Lançado pela primeira vez em 2017, Pachinko é um romance ficcional histórico escrito pela coreana-americana Min Jin Lee e publicado no Brasil pela editora Intrínseca.

Sobre o Livro

Pachinko acompanha a jornada de três gerações de uma mesma família durante as intervenções japonesas na Coreia que levaram milhares de imigrantes coreanos a tentarem uma vida melhor no Japão. Enfrentando as consequências das guerras, conflitos e armações políticas, uma família comum, iniciada pela adolescente Sunja, em 1900, encara os desafios de ser imigrante em um país diferente e ainda em meio a um período de extrema tensão histórica e social.

A família também enfrenta seus próprios dramas internos: passados que deveriam ser esquecidos, a luta para conseguir o mínimo de sustento, acidentes de trabalho, a perseguição política para com os que pensam diferente e os próprios dramas amorosos, familiares e individuais. 

“Sunja não conseguiu mais falar. Podia ver seu pai com clareza: seus lindos olhos, o lábio leporino, o andar trôpego e arrastado. Quando terminava o longo dia de trabalho, ele fazia bonecas para ela com galhos e espigas de milho secas. Quando havia uma moeda de cobre sobrando no bolso, comprava um caramelo para ela. Ainda bem que estava morto e não podia ver a criatura imundo que ela havia se tornado. Ele a ensina a se dar ao respeito, mas ela não havia se dado ao respeito. Tinha traído a mãe e o pai, que não haviam feito nada além de trabalhar duro e cuidar dela como se fosse uma joia.”

Iniciando com Sunja, Pachinko tem seu ponto de partida na família pobre da jovem adolescente coreana que se apaixona por um milionário fora da lei e acaba engravidando. É nesse momento que Sunja descobre que Hansu, o homem por quem ela tinha se apaixonado, é casado no Japão e só poderia cuidar dela tratando-a como amante.

Consciente da desonra moral que seria assumir uma posição como essa e receosa de expor a família que a criou com tanto amor a esse status vergonhoso, Sunja o rejeita e tem sua reputação salva pelo jovem pastor Isak, que se oferece para casar com ela e aceitar o filho que a moça carrega sob seu nome. Juntos, os dois partem para o Japão em uma tentativa de alcançar uma vida mais próspera ao lado do irmão de Isak, que já residia no país, contudo as intrigas, a xenofobia e os conflitos sociais não vão permitir que essa seja uma estadia fácil. Em meio a guerra e a pobreza, Sunja, seus filhos e seus netos vão ver como a história pode falhar com povos inteiros de uma forma extremamente cruel e dolorosa. 


Minha Opinião

Faltam palavras para descrever a experiência de leitura que é Pachinko. Em 500 páginas, a História – com H maiúsculo mesmo! – e todas as suas falhas, perdas, dores e sofrimentos são expostos para o leitor no formato ficcional de personagens que são tão bem modelados que poderiam ser reais. E, de certa forma, são um pouco, pois ao terminar a leitura é bem claro o quanto a pesquisa de Min Jin Lee influenciou em cada palavra escrita para compor Sunja e a história de toda a sua família.

Pachinko é um livro que demanda tempo não por ser uma leitura difícil, aliás, muito pelo contrário, o encadeamento da narrativa é extremamente dinâmico e muito fácil de imergir. O tempo é necessário para outra coisa: prestar atenção com o coração e sentir o vínculo que criamos com a família que acompanhamos desde a página um. Ao encerrar a leitura, me peguei chorando sem nem saber apontar exatamente qual era a causa, apenas por um conjunto inteiro de emoções que as conexões desse livro promovem por meio da trama e da elaboração ficcional dos membros dessa família. Sunja, Isak, Kyunghee, Noa, Mozasu, Yoseb e Yangjin são personagens dos quais não nos esquecemos e suas histórias, mesmo as secundárias, ficam conosco de forma extremamente marcante. 

Por se passar em um período longo que inicia com a invasão japonesa na Coreia e transita pelo período entreguerras, até chegar em 1989, outra característica louvável de Pachinko é o encadeamento histórico extremamente bem delineado. Os eventos grandes acontecem sempre de pano de fundo e por acompanharmos uma família comum, vemos não os bastidores dos conflitos da Segunda Guerra ou da Guerra das Coreias, mas sim as consequências desses eventos na dinâmica familiar de pessoas que nunca tiveram nada a ganhar com nenhum desses conflitos.

Acompanhamos assim o que acontecia fora dos holofotes e gabinetes administrativos: vemos Sunja e Kyunghee, sua cunhada, desafiando as ordens da casa para tentar lucrar dinheiro com a venda de comida típica para sustentar e alimentar a família, acompanhamos a perseguição política e religiosa em relação a Isak e o sofrimento causado em famílias perseguidas de forma arbitrária e autoritária pela polícia, vemos Noa, o filho de Sunja com o milionário Hansu, crescer tentando ser a criança perfeita na escola para não virar alvo de bullying das outras crianças, motivadas pela cultura xenófoba.

Cada momento do dia a dia dessa família mostra a força e também a dor de viver em um local do qual você não se sente parte, mas no qual ainda precisa tentar cavar o seu lugar. São muito fortes as cenas de exploração do trabalho e também as que vemos o quanto do preconceito sociocultural fazia com que as relações de trabalho e as sociais fossem abaladas pela desconfiança e pelo desdém. 

Para cada patriota lutando por uma Coreia livre, ou para cada coreano desgraçado lutando em nome do Japão, havia dez mil compatriotas no país e em outros lugares que estavam apenas tentando colocar um prato de comida na mesa. No fim das contas, o estômago era seu imperador.

Sunja é sem dúvida uma personagem da qual jamais irei esquecer. Símbolo real de força, fragilidade e resiliência, a personagem que acompanhamos ainda adolescente simboliza de forma verossímil a realidade de mulheres que sozinhas tiveram de sustentar suas famílias em períodos de extrema instabilidade. Logo no começo do livro, Pachinko já declara: “A história falhou conosco” e isso fica evidente quando vemos Sunja, sua cunhada e seus filhos tentando sobreviver e alcançar seu espaço em meio a essa realidade histórica que não os acolheu.

É a força de Sunja que torna tudo isso ainda mais emocionante e é impossível terminar o livro sem entender em profundidade a importância de uma personagem que foi filha, mãe, avó e uma mulher real, assim como tantas outras mulheres na história daqueles que ficam às margens. 

Os filhos de Sunja com Hansu e Isak também trazem consigo discussões espetaculares sobre o conceito de trabalho digno e a discussão em torno da vida acadêmica e religiosa. Mozasu, filho de Sunja com Isak, é quem traz um dos elementos mais presentes da trama desde seu título: o Pachinko, uma espécie de casa de jogos de azar muito famosa no Japão. Inicialmente como um trabalhador menor e ascendendo depois para administrador, Mozasu consegue fornecer uma vida melhor para a família graças ao trabalho no Pachinko, um destino que aos olhos de muitas pessoas é considerado inferior.

Noa, o irmão de Mozasu, filho de Sunja com Hansu, mas que tem em Isak a figura paterna, também levanta um pouco dessa discussão por insistir em uma carreira acadêmica, o que na época era extremamente difícil para a família deles e que precisou de muita luta e apoio financeiro externo para que fosse conquistado. É em torno de Noa que a figura de Hansu retorna para a narrativa e temos também toda uma discussão sobre figuras paternas e a imagem de Sunja diante do filho mais velho, por quem ela mudou toda a sua vida para cuidar e proteger.

“Durante toda a sua vida, Sunja tinha ouvido aquilo de outras mulheres, que elas deveriam sofrer: sofrer quando meninas, sofrer como esposas, sofrer como mães, morrer sofrendo. Go-saeng, essa palavra a deixava nauseada. O que mais havia além disso? Ela tinha sofrido para dar uma vida melhor a Noa, e ainda assim não fora o suficiente. Deveria ter ensinado o filho a sofrer as humilhações que ela havia bebido como água?”

Habilmente escrito, historicamente firme e emocional em todas as suas vertentes, Pachinko é um romance histórico épico que encanta e impressiona o leitor a cada página. Com uma história enraizada no fundo histórico de uma cultura diferente da nossa, a trama tanto ensina, quanto consegue atingir também o patamar de narrativa universal por destacar aquilo que todos conhecemos: a jornada de um grupo minoritário em meio a um contexto desigual e historicamente instável e desfavorável.

Local e universal na mesma medida, Pachinko é uma trama única, de força inabalável e com certeza é a recomendação certa não apenas para quem já tem uma predisposição para narrativas históricas, mas para todos os leitores como um todo, pois mais do que uma leitura incrível, Pachinko é também uma leitura necessária

PACHINKO

Autor: Min Jin Lee

Tradução: Marina Vargas

Editora: Intrínseca

Ano de publicação: 2020

Livro narra a saga de três gerações de imigrantes coreanos no Japão do século XX e foi recomendado por Barack Obama No início dos anos 1900, a adolescente Sunja, filha adorada de um pescador aleijado, apaixona-se perdidamente por um rico forasteiro na costa perto de sua casa, na Coreia. Esse homem promete o mundo a ela, mas, quando descobre que está grávida ― e que seu amado é casado ―, Sunja se recusa a ser comprada. Em vez disso, aceita o pedido de casamento de um homem gentil e doente, um pastor que está de passagem pelo vilarejo, rumo ao Japão. A decisão de abandonar o lar e rejeitar o poderoso pai de seu filho dá início a uma saga dramática que se desdobrará ao longo de gerações por quase cem anos. Neste romance movido pelas batalhas enfrentadas por imigrantes, os salões de pachinko ― o jogo de caça-níqueis onipresente em todo o Japão ― são o ponto de convergência das preocupações centrais da história: identidade, pátria e pertencimento. Para a população coreana no Japão, discriminada e excluída ― como Sunja e seus descendentes ―, os salões são o principal meio de conseguir trabalho e tentar acumular algum dinheiro. Uma grande história de amor, Pachinko é também um tributo aos sacrifícios, à ambição e à lealdade de milhares de estrangeiros desterrados. Das movimentadas ruas dos mercados aos corredores das mais prestigiadas universidades do Japão, passando pelos salões de aposta do submundo do crime, os personagens complexos e passionais deste livro sobrevivem e tentam prosperar, indiferentes ao grande arco da história.

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