Lançado originalmente em 1855, “Noite na Taverna” é uma antologia nacional de contos de terror gótico escrita por Álvares de Azevedo atualmente publicada por diferentes selos editoriais, um deles sendo a Saraiva de Bolso, da editora Nova Fronteira, de 2012.

Sobre o Livro

Maior nome do ultrarromantismo brasileiro, Álvares de Azevedo reúne em Noite na Taverna uma antologia de contos de teor gótico nos quais um grupo de amigos reunidos em um bar começam a narrar histórias escabrosas que supostamente aconteceram em suas vidas.

“Morrer! é a cessação de todos os sonhos, de todas as palpitações do peito, de todas as esperanças! É estar peito a peito com nossos antigos amores e não senti-los!

Passeando por temáticas infames como necrofilia, incesto, orgias, assassinatos, sequestros, canibalismo e muitas traições, os contos se conectam pelo ambiente do bar em que as histórias são narradas, no qual os amigos passam a palavra uns pros outros e iniciam a próxima rodada de narração de histórias. De paixões desencadeadas a partir de encontros obscuros em cemitérios até adultérios que resultam em crimes sangrentos, Noite na Taverna se propõe a narrar o absurdo em cada conto sórdido da antologia.


Minha Opinião

Álvares de Azevedo sempre foi um dos autores que mais apreciei estudar nas aulas de Literatura da escola. A poesia “do mal do século” – como sua geração literária ficou mais conhecida – foi uma das mais lidas na minha adolescência e o fato de a vida do autor ter sido tão breve, o que por consequência alimentou muito do imaginário místico de sua rápida produção literária, sempre o tornou uma figura muito comentada por leitores e mesmo por críticos. Em uma análise histórica da produção do autor, o sociólogo e pesquisador literário Antônio Candido comenta um fator bem interessante sobre a produção de Azevedo:

“Se o romantismo, como disse alguém, foi um movimento de adolescência, ninguém o representou mais tipicamente no Brasil”.

Como o trecho do crítico aponta: Azevedo era um autor romântico e de uma fase desse período literário que estava imersa em referências ultrarromânticas e góticas que há muito podiam ser vistas em Lord Byron e Alfred de Musset. Também como informa o trecho, Álvares de Azevedo era jovem, um adolescente quando escrevia e um recém adulto quando faleceu aos 20 anos. Com uma vida tão curta e marcada por poesias, contos e peças tão intensas e infames, não é difícil entender porque ele representara tão bem o “romantismo como movimento de adolescência”: sendo tão jovem, Azevedo não precisava que situações reais absurdas acontecessem para sentir emoções intensamente e nem precisava viver na infâmia para escrevê-la. A ousadia, a intensidade e o moralismo culpado, típicos de jovens da época, se apresentam em seu texto naturalmente e Noite na Taverna é um exemplo disso e um marco na literatura brasileira de diferentes formas.

Escrito em formato de contos, Noite na Taverna é uma antologia de ritmo frenético, rápida de ler e que por estar inspirada na estética do gótico literário, lembra muito produções europeias da época. É conhecido entre os estudiosos que Azevedo tinha grande consideração pela produção do poeta francês Alfred de Musset, mas muito da sua escrita gótica é associada com Byron: a presença de temas imorais como orgias, necrofilia, relações incestuosas e adultérios violentos é muito mais comum nos poemas do escritor inglês. Inspirada em maior ou menor grau nesses dois autores, Noite na Taverna se tornou um ponto muito importante para o terror e o fantástico na produção literária nacional: em meio a tantas produções nacionalistas de cunho realista ou histórico que a época de Álvares de Azevedo produzia, o autor foi um ponto fora da curva ao trazer os castelos escuros, o ambiente noturno, as referências constantes a morte e ao teor dúbio entre realidade e místico.

Nos contos de Noite na Taverna encontramos uma dinâmica rápida, modelada para provocar o choque: o primeiro conto já começa em um cemitério e apresenta a paixão obsessiva de um rapaz por uma moça pálida que encontrou andando por ali. Com um final que tinha por objetivo ser assustador, o conto é uma fagulha do que o resto da coletânea vai apresentar e o teor de infâmia só fica cada vez mais forte até culminar em um final que interliga a realidade dos amigos no bar com o que seus contos relatavam. A ambientação é múltipla também: quando os contos começam, claramente há uma mudança de ambiente e muito do cenário evoca clima e ambientes mais europeus do que brasileiros. Só voltamos para o país quando os contos terminam e os amigos comentam convidam o próximo da mesa a contar sua história. Por ser tão frenético, o livro passa realmente a sensação de que estamos na mesa de bar junto com eles.

Filme nacional de 2014 inspirado em a Noite na Taverna

“O que é a existência? Na mocidade é o caleidoscópio das ilusões: vive-se então da seiva do futuro. Depois envelhecemos: quando chegamos aos trinta anos, e o suor das agonias nos grisalhou os cabelos antes do tempo, e murcharam como nossas faces as nossas esperanças, oscilamos entre o passado visionário, e este amanhã do velho, gelado e ermo – despido como um cadáver que se banha antes de dar à sepultura! Miséria! Loucura!”

Apesar da ousadia das temáticas e da escalada rápida que temos do primeiro conto para temas ainda mais espinhosos que se seguem, Noite na Taverna não deixa de conter os moralismos de seu tempo e é notável a presença narrativa da culpa. No livro, acontece a comum criação de personagens femininas que encarnam estereótipos de gênero muito presentes nas produções escritas do século XIX: mulheres anjos são as presenças femininas virginais e puras que são ameaçadas pela corrupção masculina e mulheres demoníacas são a figura feminina impura, geralmente presentes como as cortesãs, prostitutas ou adúlteras que corrompem o espaço ao seu redor e enlouquecem o personagem masculino. Poucas são as personagens que escapam dessa elaboração narrativa comum, mas uma em especial chama a atenção: a espanhola Ângela, do conto narrador por Bertram é a única personagem feminina que não tem um final violento em que acabe morrendo.

Sua construção chama a atenção porque apesar de ser uma personagem que enquadra-se no estereótipo da personagem feminina impura que causa a ruína do personagem masculino, Ângela ainda tem uma participação um tanto inovadora, principalmente considerando a época em que o livro foi escrito. No fim, os contos, por mais infames que sejam, não escapam do próprio juízo moral de seu tempo e cada transgressão é punida com tanta violência quanto como foi cometida, principalmente para as personagens femininas transgressoras. Perceber esses detalhes narrativos ajuda muito a entender o próprio terror nacional contemporâneo, em que, apesar de muitas coisas terem mudado e a presença feminina na ficção de terror ter finalmente ganhado maior profundidade, ainda é comum encontras estereótipos de gênero similares.

De todo modo, Noite na Taverna é uma produção extremamente rica para quem tem interesse em conhecer melhor da produção nacional brasileira e ver as bases de muito do que hoje é produzido no fantástico nacional. O livro ainda tem a vantagem de ser curto, rápido e dinâmico, os contos fluem muito bem e são um gostinho simples, mas bem interessante de como o terror brasileiro lidava com pautas que são polêmicas mesmo hoje.  

NOITE NA TAVERNA

Autor: Álvares de Azevedo

Editora: Nova Fronteira

Ano de publicação: 2012

Nos contos reunidos em “Noite na taverna”, os personagens, transtornados pelo vinho, amaldiçoam todos os princípios humanos para narrar fatos estranhos de seu passado. Os relatos constituem uma torrente de sentimentos e loucuras que nos remetem às mais arrebatadoras tragédias de Shakespeare. Dividida em dois episódios, a obra Macário não é facilmente classificável em um único gênero literário, e mistura características do teatro, da prosa narrativa e da intimidade própria dos diários pessoais.

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