entre diferentes núcleos menores de personagens, dividindo assim o livro com a perspectiva de Esther, sofre muitas vezes por não conseguir estabelecer laços o bastante entre o leitor e a trama relatada. É fácil entender que determinados personagens estão ali para complementar a construção da crítica social que está sendo feita por todo o livro e também para sedimentar os caminhos para os mistérios deixados ao redor do enredo. Contudo, comparados a forte presença de Ester na trama, tais passagens acabam soando muitas vezes cansativas. Não deixam, claro, de ser lindamente escritas e de possuir o toque de humor dickensiano que é tão característico. Mas não geram a mesma emoção que outros momentos, sob o ponto de vista de Esther e em torno dos personagens que pairam ao seu redor.

“Sua mãe, Ester, é a sua desgraça e você a desgraça dela. Tempo virá, e não demorará muito, em que você compreenderá isso melhor e também o sentirá como ninguém pode sentir senão uma mulher.”

Com uma história tão longa, há diferentes assuntos abordados na obra para além da questão Jarndyce, o que foi muito interessante. Uma das tramas mais curiosas e que mais gera reflexões giram em torno da família Jellyby; com uma mãe que está muito mais ocupada com os negócios na África do que dentro de casa, vemos na jovem Caddy o sofrimento de uma filha que sozinha vê o estado lamentável em que sua família fica ao ser deixados de lado pela figura materna. Foi essa a primeira trama que modelou um conceito que percebi que permeia a história inteira e talvez seja a real temática da trama: toda a história de A Casa Soturna gira em torno da hipocrisia.

Seja do caso Jarndyce e da incompetência dos judiciários, seja na mãe de Caddy e seu total abandono da família ou mesmo na figura indecisa e instável de Ricardo e no passado misterioso de Ester, com sua tia que a cuidou com tanta rigidez, mas que escondia segredos por trás dos panos que revelam que mesmo as pessoas que se entendem como as mais corretas podem cometer erros que machucam diversas relações ao seu redor.

O humor de Dickens permeia boa parte das narrações mais impessoais, o que é extremamente divertido já que as maiores críticas vêm em passagens bem irônicas que desdenham de alguma atitude ou pensamento de determinados personagens. Sendo um livro robusto e muito extenso, as passagens mais irônicas e sarcásticas ajudam a aliviar o clima e facilitar a leitura. Contudo, mesmo momentos como esse não tiram a lentidão com que a leitura de A Casa Soturna precisa ser feita.

Diferente de outros livros do autor, esse é um romance muito difícil de engatar e que por vezes tira um pouco o ânimo de ser lido. Por essa razão esse é um livro que não me conquistou como os outros e acabou sendo uma leitura um pouco mais tediosa. É, claro, uma leitura que vale a pena pela construção crítica e pela complexidade das tramas apresentadas e é por essa razão que segue sendo uma recomendação gigantesca da produção do Dickens, porém é importante já se precaver para uma experiência de leitura que vai exigir muita atenção e bastante tempo para ser dedicado a conhecer o livro.

A CASA SOTURNA

Autor: Charles Dickens

Tradução: Oscar Mendes

Editora: Nova Fronteira

Ano de publicação: 1853

Publicado em 1853 e considerado pela crítica o romance mais perfeito de Charles Dickens, A Casa Soturna traz à luz questões fundamentais de vida e sociedade, pondo em xeque o sistema judiciário inglês do século XIX. Enquanto o caso Jarndyce e Jarndyce se arrasta nos tribunais, gerações das famílias envolvidas vão herdando “ódios lendários” na tentativa de resolver a disputa em torno de uma propriedade. Traçando um percurso das zonas mais pobres de Londres às mansões da nobreza, Dickens elabora uma narrativa que envolve mistério, assassinato, redenção e até mesmo a descoberta do amor ao mesmo tempo que, com uma perspicácia bem-humorada, critica as estruturas sociais e a morosidade da justiça.

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