Atenção!

Cenas fortes envolvendo violência e abuso sexual durante uma epidemia fictícia, mas que pode acabar se parecendo muito com a pandemia pela qual estamos passando em 2020.

Corpos Secos é um lançamento de 2020 da editora Alfaguara, parte do grupo editorial Companhia das Letras. Foi escrito a oito mãos, pelos autores Luisa Geisler, Marcelo Ferroni, Natalia Borges Polesso e Samir Machado de Machado.

SOBRE O LIVRO

Quatro vozes narrativas, um só cenário apocalíptico: uma epidemia, que transforma os afetados, literalmente, em corpos secos sedentos por sangue. Seis meses depois do início dessa epidemia, seguiremos a jornada de quatro dos poucos sobreviventes em busca por segurança, nem que seja momentânea.

“No princípio era o caos e a urgência; vieram então as semanas do medo, mergulhando aos poucos num silêncio moribundo; reina agora a paz da cidade morta”.

Todo esse tempo depois do seu início, será que alguma parte do nosso país resistiu à epidemia? Há esperança? Ou assistiremos esses personagens simplesmente caminharem longa e tragicamente para suas mortes?


MINHA OPINIÃO

Como confirmaram a editora e os autores em diversas entrevistas, embora o livro tenha sido lançado nos últimos meses, já estava pronto bem antes da atual pandemia tomar conta do mundo e, em especial, do nosso país. Porém, é impossível não relacionar os dois e pensar, durante a leitura, que as reações imaginadas pelos autores diante de uma epidemia fictícia não são muito diferentes do que temos observado na pandemia bem real pela qual estamos passando.

“Na escola, diziam que mais de dez mil pessoas já tinham morrido. Depois alguém dizia que mil pessoas morrem de gripe todo ano no Brasil e ninguém fica surtando por isso”.

Desse modo, não faltam elementos no livro que nos fazem pensar sobre o momento exato que estamos vivendo. Entre referências mais óbvias, como ao “mito” e a existência de um Pastor dos Mortos, que parece ser capaz de conduzir de algum modo os corpos, encontraremos outras referências menos óbvias, tanto ao nosso governo quanto a nossa sociedade de modo geral.

Os quatro protagonistas dessa história, Regina, Murilo, Constância e Mateus, estão em diferentes partes do país no início dessa história, e é muito interessante observar como as nossas cidades vão se tornando personagens também, assim como as particularidades de cada região retratada.

Embora possa ser tratado, em geral, como um thriller ou um romance de apocalipse zumbi, os autores se recusam a deixar-se fixar em uma caixinha. Eles tomam formatos tão fortemente marcados por suas referências estrangeiras e os tornam totalmente brasileiros, sem recaírem em clichês típicos desse gênero.

Isso acontece, principalmente, porque os autores escolhem focar no comportamento dos personagens, todos majoritariamente falhos, diante de uma situação extrema. É exatamente por isso, inclusive, que esse livro se torna tão forte: ele não é sobre os corpos secos; ele é sobre até onde somos capazes de ir para não nos tornarmos um.

“Se não acabar, a gente acaba. Alguma coisa vai acabar”.

Alguma nível de humanidade de fato acaba dentro das pessoas retratadas nessa história e, conforme nos vemos envolvidos por ela, passa a ser difícil para nós julgá-los, mesmo nas atitudes que antes nos pareceriam equivocadas. É uma leitura muito surpreendente, e talvez não pelos motivos que você imaginaria.

Mas é preciso fazer um alerta aos fãs de finais conclusivos: não é isso que esse livro te dará. Recebemos mais informações sobre a epidemia ao longo da narrativa, mas elas só vão até certo ponto. O final é extremamente aberto e, talvez por se tratar de uma obra com menos de duzentas páginas, ficamos com um gostinho de quero mais. Mesmo assim, é um livro que eu vejo facilmente conquistando muitos corações.

CORPOS SECOS

Autor: Luisa Geisler, Marcelo Ferroni, Natalia Borges Polesso e Samir Machado de Machado

Editora: Alfaguara

Ano de publicação: 2020

Primeiro, o uso de novos agrotóxicos sem os devidos testes. Depois, a reação inesperada com as larvas que eles deveriam dizimar. Não se sabe quem foi o primeiro infectado, apenas que o surto começou no Mato Grosso do Sul. São os chamados corpos secos: espectros humanos que não possuem mais atividade cerebral. Mas seus corpos ainda funcionam e anseiam por sangue.
Seis meses depois, há poucos sobreviventes. Um jovem aparentemente imune à doença está sendo estudado por uma equipe médica e precisa ser protegido a qualquer custo; uma dona de casa vive em uma fazenda no interior do Brasil e se encontra sozinha precisando reagir para sair de seu isolamento; uma criança vê a mãe tentar de tudo para salvar a família e fugir do contágio; uma engenheira de alimentos percebe que seus conhecimentos técnicos talvez não sejam suficientes para explicar o terror que assola o país. Juntos, eles vão narrar suas jornadas, em busca do último refúgio ao sul do país. Escrito em conjunto por quatro autores, Corpos secos não é só um thriller, nem um romance-catástrofe. É uma narrativa sobre os limites da maldade humana, e as chances de redenção em meio ao caos.

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