Ano Um é o primeiro livro da série Crônicas da escolhida, escrita por Nora Roberts e lançado em 2019 no Brasil pela Editora Arqueiro.

Sobre o Livro

Em um piscar de olhos a humanidade tem sua rotina social alterada drasticamente quando uma doença misteriosa passa a contaminar várias pessoas ao redor do mundo. Sem saber quem foi o paciente zero é impossível achar a causa e muito menos a cura. A doença mata em questão de dias e o mínimo contato com o infectado já é o suficiente para condenar quem está ao seu redor. Em semanas, fronteiras são fechadas, líderes políticos morrem e nenhuma tentativa de esconder a gravidade da situação consegue mudar o que está acontecendo: o mundo não é mais o mesmo e aqueles que querem sobreviver precisam fugir e encontrar um caminho para reconstruir o que ainda resta de sociedade.

Em meio ao colapso sanitário, ruas destruídas, cadáveres apodrecendo em casas e formações de gangues que saqueiam residências vazias, há algo além da doença para se preocupar: desde que o mundo que era conhecido sucumbiu, um tipo estranho de magia começa a surgir em alguns dos sobreviventes. Mas quando tudo já colapsou, essa magia vai ser usada para o bem ou para o mal?

“Quando puxou o gatilho e derrubou o faisão, Ross MacLeod não tinha como saber que havia matado a si mesmo. E bilhões de outras pessoas.”

É isso que Lana e Max precisam descobrir quando fogem pelas ruas de Nova Iorque tentando contatar os parentes que ficaram perdidos em meio ao caos. Com esse novo estranho poder que surgiu neles sem explicação, o casal tenta compreender o que são capazes de fazer com a magia que possuem ao mesmo tempo que tem que lidar com as turbulências de uma sociedade que luta para sobreviver.  

Rachel e Jonah, dois profissionais da saúde, também tentam encontrar um meio de se refazer após perderem tudo. Jonah consegue adivinhar quando as pessoas vão morrer e seu caminho vai cruzar com uma mulher que acabou de ter filhos em meio a essa situação absurda. Outros personagens também estão em suas próprias fugas e é nessa jornada para escapar da doença, das perdas e das perseguições, que o caminho de todos esses personagens vai se cruzar. Uma única pergunta guiando suas trajetórias: quando a humanidade acaba, existe alguma possibilidade de recomeço?


Minha Opinião

Confesso que quando abri as páginas desse livro eu fui com a expectativa mais baixa possível. Sabe aqueles preconceitos bem chatinhos que a gente cria quando um autor é muito famoso e seu nome sempre está em algum livro a venda em alguma loja? Era isso o que eu sentia com a Nora Roberts. E, felizmente, mordi a língua por ter duvidado da capacidade dela de criar histórias viciantes e empolgantes, pois Ano Um foi uma das grandes boas surpresas do meu ano de leituras.

De uma perspectiva em retrospecto, a trama que guia Crônicas da Escolhida chega a ser tristemente irônica. Li essa história antes de toda a situação na saúde que estamos vivemos em 2020 começar. Ainda era janeiro de 2020, as notícias não tinham começado a circular com tanta intensidade, a gente ainda podia sair normalmente nas ruas. O livro ainda era só um livro e não uma correlação com a realidade. É nesse aspecto que pensei no meu modo de avaliar a história, não sei como eu pensaria nela numa releitura, já com outra visão de uma situação similar, mas acredito que não mudaria tanto assim minha perspectiva.

“Estou mentindo’, pensou, enquanto prosseguia. Mentindo porque tenho medo de dizer a verdade.”

Penso isso porque a narrativa de “Ano Um” é essencialmente feita para discutir as histórias de humanos em meio a uma doença que alcança o estado de pandemia e, nesse aspecto, ela trata os sentimentos, as dores e os medos dos personagens de uma forma bastante respeitosa e singela. É ficção e ainda ficção misturada com elementos fantásticos, então tudo o que podemos fazer é sentir empatia pelo que os personagens sentem. Sentimos quando eles perdem alguém, temos medo quando eles estão encurralados, ficamos desiludidos com os rumos que a trama leva ao retratar o estado que a sociedade ficou e sentimos esperanças nos pequenos momentos de alegria, quando vemos que ainda existe um pouco de solidariedade e união na qual acreditar.

O maior acerto da Nora Roberts para mim foi em abordar de forma tão intensa essas questões sobre a humanidade. O livro é excelente em mostrar o desgaste dos laços humanos quando as pessoas são obrigadas a viver no extremo da sobrevivência, em expor como é difícil confiar em alguém quando todo mundo está tentando proteger a própria vida e já não aguenta mais sofrer perdas.

Uma das problemáticas do livro, inclusive, trata sobre a ocultação de dados do governo. Arlys é uma das narradoras da trama e seu trabalho como jornalista é colocado a prova quando ela descobre que as ordens da casa branca mandam ela não revelar os verdadeiros dados sobre os números de mortes para não apavorar ainda mais a população. Nora Roberts tratou com excelência o conflito da personagem e tornou extremamente fácil para os leitores se apagarem a ela e a sua narrativa.

Os demais personagens também são extremamente envolventes, Lana e Max, os dois mais relacionados ao elemento fantástico que também consta na trama, são personagens por quem rapidamente torcemos e por quem sofremos também. O casal tem um relacionamento muito bem estruturado e bastante saudável, ver a dinâmica dos dois em meio a situação caótica e de fuga que eles vivem é uma diversão positiva. Como o arco deles é completamente permeado pela tal magia misteriosa que passa a gerar poderes em alguns humanos, é na trama dos dois que vemos uma outra problemática bastante abordada por Nora nessa história: o preconceito e o egoísmo humano.

“A Catástrofe espalhava seu veneno com extrema rapidez, enquanto as magias, tanto a luz quanto a escuridão, se levantavam para preencher o vazio deixado pela morte. O que restaria ao fim de tudo?”

Lana e Max não são os únicos “mágicos” que aparecem, e é acompanhando o contato deles com outros personagens que também ganharam poderes, que vemos o quanto a magia recebida podia ser um artificio para o bem, mas que nas mãos de alguém desesperado ou egoísta, acabou sendo usada para o mal. Gangues de pessoas com poderes mágicos passam a furtar, escravizar e matar seres humanos normais que não sucumbiram a doença. Na mesma proporção, os humanos comuns que restaram passam a reagir ao medo dos seres “mágicos” utilizando violência: crianças com poderes acabam mortas ou torturadas nos locais em que sobrou algum resquício de sociedade. Todo o plot da magia gira em torno da intolerância que surge em meio a uma situação de total desordem social.

Porém, confesso que os elementos mágicos e fantasiosos foram justamente a parte que menos gostei na história. Acabei lendo o livro sem saber nada sobre ele, nem olhei a sinopse. Quando comecei, o que me pegou foram as tramas dos personagens em meio ao cenário real que uma pandemia como a descrita deixou para eles. Gostei de acompanhar a busca deles por resgatar uma sociedade desfalcada, por buscar uma cura, por entender o que fazer dali em diante e como se motivar a viver. Quando vi que tinha magia, foi estranho. Principalmente quando os elementos mágicos passaram a girar ao redor de profecias e encaminharam o livro para o seu final. Não desgostei totalmente do encerramento e do gancho que foi deixado para o livro seguinte, mas acho que meu núcleo favorito ainda foi o que se aprofundava nas questões sociais, éticas, cientificas e políticas da situação.

Contudo, o livro ainda foi extremamente satisfatório e surpreendente. Para quem achava que não ia gostar e tinha tantos preconceitos em relação a autora, foi uma grata surpresa ver que eu estava errada em julgar apenas pelo que presumi das suas narrativas e escrita. Nora Roberts sabe fazer personagens cativantes, uma trama envolvente e criar mistérios que fazem a gente se fixar no livro ao ponto de quase virar a noite para saber o que acontece. Se você gosta de narrativas com bons personagens, mistérios mágicos, questões éticas em meio a situações “no limite” e tem curiosidade em ler algo que trate de forma ficcional sobre cenários de calamidade na saúde, Ano Um é um livro que vai te surpreender e intrigar.

ANO UM – CRÔNICAS DA ESCOLHIDA

Autor: Nora Roberts

Tradução: Simone Lemberg Reisner

Editora: Arqueiro

Ano de publicação: 2019

Tudo começa na noite de Ano-Novo. Uma doença se alastra rapidamente. Em questão de semanas, a rede elétrica para de funcionar, as leis e o sistema de governo entram em colapso e mais da metade da população mundial é dizimada. Enquanto a ciência e a tecnologia perdem influência, a magia cresce. Por toda parte, pessoas descobrem em si poderes que jamais imaginaram. Alguns procuram fazer o bem, como Lana e o namorado, Max, mas a súbita onda de poder também deturpa mesmo aqueles que pareciam incorruptíveis. Fugindo das autoridades que patrulham as ruas devastadas, Lana e Max resolvem deixar Nova York e rumar para um lugar seguro. Outros viajantes também seguem esperançosos: Chuck, um gênio da tecnologia que mantém o bom humor em um mundo off-line; Arlys, uma jornalista que insiste em buscar e registrar a verdade; Fredinha, uma jovem com habilidades florescentes; Rachel e Jonah, uma médica e um paramédico determinados a proteger uma mãe e seus três bebês recém-nascidos. Em um mundo em que cada estranho no caminho pode representar a morte ou a salvação, uma profecia ancestral é capaz de transformar a vida de todos os sobreviventes. O fim chegou. O início é o que vem agora.

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