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Quem dera eu rever minha ignorância, quem dera.

A perdi e sei que jamais a verei, pois eu sei, no fundo do meu coração, que a ignorância assim como o amor da vida, é só uma e não se encontra duas vezes.

Se você que está lendo este texto, pensa em trair sua Ignorância, não o faça. Ouça o meu aviso, ela realmente não voltará. Minha ignorância, depois de traída, nunca mais apareceu na minha frente e nem me ligou.

A realidade foi a culpada pelo término do meu relacionamento com a ignorância, e o pior eu nem notei que estava tão envolvido. Mal eu sabia que ela esteve comigo em todas as etapas da minha vida, me observando, me esperando, me desejando.

No meu nascimento, lá estava ela, enquanto minha mãe dava a luz, e me amava ao primeiro deitar de olhos, a realidade deitava uma criança na grama de alguma beira de rio.

Enquanto, a Ignorância me embalava em ternos braços e brincadeiras, a realidade espreitava, suspirando, do olhar daquele guri que eu não vi passar no sinal, que não teve a mesma sorte.

A realidade me seguia todo dia, e eu a ignorava, apaixonado pela Ignorância. Afinal, a Ignorância era linda, toda vestida de rosa, me dizendo exatamente o que eu queria escutar, não precisava de mais nada.

Mas, humano que sou, um dia olhei pro lado e deitada no chão frio, suja e com cheiro de álcool, de relance vi as primeiras cores do seu olhar.

Mas, como estava de mãos dadas com a Ignorância, simplesmente a ignorei. Mas ao deitar a cabeça no travesseiro quando enfim cheguei em casa, não consegui dormir, segui pensando nela. Não entendia o que havia visto, e também o porque do espaço antes exclusivo da Ignorância agora ser preenchido pelo olhar verde claro daquela estranha. Mesmo que por um lampejo, o sorriso irônico dela havia sido gravado a ferro quente no meu subconsciente.

Segui minha vidinha-medíocre-feliz, mas a Ignorância sentiu, assim como toda mulher, que meu pensamento voava e não estava mais ali. Eu mesmo não havia notado, me enganava que nada havia ocorrido.

Então, em um fatídico dia, eu saí de casa sem a Ignorância. Deixei ela dormindo, sem rugas, sem vícios, sem defeitos, com a lingerie perfeita e em um sono tranquilo, para andar solitário pela rua. Eu já estava apaixonado.

Olhei no jornal, a vi em todas as notícias. Olhei ao meu redor na rua e minha miopia fiel à Ignorância não me cegava mais, e em cada esquina, tiritando de frio, via parte dela.

Senti o seu toque frio, quando o cano do revólver encostou nas minhas costas. Ouvi seu sussurro que gritava ordens ao meu ouvido. Fui jogado contra o chão e vendo o homem com os meus pertences correr até desaparecer na esquina, olhei pra cima. Lá estava ela, sentada no parapeito do prédio vizinho, encostada em uma parede cheia de picho. A realidade me observava plongé, completamente nua, de pernas cruzadas e pés descalços, vestindo somente o seu olhar e seu sorriso carnívoro.

Meu coração retumbava ao ritmo do sons de sirenes e gritos ébrios que o vento trazia aos meus ouvidos recém nascidos. Me levantei, retirei o pó dos meus joelhos e olhei novamente para cima, ofegante. Ela, como mágica, não estava mais no parapeito, mas se encontrava a alguns metros de mim. Em desfoque gaussiano e câmera lenta, vi, atônito, ela caminhar na minha direção sem nenhum pudor das suas vergonhas, sem medo dos seus defeitos. A realidade caminhava decidida, olhando de mim para o chão, de mim para a rua, e finalmente sem ter para onde olhar, se posicionou a minha frente, com os braços ao redor do meu pescoço. Pude sentir seu hálito de fumaça, seu sorriso branco e a frieza do seu corpo por cima do meu jeans. Aos poucos, aproximou seus lábios escuros dos meus e me beijou agridoce. Fechei os olhos, completo sem saber, e completamente perdido.

Nesse instante tudo acelerou novamente e tudo fez sentido. As ruas se tornaram nítidas e os sons voltaram a ribombar nos meus tímpanos.

Voltei pra casa abalado, pensando em tudo que havia acontecido. Ao chegar no prédio, meu porteiro não abriu, pois não havia nenhum. Esperei, exposto como um nervo, até que consegui abrir a porta.

Desabalado, corri o corredor em direção ao elevador, onde cheguei com estardalhaço de borracha contra pedra. Apertei em fúria muda os botões do mesmo, que piscavam moribundos, antes de lentamente se apagarem. Levantei os olhos, ofegante, e li a placa “Elevador fora de serviço”.

Subi as escadas, e na metade do caminho, senti uma dor na perna, que enrijeceu e não mais me obedeceu. Eram cãibras, me lembrando o quanto o potássio e a atividade física faziam falta na minha vida, preenchida pela Ignorância.

Entrei em casa, fechei a porta, tranquei a fechadura e segui para a cozinha, na meia luz que as cortinas baratas permitiam existir. Ao entrar na cozinha, abri a geladeira, peguei a lata de pepsi e sorvi sôfrego, me afogando no meio do percurso do início ao fim dela. Ao me virar, emoldurada pelo véu escuro que a luz da geladeira presenteava ao seu redor, estava a Ignorância. Cabelos dourados caídos em cachos perfeitos, braços cruzados com pelos dourados, camisola de seda rosada com caimento perfeito ás suas curvas, e acima do seu batom rosa claro, um olhar de pura fúria, me perfurando como lanças. Ela se aproximou de mim, e sem esboçar palavra, lentamente cheirou as minhas roupas com aquele nariz cirurgicamente perfeito. Quando deu um passo pra trás, em meio a soluços, pude antever antes de sentir o golpe da palma da sua mão, as lágrimas que nasciam dos seus olhos semicerrados de desgosto. Neste momento, ela fez as malas, e ainda de lingerie, observei ela parar no fim do corredor, em frente ao elevador, e como se auxiliada por um diretor, virou seu rosto com violência assim que a luz fria do elevador iluminou seu corpo, abduzido enfim, que não voltei a ver mais.

Quando fechei a porta, olhei pra dentro da sala e vi que não estava mais sozinho. No escuro, fracamente iluminada pela luz que entrava pela janela, pude ver a silhueta voluptuosa de uma mulher nua sentada no centro do meu velho sofá vermelho. A superfície lustrosa das suas pernas brilhava assim como seu sorriso irônico, emoldurado pelos seus revoltosos cabelos. Enquanto eu congelado observava, ela, como se fosse um ato mil vezes ensaiado, acendeu um cigarro em um movimento amarelo do isqueiro. A brasa do isqueiro iluminou as suas feições, enquanto ela puxava a fumaça e semicerrava seus olhos verdes. Seu rosto era ovalado, moreno, com traços bem marcados e bonitos. Tinha uma franja romântica, e rugas nos olhos, como se fossem recordações das gargalhadas que deu durante toda sua existência. Com a mão direita, lentamente tirou o cigarro dos lábios, me olhou uma última vez, fechou os olhos e soltou a fumaça enquanto, com visível prazer cerrava os olhos e ria baixinho. Ao baixar a mão, se inclinou lânguida e pousou o cigarro no canto da mesa de centro. Depois, em um movimento fluído pegou alguns envelopes e sentou novamente na posição de que partira.

Então eu ouvi a sua voz, pela primeira vez, mas não pela última. Ela, em meio a um riso contido, falou sedutora:
-Isso é pra ti, meu bem.

Peguei os envelopes, eram contas a pagar.

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